Isabel Lucas: “O fracasso é uma palavra maldita na América”

Percorreu os Estados Unidos durante um ano. Embrenhou-se na cultura. Observou as pessoas, as clivagens sociais e políticas. E, com 16 romances como ponto de partida, elaborou as 12 reportagens que compõem o livro Viagem ao Sonho Americano. Em entrevista, Isabel Lucas – jornalista e colaboradora regular da Estante – revela-nos mais sobre essa viagem inquietante.

 

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Viagem ao Sonho Americano dá a conhecer a realidade dos Estados Unidos através da sua literatura. Esta foi a sua forma de conjugar o jornalismo com a paixão pelos livros?

Para mim foi uma forma natural, uma vez que conheço razoavelmente bem e tenho trabalhado muito ultimamente com literatura americana. À medida que ia lendo, deu-me vontade de partir, pelas pistas que muitos livros me davam sobre a realidade. Porque a literatura tem esse aspeto de, através da imaginação dos escritores, transportar a realidade e tratá-la de uma maneira que muitas vezes é mais útil para ajudar a entender a complexidade que é aquele país, que é um país-continente. Mas para responder à pergunta, foi uma forma natural, para mim, de partir para esta viagem.

A ideia para o livro surgiu repentinamente, ou sempre foi um desejo seu?

Foi uma ideia que estava um bocadinho adormecida e que surgiu durante uma conversa com o professor Vasco Rato, presidente da FLAD [Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento]. Eu tinha-lhe feito uma proposta de reportagem, foram cinco minutos de conversa, e a proposta evoluiu para isto. Foi natural. 

Escolheu 16 romances que inspiraram 12 reportagens. A seleção foi feita gradualmente, durante a viagem, ou escolheu-os de antemão?

A única coisa que eu planeei para a viagem foram mesmo os romances. E tive o cuidado de selecionar livros que fossem geograficamente diferentes, estilisticamente diferentes, que falassem de temáticas diferentes e que pertencessem também a épocas diferentes, para me permitirem ter uma abrangência o mais alargada possível da geografia dos Estados Unidos.

Quais desses livros a marcaram mais, pessoalmente?

Já tinha lido todos. Sabia porque os estava a escolher. Não há ali nenhum livro de que não goste, mas há um ou outro que, pelas características que têm, me atingiram de um modo mais pessoal. Falo do Moby Dick, por tudo aquilo que o livro representa em termos de pensar sobre o que somos. Outro dos livros que me suscitou muitas interrogações, perplexidade e inquietações foi A Piada Infinita, do David Foster Wallace. E há dois outros livros que eu considero grandes obras da literatura americana, que são As Aventuras de Augie March, de Saul Bellow, e Pastoral Americana, de Philip Roth. Mas é muito difícil dizer se gosto mais deste ou daquele. Cada um me marcou à sua maneira.


A literatura permitiu-me conhecer aquele continente de uma maneira que, de outra forma, não teria conseguido conhecer.


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Acredita, então, que a literatura é o melhor veículo para conhecermos a verdadeira América?

Acho que, como todas as artes, depende muito de quem a está a interpretar e do artista que está a olhar a realidade. Neste caso, há escritores que são capazes de nos trazerem grandes questões e estímulos para ir à procura de qualquer coisa. E quando fui fazer isto, foi isso que senti. Aqueles livros faziam-me fazer perguntas, suscitavam-me curiosidade, faziam-me querer saber mais, e a literatura, a grande literatura, tem esse efeito sobre nós. Por isso é que digo que foi um bom ponto de partida. Não sei se me deu grandes respostas, mas a literatura permitiu-me conhecer aquele continente de uma maneira que, de outra forma, não teria conseguido conhecer. 

Acompanhou de bem perto a campanha eleitoral que culminou na vitória de Donald Trump. O que mais a surpreendeu naquilo que viu no terreno e nas conversas com as pessoas?

É difícil responder a isso, porque quando se está numa cidade como Nova Iorque percebe-se que há realidades muito distintas e há muita gente que não se toca. As pessoas conseguem viver cada um no seu território, se quiserem. Mas, se quiserem, também se podem fundir e perceber o que está do outro lado. Eu, tendo conhecimento desta cidade, não tive tanta surpresa – que existiu, naturalmente –, mas foi mais a constatação de que a América é muito diferente entre si, que a realidade de um nova-iorquino não tem nada a ver com a realidade de uma pessoa que vive no Idaho ou no Texas, que as preocupações dessas pessoas são completamente diferentes e que os argumentos políticos que levam a votar numa pessoa ou noutra são muito diferentes.

Eu ficava sobretudo perplexa com as razões de quem defendia politicamente Donald Trump, que têm a ver com o medo do outro, o medo do desconhecido. A América é feita de imigrantes e é como se o imigrante instalado recebesse muito mal o imigrante que chega. Quando estas pessoas olham para a Europa e veem o “papão” terrorismo, e veem certas diferenças que não são entendíveis, sobretudo na religião, há medo. As pessoas têm medo de que alguém chegue lá e percam as pequenas conquistas que tiveram. Isso era algo que eu lia nos jornais, muitas vezes, e também em muitos destes romances… mas isso é uma coisa, outra é chegar e perceber que aquele raciocínio existe.

