Isabel Silva: “A vida começa quando saímos da zona de conforto”

Com dois livros publicados, quem melhor do que Isabel Silva para nos falar de alimentação saudável, desporto e vitalidade? A Estante desafiou-a a escolher o seu entrevistador e a resposta foi imediata: Nuno Eiró. O que se segue é uma conversa entre dois amigos.

Entrevista por Nuno Eiró
Fotografias por Bruno Colaço/4SEE
Agradecimentos a Alecrim aos Molhos (Biomercearia & Biocafetaria)

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A Comida que me Faz Brilhar
Eis 60 receitas que permitem à apresentadora retirar os nutrientes necessários para correr, trabalhar e viver ao máximo. Com um capítulo dedicado ao seu fruto seco preferido (que partilha o nome do seu cão): caju.

E se em 2014 te tivessem dito que irias publicar dois livros de sucesso, fazer maratonas como quem bebe água, dedicar-te a uma filosofia de vida diferente e ter mais de 400 mil seguidores no Instagram?

Teria ficado muito surpreendida mas muito feliz e entusiasmada porque é tudo o que me apaixona na vida. Se as minhas redes crescem é porque os meus seguidores gostam do que faço e estão em contacto comigo. É o poder do digital. Ao contrário da televisão, as redes permitem uma linguagem bidirecional: coloca-se um post, as pessoas comentam e pode-se dar o retorno no momento.

Agora, pensar que ia correr maratonas… acharia impossível. Uma maratona é uma prova de superação, muda-nos como pessoa, estimula o melhor de nós. É uma prova de sacrifício, ajuda-nos a colocar a vida em perspetiva. E, de facto, as maratonas ajudaram-me a perceber que só não faço aquilo que não quero. Se quero correr uma maratona, vou conseguir. Mas tenho de ter foco, ser persistente, resiliente e, sobretudo, ter amor.

Acharia impossível mas, na verdade, também tem a ver comigo porque gosto de estímulos, de aprender, e acho que a vida começa quando saímos da zona de conforto. Acredito muito nisso. Correr a maratona ajudou-me a ser uma pessoa diferente – ou melhor – em tudo o que faço na vida. O que mais me surpreenderia seriam os livros. Nunca pensei lançar um livro. Nunca pensei estar agora no meu segundo livro.

E pensar que tantas pessoas compraram e compram esses livros.

Exatamente. Isto foi um convite que me surgiu. Nunca quis ensinar nada a ninguém, mas pensei: “Se me pedem isto é porque estou a inspirar pessoas.” E se vou inspirar os outros, se vou praticar o bem e tornar o mundo ainda melhor com esta comida que me dá energia, ai vou lançar um livro, vou! E vai ser muito giro. Deu-me muito prazer produzir os livros, mas uma das coisas que me dá mais gozo é todo o trabalho que posso desenvolver depois de os lançar: fazer workshops, dar sessões de autógrafos, ter tempo para estar com aqueles que comunicam comigo nas redes.


Aquilo de que as pessoas gostam em mim é o meu entusiasmo pela vida.


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É inspirador perceberes que hoje, além da televisão e de todas estas coisas de que temos falado, te tornaste também uma palestradora motivacional?

Então não é? Sinto-me tão inspirada! De repente estou nesse caminho e nunca foi algo que ambicionei. Foi acontecendo naturalmente. Essa é também a magia de tudo isto. Nada foi programado.

É sempre de dentro para fora?

Sempre.

O teu paradigma da alimentação, dos treinos e o teu foco vêm de coisas que querias fazer. Não era para os outros verem nem para ensinar ninguém.

Não. Nunca foi. Mas tenho um profundo prazer em dizer coisasao mundo. E tu sabes isso. Conheces-me bem, não estás aqui apenas na condição de entrevistador. És meu amigo. Por isso quis muito que fosses tu a estar aqui, porque conheces-me muito bem e sabes que aquilo que faço é de dentro para fora. Tenho de sentir. Porque, quando sinto, faço acontecer. E tu também és assim, que eu sei.

Sempre gostei de fazer desporto. As corridas têm um poder emocional muito grande porque despertam o melhor de mim. A minha vida não se confina a estar num determinado espaço durante 50 minutos a fazer um treino. Não. A corrida é uma preparação de três meses que obriga a pensar na alimentação para termos energia para correr 30 quilómetros.

Uma maratona é o teu Evereste?

Uma maratona é o meu Evereste. Mas se calhar, sei lá, daqui a três anos…

… o Evereste é o teu Evereste?

