Jacinto Lucas Pires: “A ficção é a verdade mais pura”

Poesia e alegria. Duas palavras que estão no cerne do novo romance de Jacinto Lucas Pires, A Gargalhada de Augusto Reis. Em conversa com a Estante, o escritor portuense fala ainda da “maratona” que é a escrita de um romance e comenta as novas vozes da literatura portuguesa.

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A Gargalhada de Augusto Reis é um romance de contraste entre dois tempos e dois homens. O que significa a gargalhada de que nos fala no título?

É daquelas coisas que não se podem explicar. Só a ler é que se percebe. Mas posso dizer que o fio que liga algumas das histórias e aquilo que justifica o percurso de Augusto Reis é a alegria. Como é que a alegria resiste às grandes transformações coletivas, pessoais, familiares, amorosas? É isso que o livro tenta perceber.

Ou seja, o que une estes personagens é não só a poesia, como já veremos, mas também a incessante busca pela alegria.

Sim. Nesta figura de Augusto Reis a alegria é um motivo de identidade. Ele é um resistente da alegria. E as outras personagens só estão no romance por terem alguma relação com Augusto Reis. Procuram também descobrir quem são através da sua relação com ele.

Augusto Reis é poeta e, simultaneamente, administrador de um banco. Como nasceu, na sua cabeça, esta personagem tão improvável?

Isso não vou contar [risos]. Mas as ideias são sempre uma mistura de coisas que vemos, que ouvimos, que nos contam. E depois há um salto de imaginação que não sabemos muito bem explicar. Só depois de esquecermos o ponto de partida é que conseguimos imaginar com mais liberdade.

Para mim, o mais difícil ao escrever este livro foi saber bem demais de onde é que algumas coisas vinham – ao contrário dos meus outros romances – e ter de esperar algum tempo para poder esquecer e imaginar em cima disso. Para poder ser suficientemente livre.

Por outro lado, ficamos a conhecer Djalma dos Santos, um jovem que vive na Amadora e que cresce a idolatrar um poema de Augusto Reis. Há um pouco de si nesta personagem? Também cresceu a admirar a obra de alguém ou a sonhar ser como alguém?

Acho que há sempre qualquer coisa minha em todas as personagens. Mesmo que eu não saiba. Às vezes, as pessoas pensam que em ficção é tudo mentira. Mas é ao contrário: a ficção é a verdade mais pura. É estarmos tão livres que podemos dizer tudo. É um bocado como os atores, que podem dizer tudo porque têm uma máscara. Nesse sentido, todos os personagens têm alguma coisa nossa.

Mas de facto é verdade que no Djalma isso é mais explícito, no sentido em que vemos nele a aprendizagem de um escritor. No fundo, como alguém se descobre enquanto artista ou criador. Há parecenças prosaicas, como o facto de ele ter estudado Direito quando afinal queria ser escritor, que foi também o meu caso. Mas além disso há uma descoberta de identidade que poderá ter a ver com o meu percurso.


Estive-me nas tintas para o rigor histórico.


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Porque decidiu situar as histórias de ambas as personagens na altura do 25 de Abril?

Foi algo que fiz com dificuldade, porque nunca tinha escrito sobre um tempo anterior à minha vida. Não sou um escritor de romances históricos, nem sequer é o meu impulso. Mas aqui para esta história e para Augusto Reis precisava disso. Como é que alguém que sofre um terramoto pessoal, profissional e até identitário no ponto mais alto da sua vida consegue sobreviver e manter viva a tal alegria que era o centro da sua força? Esta é a questão que me surgiu primeiro como definidora desta personagem e esse terramoto é o 25 de Abril.

Isso depois trouxe outras questões que para mim também foram difíceis enquanto escritor, como saber se alguém que está do lado errado da História pode ser bom e em que termos. Se pode sentir culpa e em que termos. Redime essa culpa ou não? E também como é que os outros o veem. É um território que eu percebo que está minado e que é complexo e delicado.

Então calculo que tenha sido difícil cumprir com o rigor histórico e dar voz a pessoas reais como Salazar.

Falando cruamente, estive-me nas tintas para o rigor histórico. Tirando coisas óbvias como o dia da revolução e coisas assim, não estive preocupado com isso. Imagino que até haja coisas que não são completamente factuais.

Foi, portanto, como no processo de construção das personagens: partiu de algo real e imaginou por cima.

Sim, exatamente. O que acho é que o mundo dentro do livro tem de ser coerente em si próprio. Por vezes, pensa-se na imaginação como algo sobre o presente ou o futuro, mas o que me interessava era imaginar para trás.

Há uma forma de ver o passado que é a forma dos historiadores, que consiste em ir aos factos e perceber porque é que aquelas pessoas fizeram aquilo. Mas as ferramentas da ficção e dos escritores são outras, são as ferramentas da imaginação. Então como podemos sentir que somos aquelas pessoas para as percebermos por dentro? Isso implica uma liberdade que não pode estar demasiado preocupada com a cartilha dos factos. Não é fazer diferente por fazer diferente, é só não nos sentirmos espartilhados nessa esquadria dos factos históricos.

O livro apresenta-nos ainda Sofia Bessa, uma realizadora que, no presente, está a trabalhar num documentário sobre a obra de Augusto Reis. Qual é o papel desta personagem na história?

É um papel aglutinador e, de alguma forma, uma espécie de contraponto. Ela é alguém que vem da democracia, é uma cineasta de esquerda a olhar para este poeta Augusto Reis que vem do Estado Novo. É uma mulher mais nova que está do outro lado político, mas também noutro regime, portanto é o outro lado do espelho.