E diria que notou também, mesmo que não fosse sustentada, uma vontade de, simplesmente, mudar radicalmente?

Sim, falava-se muito disso. “Queremos mudar.” E quando se perguntava “Mas mudar como? Para quê?”, falava-se sempre que a América tem de voltar a ser segura, a América tem de voltar a ser poderosa. E isto não era só de uma geração que conheceu a grande América dos anos 50, que veio da guerra e veio forte, que transportou o capitalismo por todo o mundo. Há também uma geração muito nova que tem esse argumento, e que não é muito diferente dos argumentos dos jovens europeus nacionalistas. Quando se falava que a América tinha de mudar – e falava-se disso à esquerda e à direita, mesmo os apoiantes de Bernie Sanders à esquerda tinham estes argumentos –, era uma mudança que não se sabe muito bem o que implica. E isto aconteceu num momento em que os Estados Unidos tinham a menor taxa de desemprego dos últimos anos, estavam a crescer economicamente. Que mudança é esta? Não se percebe muito bem.


Apesar de ser portuguesa, sinto que vivi com aquelas pessoas a depressão de ver Donald Trump ganhar as eleições dos Estados Unidos.


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Tendo em conta as informações que foi recolhendo ao longo dos meses, o resultado das eleições surpreendeu-a?

Naquele momento, sim. Quando comecei a viajar, comecei a perceber que havia muitos apoiantes do Donald Trump. E houve uma coisa surpreendente para mim: as pessoas diziam que ou votariam Sanders ou votariam Trump, que são dois polos opostos. E votariam neles porque era um voto contra o sistema político americano, que achavam corrupto, cheio de vícios, que se alimentava do dinheiro que os americanos ganhavam. Portanto, havia um lado de revolta contra o sistema político instalado e que a Hillary Clinton, para eles, representava de uma forma muito objetiva. Quando comecei a ouvir estes argumentos, achei que o Trump podia ganhar as eleições.

Depois houve uma sucessão de momentos em que, cada vez que falava, o Trump parecia enterrar-se. Fazia aqueles discursos que, para nós, eram disparatados. Era olhado como uma espécie de palhaço por grande parte da comunicação social, era uma piada. E a piada cresceu muito, e ocupou muito espaço na comunicação social, e ocupou muitas páginas. Entretanto, nos debates que aconteceram a seguir ao verão, parecia que ele perdia todos e que a Hillary Clinton estava a ganhar calmamente. Havia jornalistas que me diziam: “Ela só precisa de estar calada, não tem de fazer mais nada.”

Eu nessa altura estive em Nova Iorque e no Texas – curiosamente na única cidade democrata do Texas, que é El Paso –, e havia a crença, entre os jornalistas e as pessoas supostamente mais esclarecidas, de que ele iria perder. E comecei a tentar convencer-me: “Sim, ele vai perder.” Eu estava em Nova Iorque no dia das eleições e no dia anterior e havia um otimismo muito grande, porque Nova Iorque não é republicana nem “trumpiana”. Apesar de ser portuguesa, sinto que vivi com aquelas pessoas a depressão de ver aquele homem ganhar as eleições dos Estados Unidos. Foi um “baque”.

Percorreu milhares de quilómetros ao longo de 12 meses. Preparou-se de alguma forma para o esforço que a viagem exigia? O que foi mais difícil?

Não, fui andando. O mais difícil foi mesmo constatar as grandes clivagens sociais da América, porque estamos sempre a encontrar gente obscenamente rica e gente muito pobre, de uma pobreza que dificilmente encontraremos na Europa. É muito angustiante. Isso que acontece muitas vezes, sobretudo nas grandes cidades, agride. Foi das coisas que mais me agrediu durante esse tempo. E quando eu digo que muitas realidades não se cruzam, quero dizer que muitas destas pessoas que vivem na pobreza extrema veem o lado rico, e os ricos veem este lado mais decadente, mas não há um olhar de quem vê o outro, são duas realidades distintas que não se querem ver uma à outra, porque ver-se uma à outra implica ter de pensar muita coisa.

Muitas daquelas pessoas que vivem de maneira mais pobre… penso que há nelas uma certa descrença quando se fala do “sonho americano”. Há apenas um lado de sobrevivência absoluto. Ou estão loucos por efeito de álcool, ou por efeito de uma alienação de sobrevivência, ou por efeito da droga, ou simplesmente se colocam à margem porque quem fracassa, fracassa mesmo. E o fracasso é uma palavra maldita na América.

Isso é algo em que a América contrasta com a Europa, ou somos semelhantes nessa descrença?

