Jane Austen: perspicácia e talento

 

Jane Austen

Naturalidade
Steventon, Hampshire, Inglaterra

Data de nascimento
16 de dezembro de 1775

Morte
18 de julho de 1817

 

 

 

sensibilidade-bom-senso

Sensibilidade e Bom Senso
(1811)

 

 

Orgulho e Preconceito
(1813)

 

 

Mansfield Park
(1814)

 

 

Emma
(1815)

 

 

Persuasão
(1818 – Obra póstuma)

 

 

A Abadia de Northanger
(1818 – Obra póstuma)

 

 

Lady Susan
(1871 – Obra póstuma)

Determinada, independente, de resposta rápida e com um sentido de humor cortante, Jane Austen partilhava com muitas das suas personagens femininas boa parte dos seus traços de caráter. Decidiu tornar-se escritora ainda na adolescência e fez disso a sua vida, embora só postumamente o seu nome tivesse sido revelado. Morreu há 200 anos e permanece uma das escritoras mais populares de todos os tempos.

Numa época em que as ambições de uma jovem passavam exclusivamente por casar e constituir família e em que o acesso à educação para as raparigas era escasso, Jane Austen recebeu uma secretária em mogno como prenda pelo 19.º aniversário. O móvel, que se fechava como uma caixa e podia ser transportado em viagem, foi-lhe oferecido pelo pai, num claro sinal de apoio às suas tendências literárias.

Jane Austen nasceu a 16 de dezembro de 1775, em Steventon, Hempshire, mas foi batizada apenas em abril, porque o inverno rigoroso desaconselhava saídas com bebés. Sendo a sétima de nove filhos do reverendo George Austen e da sua mulher, Cassandra Leigh, a chegada da menina foi celebrada pelo pai, que viu nela a futura companheira da até então única rapariga da prole, a filha Cassandra. Não se enganou: as duas raparigas tornaram-se cúmplices e a irmã mais velha foi sempre a confidente da escritora. Chegaram a estudar juntas em Oxford, mas acabaram por regressar – supostamente devido aos custos elevados das propinas – e a educação de Jane prosseguiu em casa, recorrendo aos livros do pai, dos irmãos e de um amigo de família.

A discussão de ideias era regra em casa dos Austen. Também as leituras em conjunto e a encenação de pequenas peças no celeiro de casa marcavam o quotidiano familiar. Acredita-se que Jane tenha participado nestas atividades – enquanto espectadora e atriz – e que a maioria das peças representadas fossem comédias, o que terá espicaçado as suas capacidades satíricas.

As idas à missa e o convívio com amigos e vizinhos eram outros dos entretenimentos das irmãs Austen. Este convívio passava muitas vezes por bailes – organizados ou improvisados – em que Jane se destacava. Terá sido num deles que conheceu Tom Lefroy. Tom era irlandês e tinha acabado de se licenciar em Direito. Nas cartas que Jane escrevia à irmã, a cumplicidade entre os dois parecia evidente. Jane descrevia a Cassandra as saídas com o “amigo”, e chegou mesmo a afirmar estar à espera de uma proposta da sua parte. Contudo, como muitas vezes a autora satirizava o sentimento romântico, não é claro se seria verdade. Certo é que, como nem Jane nem Tom tinham dinheiro – ele dependia de um tio, que lhe financiava os estudos –, a união entre os dois era impossível e acabaram por se afastar. Só na velhice Tom – que veio a ser Lord Chefe da Justiça da Irlanda – admitiu ter estado apaixonado por Jane Austen.

Personagens com vida própria

Elizabeth-Bennet

ELIZABETH BENNETT

Orgulho e Preconceito
Caracterizada pelo pensamento rápido e pela língua afiada, acompanhados de sentido prático, inteligência e sentido de humor, Elizabeth é a segunda de cinco irmãs de um casal com rendimentos moderados, vendo-se constantemente confrontada com a situação económica da família como um óbice para que ela e as irmãs consigam “bons casamentos”. No cinema, foi interpretada pela atriz Keira Knightley.

Durante a adolescência, Jane escreveu três pequenas peças e ainda as suas duas primeiras obras mais estruturadas, ambas de pendor humorístico. Amor e Amizade, escrito aos 14 anos, punha a ridículo as novelas sentimentais muito em voga na época – foi depois de a escrever que Jane decidiu tornar-se escritora profissional. Já em A História de Inglaterra – ilustrada pela irmã Cassandra –, a autora parodiava a escrita histórica popular.