Exatamente. Ou daqui a três anos pode ser uma ultramaratona.

Deus te proteja e te perdoe [risos].

Eu sei lá! Até podes ser tu a desafiar-me para viajar contigo. “Ó Belinha, pega na mochila e vamos os dois durante dois meses não sei para onde.” Porque o desafio não tem de ser só desporto. Acho que, acima de tudo, aquilo de que as pessoas gostam em mim e que está espelhado nos livros é o meu entusiasmo pela vida.


Tenho um profundo prazer em dizer coisas ao mundo.


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O Meu Plano do Bem
Quem é Isabel Silva para lá das câmaras? Uma mulher energética que corre maratonas e prepara marmitas saudáveis para levar para todo o lado. Aqui estão as suas receitas e exercícios de eleição.

O primeiro livro é escrito em que ano?

2016. O Meu Plano do Bem.

E A Comida que me Faz Brilhar foi escrito em 2017. Há uma maratona gigante entre a primeira Isabel e a segunda?

Há. Fiz duas! Entre o primeiro e o segundo livro, corri a maratona de Sevilha e a do Porto.

E aí dentro há uma maratona de distância entre a Isabel que escreve o primeiro livro e a segunda?

Não há uma maratona de distância, mas há uma Isabel Silva que se consolidou. É a mesma, só que está mais crescida, a moça. Está mais mulher. Continuo com esta forma divertida de olhar para os alimentos e para tudo na vida. Continuo com o meu sentido de humor sempre em cima, que é muito estimulado não só pela comida e pela alimentação, mas pelas pessoas que me rodeiam. Tu, por exemplo, és uma delas. O que a gente se ri nos nossos encontros!

Sim.

E isso é importante porque a vida também se faz de afetos e eu sou muito ligada a esses afetos. Agora, é uma Isabel mais consciente. À medida que os dias e os meses vão avançando, vamos tomando mais consciência de nós, do que queremos fazer. Às vezes podemos não saber aquilo que queremos mas começamos a perceber o que não queremos.

O que distancia os livros é o meu amadurecimento ao longo de um ano. Em A Comida que me Faz Brilhar continuamos a ver o mesmo respeito pelos alimentos e a mesma vontade de me sentir saudável. Mas há algum amadurecimento. Os próprios pratos são confecionados de uma forma mais pura, mais clean. Tanto que, na capa, apenas estão legumes crus. Porque acredito que os alimentos brilham sozinhos.


Na minha despensa, eu é que mando. Fora de casa, como o que tiver de comer.


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Não és tu que fazes brilhar estes alimentos? Porque há muitos que a maioria das pessoas nem conhece, não sabe dizer os nomes, nunca viu numa mercearia.

Tiro o melhor partido dos alimentos mas o brilho é deles. Eu só agarro neles e tento fazê-los brilhar mais no meu corpo. Acho que é isso que as pessoas deviam fazer. Entender a origem dos alimentos, a sua mais-valia, por que motivo são o nosso melhor medicamento. Acredito que são os alimentos que nos curam, nos dão energia, vitalidade e nos fazem estar bem-dispostos e querer correr, trabalhar mais e ter vontade de estar com os amigos.

Para que fique escrito: este livro não é um livro de receitas nem um livro de nutrição. Certo?

Não é. Até porque não sou nutricionista. Não sou chef de cozinha. Ai, o que seria! Por favor. Adoro ir a restaurantes, jantar fora e conhecer pratos novos. Sou repórter, apresentadora de televisão, mulher de 31 anos com uma vida superagitada, maratonista que respeita a comida do bem e privilegia a origem dos alimentos, mas não posso perder mais do que 20 minutos na cozinha. Por isso é que sou a menina das marmitas.

Sou muito organizadinha. Organizo-me de tal maneira que, quando tenho de confecionar os meus produtos, já tenho tudo pronto no frigorífico. É a prateleira dos biovivos, das leguminosas (que já estão cozidas), dos legumes crus (que só tenho de misturar num prato ou numa taça)…

Quem cometeu o pecado de ainda não ter aberto este teu segundo livro, é exatamente isso que lá vai encontrar?

Exatamente isso. O meu frigorífico e a minha despensa. Como estão organizados. Como me organizo no início da semana para os dias em que não posso perder mais do que dez minutos na cozinha. E este livro tem também um ponto dedicado às lambarices porque adoro estar à mesa e privilegio muito o sabor dos alimentos, mas…

Mas és muito lambareira, eu sei.