Não sei bem… Acho que esta ideia do sucesso e do dinheiro é muito mais preponderante na América. Todo o discurso, desde os anúncios publicitários ao discurso político ou à filosofia das empresas, é o de ter sucesso. E ter sucesso é ter dinheiro. E ter dinheiro é tê-lo individualmente. O culto do indivíduo em que a sociedade americana se baseia é o de que “eu, pessoa singular, posso vencer”, e vencer aqui – nós esquecemo-nos disto – implica que alguém fique por baixo de nós. A cultura americana exportou-se para todo o mundo e todos nós temos um bocadinho disso. Esta sociedade que nos está sempre a pedir para sermos os melhores, se calhar vem um bocadinho daí.

Os discursos têm quase sempre a ideia implícita de vencer economicamente, porque a vida é caríssima nas grandes cidades, exige que as pessoas trabalhem, trabalhem e pensem em ter dinheiro, porque é a única maneira de se manterem à tona. E os bancos e as empresas vivem disso, e as pessoas vivem de créditos, e os créditos dão acesso a mais créditos, e as pessoas andam neste ciclo.

Temos [europeus] alguma coisa disso? Provavelmente temos. Quando eu estava a ver aquela gente mais pobre, e a maneira como a “máquina” expulsa quem não entra nela por algum motivo, pensava muito em nós, portugueses e europeus, e em como ainda podemos não entrar aqui. Isso reconfortava-me, de alguma maneira. Mas tive muitas vezes a interrogação: “Será que um homem como Trump podia ganhar num país europeu?” Não tenho tantas certezas assim.

Depois vieram as eleições na França, na Holanda e na Áustria, em que se pensava que podia acontecer qualquer coisa assim, embora com gente que não é bem o Trump, e houve aqui uma sensação de “OK, a Europa ainda parece poder sobreviver a isto”.


Tive muitas vezes a interrogação: ‘Será que um homem como Trump podia ganhar num país europeu?’


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Durante a viagem aos Estados Unidos, tinha alguma rotina de escrita? Foi de alguma forma diferente da sua rotina habitual?

Tive um acrescento, porque eu levei toda a minha rotina daqui. Portanto, continuei a trabalhar como se estivesse a trabalhar em casa, com o trabalho normal, sobretudo para o Público, mas também para outras publicações com as quais colaboro regularmente. Levei tudo isso comigo e depois houve mais o trabalho que tinha nestas reportagens. Mais os fusos-horários.

Calculo que tivesse sido ainda mais complicado de gerir o trabalho com as diferenças horárias.

Sim, é cansativo. Mas eu durmo muito pouco e isso permite-me não sentir tanto essas diferenças de horário. Sabia que tinha de escrever um texto para ser publicado no primeiro domingo de cada mês e durante dois dias fechava-me para o mundo. Ia ver fotografias, ia ver os sublinhados e as notas dos livros, ia escutar sons que gravava, e ficava fechada a escrever, só parava para comer. 

Se fizesse o mesmo tipo de reportagem em Portugal, que livros escolheria para contar a nossa história?

É complicado. Portugal é muito mais pequenino, menos diverso, e as coisas, infelizmente, estão muito concentradas. É complicado… Mas se calhar escolheria alguns livros do [António] Lobo Antunes, escolheria o Raúl Brandão, a Agustina Bessa-Luís… E dos contemporâneos acho que trazia gente sobretudo das margens, porque há gente muito interessante neste momento a escrever sobre as margens, as periferias. Mas tenho de pensar mais sobre isso, é complicado [risos].

 


Há sempre um americano por perto na minha vida.


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Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestaram neste livro?

Eu tenho gostos muito diferentes, mas a literatura americana, certamente. Comecei a lê-la muito cedo e entrou muito cedo nas minhas rotinas. Há sempre um americano por perto na minha vida, na minha estante, nas minhas referências. Penso na Eudora Welty, na Flannery O’Connor, no Saul Bellow, no Herman Melville… Depois há os ingleses, os clássicos, como a Jane Austen, gosto muito da Iris Murdoch também. Voltando para os mais europeus, gosto muito do Claudio Magris, do Javier Marías… Gosto de muita coisa, gosto muito de literatura.

Vai buscar um bocadinho de cada parte do mundo.

Sim, vou. Gosto muito disso, dessa diversidade. E quando acabo um livro, por melhor que esse livro seja, tento procurar qualquer coisa completamente diferente. Se calhar para não me atingir nas marcas que aquele livro me deixou. E fico sempre muito contente quando descubro alguma coisa diferente.

O que é para si um bom livro?

É aquele que me suscita interrogação, que mexe comigo, que me faz reagir de alguma maneira. Há pessoas que se lembram muito de enredos e das personagens, mas eu retenho muito os ambientes. Sei que li aquele livro naquele ambiente porque é como se o ambiente contaminasse o resto. A minha circunstância e a circunstância daquele livro interagem e isso suscita-me reações e inquietações.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Foi um livro de trabalho. Acabei de escrever sobre ele. Tinha-o lido em inglês quando saiu na América e agora reli a tradução. Foi o Lincoln no Bardo, do George Saunders.

Já tem ideias para um próximo livro?

Ideias tenho, mas são muito vagas [risos].

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Não faço ideia [risos]. Não seria eu a melhor pessoa para dar um título à minha vida. Fica em aberto.


Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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