Isabel Allende: “Achei que passaria o resto da vida sozinha”

A escritora mais vendida da língua espanhola acaba de lançar o romance Para Lá do Inverno. Novamente apaixonada e no auge dos seus 75 anos, a chilena Isabel Allende falou com a Estante sobre o “inverno emocional” da sua vida, o “perigo” que Donald Trump representa para o mundo e as dificuldades que, ainda hoje, as mulheres enfrentam para serem reconhecidas no mundo da escrita.

Primeiras palavras

“Era final de dezembro de 2015 e o inverno ainda se fazia esperar. O Natal tinha chegado com os tilintares aborrecidos dos sininhos e as pessoas continuavam de manga curta e sandálias, uns a comemorar aquela confusão das estações e outros receosos por causa do aquecimento global, enquanto das janelas espreitavam árvores artificiais salpicadas de neve prateada, confundindo os esquilos e os pássaros. Três semanas após o Ano Novo, quando já ninguém pensava no atraso do calendário, a natureza despertou de repente e, livrando-se da preguiça outonal, fez desabar a pior tempestade de neve de que havia memória.”

Já escreveu romances sobre crianças que se apaixonam, sobre jovens que se apaixonam, mas este novo livro, Para Lá do Inverno, mostra-nos uma forma diferente de amor: amor entre pessoas idosas. O que a levou a escrever sobre este tema?

Há três anos, divorciei-me do meu marido ao fim de 28 anos de casamento. Tinha 72 anos e achei que muito provavelmente passaria o resto da minha vida sozinha. Então perguntei a mim própria o que leva alguém a apaixonar-se, porque e como o amor acaba, se é possível apaixonarmo-nos quando somos velhos e muitas outras questões semelhantes. Tentei explorar estes temas no meu romance anterior, O Amante Japonês, onde o casal está na casa dos 80, e agora novamente em Para Lá do Inverno, onde o casal está na casa dos 60.

A experiência de nos apaixonarmos difere consoante a idade que temos?

Acho que apaixonarmo-nos ou estarmos apaixonados é semelhante em qualquer idade. Uma pessoa pode amar apaixonadamente enquanto adolescente ou avô. Mas quando envelhecemos sabemos que apenas temos mais alguns anos para viver, por isso há uma sensação de urgência. Queremos desfrutar do amor na sua plenitude; não há tempo a perder.

Quanto de si, enquanto mulher e enquanto pessoa, estão neste livro e nestes personagens?

A personagem Lucía, a jornalista chilena, é parecida comigo, embora não estivesse a pensar em mim quando escrevi sobre ela. A modelo para a personagem foi uma amiga minha do Chile, que infelizmente morreu há não muito tempo. Tal como eu, a Lucía é mandona, impulsiva e entusiasta; apaixona-se facilmente e não tem medo de aventura.

A famosa frase de Albert Camus – “No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível” – é a principal inspiração do seu livro. Consequentemente, faz com que os seus personagens passem pelo inverno das suas vidas. O objetivo é transmitir uma mensagem de esperança aos leitores?

Nunca pretendo transmitir uma mensagem nos meus romances. Quero apenas contar uma história. Todos passamos por invernos emocionais nas nossas vidas, e por vezes esses invernos duram muito tempo, parecem intermináveis. No entanto, a natureza da vida é a mudança, por isso podemos ter esperança em tempos melhores. E todos temos no interior a possibilidade de um verão invencível que está pronto para se manifestar se abrirmos os nossos corações e nos disponibilizarmos a correr riscos.

Qual foi o inverno da sua vida?

Durante vários anos, o meu casamento esteve em declínio. Eu saiba que o tínhamos de terminar, mas essa é uma decisão muito difícil tão tarde na vida, quando a alternativa pode ser a solidão. Finalmente, divorciámo-nos. Foi muito triste para mim, porque amei muito o meu marido e tentei realmente salvar a nossa relação. No mesmo período, a minha querida agente, Carmen Balcells, morreu de forma súbita. Três dos meus melhores amigos e a minha cadela Olivia também morreram. Foram demasiadas perdas e, pela primeira vez, senti que estava a envelhecer. Não tenho medo da morte, mas temo a dependência e a decrepitude que são quase inevitáveis à medida que envelhecemos. Durante alguns anos, vivi um destes invernos emocionais.


Donald Trump é ignorante, arrogante e narcisista; enquanto presidente dos Estados Unidos é muito perigoso para o país e para o mundo. Pode causar danos irreparáveis.