Encerrada a adolescência, Jane passou para a escrita de textos mais longos e sofisticados. Resultaram deste esforço romances como Lady Susan, Elinor and Marianne e First Impressions, os dois últimos mais tarde publicados respetivamente como Sensibilidade e Bom Senso e Orgulho e Preconceito. As histórias eram lidas em família, ao serão, à medida que eram escritas, e o pai manteve-se seu apoiante incondicional: não só lhe coube o fornecimento de todo o material de escrita (sem poupar na qualidade do papel) como partiu dele a primeira tentativa de publicar uma obra – mais especificamente First Impressions, embora a carta enviada a um conceituado editor londrino tenha acabado devolvida.

Após a reforma do pai e a decisão de regressar a Bath – um choque para Jane –, a produção literária da autora decaiu consideravelmente. Não é, contudo, claro o que terá acontecido, uma vez que a maioria das cartas desta época foi destruída. A imagem que hoje existe de Jane Austen é aquela que a família quis deixar passar, já que, ao longo do tempo, várias gerações “branquearam” a vida da autora. Jane escreveu cerca de três mil cartas e apenas 160 sobreviveram. A maioria era dirigida à irmã Cassandra, que queimou boa parte delas em 1843, cortando ainda partes de outras. Mais tarde, foram também cortadas partes da nota biográfica que o irmão Henry escreveu em 1818. Outras vezes, a sua biografia foi claramente embelezada, sendo disto exemplo A Memoir of Jane Austen, publicado em 1869 por um dos seus 33 sobrinhos, e Jane Austen: Her Life and Letters, publicado em 1913 por William e Richard Arthur Austen-Leigh.

Sabe-se, no entanto, que foi durante o período de Bath que Jane recebeu a sua única proposta de casamento. O pretendente chamava-se Harris Bigg-Wither, um conhecido de sempre que tinha ainda a grande vantagem de garantir uma situação económica estável a Jane e, por consequência, à irmã e à mãe. Com isso em vista, a autora aceitou o pedido, mas no dia seguinte arrependeu-se e voltou com a palavra atrás, uma vez que não gostava realmente dele. Anos mais tarde, quando uma sobrinha lhe escreve a pedir conselho, Jane dir-lhe-á taxativamente: se não existe amor, não cases.

Só depois da morte do pai, no início de 1805 – que coloca Jane, Cassandra e a mãe numa situação financeira difícil e em total dependência dos irmãos – é que Jane retoma o ritmo da produção literária. Depois de algumas mudanças, passa a viver numa casa de campo em Chawton, localizada na propriedade de Edward, outro dos irmãos. É aqui que Jane vive os últimos oito anos da sua vida e onde a sua escrita ganha novo fôlego.

Personagens com vida própria

Darcy

MR. DARCY

Orgulho e Preconceito
Bonito, arrogante, taciturno e dono da grande propriedade de Pemberley, apaixona-se por Elizabeth Bennet, o que entra em conflito com o seu habitual sentimento de superioridade e o leva a tentar mudar o caráter para a conquistar. O ator Colin Firth é o mais famoso rosto de Mr. Darcy, tendo interpretado o personagem na adaptação televisiva do romance.

Sensibilidade e Bom Senso torna-se, em 1811, o primeiro romance publicado por Jane Austen e é, no geral, recebido com boas críticas. Seguem-se Orgulho e Preconceito, em 1813, e Mansfield Park, o livro mais rentável para a autora na época, em 1814.

Até à publicação dos livros, Jane dependia inteiramente da mesada dos irmãos. Não espanta, por isso, que a escritora tenha decidido trocar o primeiro editor por um mais conhecido – John Murray –, que lhe garantia mais rendimentos. Murray viria a publicar Emma, outro dos romances mais populares de Jane Austen.

A autora tomou consciência do declínio do seu estado de saúde ainda no início de 1816, mas continuou a escrever. Terminou Persuasão e, embora o seu estado piorasse consideravelmente, desvalorizava o facto. Ainda escreveu doze capítulos de The Brothers (mais tarde publicado como Sanditon), mas a doença acabou por levar a melhor. A autora veio a morrer, aos 41 anos, a 18 de julho de 1817, ficando sepultada na catedral de Winchester. Acredita-se hoje que tenha sido vítima da doença de Addison ou de linfoma de Hodgkin.

