Ildefonso Falcones: “Alcançar a simplicidade é verdadeiramente difícil”

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Depois do fenómeno literário A Catedral do Mar, Ildefonso Falcones apresenta-nos Os Herdeiros da Terra. Em entrevista à Estante, o autor espanhol fala da sua profunda ligação a Barcelona, da série que a Netflix está a preparar com base na sua obra e do que o atrai na literatura.

Os Herdeiros da Terra

Os Herdeiros da Terra, o seu livro mais recente, é uma continuação d’A Catedral do Mar. Escreveu-o como uma sequela ou, apesar de ter as mesmas personagens e cenário, como uma história independente?

É um romance relativamente independente. Dá uma continuação cronológica à história que teve lugar em Barcelona n’A Catedral do Mar, existe ligação com alguns dos personagens do primeiro livro, mas os personagens principais são novos e o bairro onde se desenrola a história também. Trata-se do Raval [bairro típico de Barcelona], onde está edificado o Museu Marítimo e o Hospital de Santa Cruz – o primeiro grande hospital da Europa. E o fio condutor do romance é o vinho. Através dele, acompanharemos as aventuras e as paixões d’Os Herdeiros da Terra.

A Catedral do Mar foi publicado em 2006. O que o levou a esperar 10 anos para escrever este novo livro?

Na realidade não são 10 anos, mas sete, já que demorei três a escrevê-lo. Mas a verdade é que, depois d’ A Catedral do Mar, interessei-me por escrever sobre outros lugares e outros tempos. A Mão de Fátima [livro que sucedeu A Catedral do Mar, em 2009] desenrola-se em Granada e Córdova com a expulsão dos mouriscos [espanhóis muçulmanos] como pano de fundo, e A Rainha Descalça [obra de 2013] em Madrid e Sevilha com o nascimento do flamenco e o contrabando de tabaco – muito dele através de Portugal, do povo de Barrancos. Depois, achei interessante regressar a Barcelona.

O que aprendeu ou melhorou, enquanto escritor, nesta última década?

Na verdade, gostaria de ter aprendido e amadurecido o menos possível. Gostaria de repetir A Catedral do Mar, esse seria um grande objetivo. Há alturas em que alcançar a simplicidade é verdadeiramente difícil.

A Barcelona medieval é, uma vez mais, o cenário desta nova história. O facto de ter crescido nesta cidade influenciou de alguma forma Os Herdeiros da Terra?

Barcelona é a minha cidade, foi onde nasci, onde casei e tive filhos, e onde vivemos, pelo que isso influencia, esse carinho. Mas, de qualquer forma, acredito que Barcelona é uma cidade universal, de todos.


Gostaria de ter aprendido e amadurecido o menos possível nesta última década. Gostaria de repetir A Catedral do Mar.


A Catedral do Mar

A Netflix adquiriu os direitos para produzir uma série de televisão inspirada n’A Catedral do Mar. Está envolvido neste processo?

Intervim muito pouco. Não sei nada de técnicas nem de linguagem audiovisual, de como captar o interesse, dos recursos, etc. Tudo isso é diferente da linguagem literária, por isso há que dar uma margem de atuação aos profissionais desse mundo.

O que espera, enquanto autor do livro, dessa série?

Acredito que será um grande êxito. Os profissionais que assumiram o trabalho são muito bons, o elenco é fantástico, os recursos são suficientes e, acima de tudo, o entusiasmo com que se encarou o projeto garantem esse sucesso.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

É como em qualquer outro trabalho. Levanto-me de manhã cedo e, às 09h00, já estou a trabalhar em frente do computador até às 13h00, aproximadamente. Depois volto a trabalhar desde as 16h00 ou 16h30 até às 20h00.

Escreve o primeiro rascunho à mão ou no computador?

O esboço, ou a primeira versão, é no computador. O que escrevo à mão, em muitas ocasiões, é o guião ou aqueles pormenores que vou decidindo quando estou noutro lugar. Geralmente, quando estou a promover um livro anterior.

Planeia todos os pormenores da história de antemão, ou deixa-se levar pelas personagens?

Acho que planear cada detalhe seria aborrecido, uma vez que as histórias vão-se desenrolando de certa forma à medida que as vamos escrevendo. O que planeio detalhadamente são aqueles pontos-chave ou intermédios que considero imprescindíveis de retratar. Pelo meio, os personagens crescem ou desvanecem, e as histórias vão variando.

O que faz um bom livro, na sua opinião?

Se falarmos de romance, de ficção, de algo longe do ensaio ou do aprofundamento de problemas reais, para mim o mais importante enquanto leitor, que é aquilo que tento atingir enquanto autor, é que o leitor se entregue, se divirta, se apaixone com a leitura. Não pretendo, como autor, nem gosto, enquanto leitor, de dar lições de nada a ninguém.


Não pretendo, como autor, nem gosto, enquanto leitor, de dar lições de nada a ninguém.


Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Tal como expliquei anteriormente, procuro a diversão e o entretenimento, pelo que não leio com espírito crítico. As obras e os autores que mais impacto tiveram em mim foram aqueles que estiveram presentes na passagem da infância para a leitura adulta, como Leon Uris, Harold Robbins, Chacal…

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

El Secreto de Île-de-Sein, escrito por Jean-Luc Bannalec. É uma história sobre um comissário de polícia que trabalha na Bretanha. É um livro muito divertido.

Qual é a melhor parte de ser escritor, tendo em conta que, até há poucos anos, era advogado?

O trabalho de um advogado é eminentemente pragmático, gira em torno do interesse dos clientes. O trabalho literário é radicalmente diferente, baseia-se na imaginação e na criatividade. Esse é, talvez, o lado mais atrativo da literatura.

Já tem alguma ideia para o seu próximo livro?

Sim, já estou a trabalhar nele.

Que conselhos daria a um aspirante a escritor?

Precisa de paciência, muito esforço e mais paciência, mas acima de tudo que as suas necessidades básicas e as da sua família não dependam do êxito ou da sua obra. Essa é uma liberdade imprescindível.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Não me atreveria a dar um título, mas qualquer que fosse deveria ter sempre uma referência à sorte.


Por: Ana Catarina Pinto
Fotografia: Joan Tomás

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