O livro também aborda o tema da migração através do personagem guatemalense que imigra ilegalmente para Nova Iorque. Tendo em conta que vive nos Estados Unidos e que também foi, em tempos, imigrante, como vê as atuais políticas migratórias do país? É um cenário assustador?

Todo o cenário político dos Estados Unidos é assustador, não apenas as políticas anti-imigração. O mau exemplo chega da Casa Branca. Em muitos países – e certamente nos Estados Unidos – existe racismo, xenofobia, misoginia, fascismo, extrema direita e supremacia branca, mas não são expressados abertamente. Estas ideias e sentimentos são vergonhosos.

Com Trump como presidente, estes elementos da sociedade têm um megafone para expressarem o seu ódio. Donald Trump é ignorante, arrogante e um narcisista; enquanto presidente dos Estados Unidos é muito perigoso para o país e para o mundo. Pode causar danos irreparáveis.

Tem uma fundação que se dedica a capacitar raparigas e mulheres de todo o mundo. No que diz respeito a literatura, as mulheres escritoras também são tratadas de forma diferente?

Publiquei o meu primeiro romance em 1982, durante o boom da literatura latino-americana. Foi um evento inteiramente masculino. Não existiram vozes femininas, embora existissem mulheres a escrever, no nosso continente, desde Sor Juana Inés de la Cruz no século XVII. Na Europa e nos Estados Unidos a situação era melhor. Havia muitas escritoras conhecidas, ainda que raramente recebessem tanto respeito e admiração como os homens escritores.

As coisas mudaram nas últimas décadas. Agora há muitas escritoras de grande sucesso. Mas continuam a ter de fazer o dobro do esforço para obter metade do reconhecimento dos homens.

O que aprendeu com todas as mulheres fortes que criou nos seus livros?

A maior parte das minhas personagens é baseada em pessoas reais. Conheço mulheres que sobreviveram a tragédias terríveis e conseguiram reerguer-se e, muitas vezes, prosperar. O sofrimento tornou-as mais fortes e inteligentes; não as fez amargas. Com essas mulheres, aprendi o poder da comunidade e da irmandade. Quando somos apoiadas por outras mulheres, não somos vítimas; somos guerreiras.

Sempre levou muito a sério o processo de investigação para os seus romances. No caso de Para Lá do Inverno chegou a visitar Nova Iorque no inverno?

Estive em tempestades de neve em Nova Iorque, passei muito tempo em Brooklyn, estive em Guatemala e no Brasil, e evidentemente conheço o Chile. Todos os locais referidos no livro foram pesquisados.


Agora há muitas escritoras de grande sucesso. Mas continuam a ter de fazer o dobro do esforço para obter metade do reconhecimento dos homens.


A Casa dos Espíritos foi o seu primeiro romance – e um dos mais bem-sucedidos. Paula foi o seu primeiro livro de não ficção e, é claro, a sua obra mais íntima. Diria que estes são os seus livros mais queridos?

Aparentemente esses são os livros mais queridos para os meus leitores. Estou muito grata ao A Casa dos Espíritos porque me deu uma voz, fez de mim uma escritora e pavimentou o caminho para todos os meus outros livros. E o Paula salvou-me do desespero após a morte da minha filha. Escrever esse livro ajudou-me a ultrapassar o primeiro ano de luto, quando o meu coração estava partido.

Tem uma rotina de escrita?

Passo a vida a escrever, a pesquisar, a ler e a imaginar. É essa a minha rotina.

Li que inicia todos os seus livros no dia 8 de janeiro. Mantém essa superstição?

Não é superstição, é disciplina. Ter um dia certo para começar permitiu-me escrever 23 livros. Organizo o meu ano de modo a ter vários meses de silêncio e solidão para escrever, começando a 8 de janeiro.

Quais são as suas principais influências literárias?

Não sei. Tudo me inspira e influencia, não apenas aquilo que leio.

Qual foi o último livro que leu?

Tendo andado a fazer pesquisa para o livro que vou começar no dia 8 de janeiro de 2018, por isso a maioria das minhas leituras por estes dias tem sido sobre os temas que vou explorar. Não tenho lido ficção recentemente.

Já está a trabalhar no novo livro? Pode dar-nos um teaser?

Como disse, estou apenas a pesquisar. Geralmente levo muitos meses a preparar-me para os romances. Preciso de investigar muito bem o tempo e o espaço em que a história ocorre. Esse é o teatro onde os atores – os meus personagens – vão contar as suas vidas. Mas não gosto de falar sobre os livros que ainda não escrevi.

Por falar em livros ainda por escrever, que título daria a um livro sobre a sua vida?

Never Give Up [“Nunca desistas”].


Por: Carolina Morais
Fotografias: Lori Barra

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