Sou muito. Não tanto dos salgados, gosto muito é de uma boa lambarice. Por isso tenho uma secção só com as minhas lambarices preferidas. A aletria da minha mãe – claro que, em vez de leite, juntei-lhe bebida de arroz. A minha sanduíche de gelado de açaí – adoro sanduíche de gelado e o fresco, o crocante, o doce da tâmara. Tenho também pizzas, hambúrgueres, bife de tofu com abacate e comida crua, fácil de confecionar. E para ter sabor, quatro ou cinco receitas de molhos – do bem, sempre – que as pessoas podem adicionar.

Os olhos comem mas o paladar também é importante.

O paladar é superimportante. E a minha comida é saborosa. O que seria se não fosse! E há outra coisa: as pessoas têm de perceber que a comida saudável é comida que dá saúde. E a comida que dá saúde é a que privilegia a natureza dos alimentos. Não é sinónimo de restrição calórica, comida saudável também tem calorias.

Posso comer uma coisa muito calórica mas tenho de garantir que tenho ali os nutrientes do bem. Por isso prefiro besuntar-me com um hambúrguer bem confecionado ou uma tosta de abacate do que comer um produto enlatado com as mesmas calorias mas zero nutrientes.

E com isto te digo que não sou fundamentalista. Nada. Se fizeres anos e tiveres um bolo incrível,bem confecionado, mas que tem o açúcar que tem de ter, eu também como uma fatia. Agora, isso não é uma regra na minha vida. Na minha despensa, eu é que mando. Fora de casa, como o que tiver de comer.


Ser produtora de conteúdos é o que quero fazer o resto da minha vida.


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A tua vida é cheia de regras?

Não. A minha vida tem as regras que me fazem feliz.

Que também vêm no livro?

Sim. Mas não são regras universais, são as que me dão felicidade e cada um tem de ter as suas. Acho que é importante levarmos a vida com alguma regra. Termos algum foco, digamos assim. Mas não quero ensinar nada a ninguém. Estas são as regras que me fazem feliz. Cada um terá o seu jeito de encontrar o equilíbrio.

Voltemos às palestras, então. Isto que estamos a fazer agora, que é uma simples conversa, é na realidade uma palestra. Porque tu não queres ensinar nada a ninguém, apenas passas o teu conhecimento. É isso?

Sim, passo aquilo que me faz feliz. Gosto muito de falar em público porque posso passar a minha emoção. Acredito tanto nisto, Eiró! Acredito tanto que os alimentos são o meu melhor medicamento e que as corridas me fazem mais feliz. E digo-te: se for correr dez quilómetros num dia de sol e puder dar um mergulho no mar, não preciso de mais nada nesta vida.

E se estiver a chover também dás um mergulho.

Dou na mesma! Adoro levar o meu corpo ao auge. É tão bom sentirmos adrenalina! Sentirmos o corpo a esgotar-se mas cortarmos a meta e dizermos: “Epá, consegui!” Adoro sentir essa emoção. E nas palestras tenho a liberdade de expressar isso. Gosto de escrever o meu blogue. Mas sou muito mais do vídeo, porque no vídeo consigo passar emoção. As palestras são boas porque posso olhar para a pessoa, posso tocar nela e passar algo.

E se há quatro anos te tivessem dito que te irias tornar uma exímia produtora de conteúdos?

Acho que já tenho um bocadinho disso, sim. É o que quero fazer o resto da minha vida. Quando me perguntam se quero ser apresentadora de televisão, é muito mais do que isso. O que quero mesmo é comunicar, produzir conteúdos e saber que aquilo que comunico faz bem e torna as pessoas mais felizes. Isso é o mais importante. Tudo para mim tem de ter um sentido.

Quando tínhamos aquelas reuniões de alinhamento do Somos Portugal e de outros programas, eu era sempre aquela que queria perceber o porquê daquilo. Epá, para mim tudo tem de ter um sentido.

E eu dizia: “Ó mulher, cala-te! Tanta dúvida!”

Sabes, não tem a ver com ser uma pessoa indecisa ou insegura. É que gosto de perceber para que é que as coisas servem. É assim que olho para a alimentação: para que serve aquele alimento? De que modo é que aquele alimento pode dar-me energia para correr ou estar bem com os outros?

A verdade é o segredo do teu sucesso?

Tenho a certeza que sim. De facto, sinto esse sucesso. E fico tão feliz por perceber que vem da verdade e da honestidade.


 

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