A Abadia de Northanger e Persuasão foram publicados postumamente ainda em 1817, e, por decisão dos irmãos Henry e Cassandra, tinham já a autora identificada. Até então, as suas obras tinham sido publicadas de forma anónima, pelo que Jane teve pouco reconhecimento público enquanto foi viva. Só no final do século XIX, com a publicação de livros sobre a sua vida por parte dos descendentes, ganhou maior popularidade. Hoje, também muito graças às adaptações da sua obra para o cinema e televisão, é mundialmente conhecida.

Personagens com vida própria

Marianne-Dashwood

MARIANNE DASHWOOD

Sensibilidade e Bom Senso
Aos 16 anos, Marianne representa a quota de “sensibilidade” do primeiro romance para adultos de Jane Austen. Romântica, intempestiva e emocional, tem como contraponto Elinor, a irmã mais velha, clara representante do “bom senso”. Kate Winslet e Emma Thompson deram vida às irmãs Dashwood na adaptação cinematográfica da obra, realizada por Ang Lee em 1995.

Ironia, sarcasmo, uso da metáfora, diálogos dinâmicos e o inevitável final feliz fazem parte da “assinatura” de Jane Austen. Se hoje o seu estilo é clássico e consensual, na época era original e, por isso, é difícil de inscrever a sua obra num movimento literário concreto.

Austen é associada à literatura romântica, mas, ao contrário dos autores românticos, privilegia o diálogo das personagens às descrições detalhadas do cenário onde decorre a ação. Também foge das longas frases trabalhadas, optando por um estilo mais simples. Além disso, às suas heroínas – regra geral, mulheres determinadas – é sempre garantido um final feliz, que acaba igualmente por poupar os vilões (mesmo que acabem “menos bem”, nunca morrem, como aconteceria numa obra romântica, por exemplo).

É verdade que a obra de Jane Austen foi muito influenciada pelo próprio ambiente em que vivia – os seus livros podem ser vistos como um certo tipo de crónica social da época, focada na vida do cidadão comum –, mas também houve autores que, declaradamente, a influenciaram. Romancistas como Frances Burney – famosa pelo tom satírico com que analisava a sociedade – ou a irlandesa Maria Edgeworth, a quem Austen admirava particularmente o uso de humor e ironia circunstancial, eram suas contemporâneas. E o trabalho satírico de Samuel Johnson, as obras clássicas de Walter Scott e os livros de Samuel Richardson também foram importantes para a sua escrita.

A obra de Jane Austen ganhou popularidade sobretudo ao longo do século XX, tendo exercido influência em vários autores contemporâneos. Das mais “óbvias” Helen Fielding (O Diário de Bridget Jones) e Sophie Kinsella (Louca por Compras) a nomes mais inesperados como J. K. Rowling (Harry Potter) e Irvine Welsh (Trainspotting). Razões mais do que suficientes para que, em Inglaterra, o bicentenário da sua morte esteja a ser assinalado com diversas exposições e para que, em setembro, seja lançada uma nova nota de dez libras com a sua imagem.

Por: Susana Torrão
Ilustrações: Gonçalo Viana

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As mulheres solteiras têm uma terrível propensão para serem pobres. O que é um forte argumento a favor do matrimónio.

Não quero que as pessoas sejam muito agradáveis. Isso poupa-me o trabalho de gostar muito delas.

 Uma mulher, especialmente se tem a má fortuna de saber alguma coisa, deve disfarçá-lo o melhor possível.

A sabedoria é melhor do que a sagacidade e, a longo prazo, certamente terá o riso do seu lado.

 

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Emma Thompson 

Atriz e argumentista do filme Sensibilidade e Bom Senso

Sensibilidade e Bom Senso salvou-me de me ir abaixo de uma forma muito má.

J. K. Rowling 

Autora da saga Harry Potter

Jane Austen é o pináculo ao qual todos os outros autores aspiram.

João Pereira Coutinho 

Jornalista

Jane Austen entendia mais sobre a natureza humana do que quilos e quilos de tratados filosóficos sobre a matéria.

Fotografias: Emma Thompson (Facebook: The Beauty and the Beast),
J. K. Rowling (Andrew Montgomery, Wall to Wall Media Ltd.)

 

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