Mas eu não penso as personagens como sendo funcionais. Primeiro, penso-as como pessoas. Depois, analisando de fora, a frio, quando é altura de cortar texto e mudar a sequência, aí sim estas questões aparecem. É como uma coreografia de personagens. Mas acho que é errado pensar primeiro nestes termos.


Um romance é como uma maratona. Tens de encontrar uma respiração, um ritmo que seja bom para aquele objetivo.


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Este é o seu primeiro romance desde O Verdadeiro Ator, de 2011. Quando soube que estava na altura de voltar a mergulhar numa história desta complexidade?

Na verdade, já estou a escrevê-la há muito tempo, quase desde essa altura. Fui fazendo outras coisas pelo meio – escrevi um livro de contos [Grosso Modo], várias peças de teatro –, mas fui sempre escrevendo este livro, que tem uma arquitetura mais complexa do que outros romances meus. Foi algo que me atrasou, o querer estar com cada personagem para que não fossem apenas bonequinhos na história de Augusto Reis, mas também o facto de querer ganhar alguma distância do todo.

Ainda assim, manteve alguma rotina de escrita?

Eu tenho uma rotina diária de escrita. Não especificamente para este romance, mas em geral tento sentar-me todos os dias ao computador. Há dias em que corre melhor, outros em que corre pior…

Mas estabelece um número mínimo de horas ou de caracteres, por exemplo?

Não, não faço isso. Há dias que até são negativos em termos de caracteres.

Escreve peças de teatro, argumentos de filmes e, mais recentemente, até canções. O que retira de cada uma destas experiências tão diferentes?

Retiro coisas muito distintas. Na música, sinto mais uma espécie de alívio e aquela liberdade de alguém que diz: “Agora vou jogar à bola com os amigos.” É um espaço que implica o máximo de rigor e atenção, claro, mas sinto essa liberdade, até porque são coisas mais curtas. Fazer uma canção, mesmo que demore algum tempo, é sempre um processo mais curto do que o de um livro.

Um romance é como uma maratona. Há um escritor de quem gosto, John Berger, que diz: “A maior tentação do escritor é querer acabar.” E no romance isso é, de facto, um perigo. Como na maratona, tens de encontrar uma respiração, um ritmo que seja bom para aquele objetivo.

Num conto temos uma liberdade muito diferente, podemos arriscar muito mais. Se falhar, foram ali umas semanas ou uns meses perdidos. Agora um romance, no qual se pode estar a trabalhar durante anos, é mais duro. É um bocado como desistir da maratona ao quilómetro 40.


Acho que agora há uma nova força na literatura portuguesa. Houve uma altura em que parecia tudo demasiado chato.


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Depois de um romance, normalmente vem a vontade de fazer algo diferente. Em que está a trabalhar neste momento?

Em muitas coisas diferentes. Estou a escrever outro romance, estou a meio de um conto…

O que é que já pode adiantar sobre esse outro romance?

Ainda não posso adiantar muito, até porque eu próprio ainda estou perdido. Mas é um romance que também já comecei a escrever há algum tempo, não é de agora. E é completamente diferente. É um outro salto. Vamos ver se consigo chegar ao fim dessa maratona.

Como vê o atual estado da literatura portuguesa?

Acho que agora há uma nova força. Houve uma altura em que parecia tudo demasiado chato. Quando a minha geração era nova houve várias pessoas a aparecer e depois a coisa ficou um bocado parada. Acho que o próprio sistema de distribuição estava confuso, houve a crise, as editoras deixaram de arriscar em novas vozes… Agora parece que há outra vez gente nova e com qualidade a aparecer.

Quem é que destaca?

O último livro do qual gostei mesmo foi um do Alexandre Andrade, Quartos Alugados. É um livro de contos. Mas há gente boa que ainda não li.

O que é para si um bom livro?

É uma resposta impossível, porque há bons livros tão diferentes uns dos outros. Mas acho que, por um lado, é um livro que nos espante. Quando há uma coisa que já sabíamos, mas que vemos como se fosse a primeira vez. É aquele sentimento de: “É exatamente isto. Já senti isto. Não sabia que isto se podia escrever.” É um livro que desperta uma espécie de vírus que está adormecido em nós e que, de repente, se torna um vírus bom.


Escrever também é ouvir. Não só leitores ou editores, mas principalmente o mundo.


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Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Estou a ler um livro de contos de Lydia Davis, que o meu irmão me trouxe dos Estados Unidos. Chama-se Break It Down e ele conseguiu que a Lydia Davis escrevesse: “Para o Jacinto.” É simultaneamente engraçado e sério.

O último livro que li antes desse foi Os Contosde Kafka, que tem os contos canónicos, mas outros também mais desconhecidos que nos abrem a cabeça maravilhosamente.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Venham com tudo o que têm. Sejam rigorosamente descarados e não façam compromissos. Façam exatamente aquilo que querem fazer, mas percebendo que isso também significa ouvir o que os outros têm para dizer. Acho que escrever também é ouvir. Não só leitores ou editores, mas principalmente o mundo. Há a tendência, quando achamos que encontramos uma voz nossa, de decidirmos que vamos dar apenas isso aos outros. Esse impulso é bom, ser-se descarado e estar nas tintas para o que os outros pensam, mas deve haver uma certa humildade de ouvir.

Aquilo que [Rainer Maria] Rilkedizia em Cartas a um Jovem Poeta é verdade: “Escreve apenas aquilo que te mantém vivo. Aquilo que, se não escrevesses, morrias.” Claro que há sempre um excesso nessa expressão, mas devemos escrever sobre algo verdadeiramente essencial para nós.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Como nunca vou escrever esse livro, os outros que pensem [risos]. Mas quando saiu O Verdadeiro Ator lembro-me que queria fazer um programa de leituras e música com o nome Eu Não Sou o Verdadeiro Ator. Talvez esse pudesse ser o título.


Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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