Hugo Gonçalves: “Raros serão os que vomitam um romance genial numa primeira versão”

hugo-goncalves-estante-fnacFotografia: Rui Crespim

Caracteriza-se como um filho da cultura pop que gosta muito da mistura do erudito com o popular. Hugo Gonçalves fala sobre as suas influências, o ato da escrita e o seu próximo livro.

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O Caçador do Verão

O mais recente livro de Hugo Gonçalves conta a história de uma família ao longo dos últimos 40 anos, em Portugal. A narrativa vive muito das memórias de José, o protagonista, durante o verão de 1982, e das suas relações com os restantes membros da família. José regressa à infância, àquela na qual nos mantemos presos ao longo da vida e que nos deixa marcas que nos acompanham e nos moldam enquanto pessoas. A família e a infância são dois pilares base deste livro, que se passa numa altura em que Portugal está a aproximar-se da Europa e a deixar os tempos da ditadura para trás.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Obras Incompletas de um Rapaz Enamorado.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

As influências mudam com os anos, as leituras, as experiências e as vivências. Da mesma forma que a poesia (Al Berto, David Mourão-Ferreira ou José Agostinho Baptista) instigaram o escritor adolescente, livros como Clube de Combate ou Psicopata Americano permitiram-me ver, como jovem adulto, que podia escrever sobre coisas que me interessavam, que eram atuais e intemporais, que não tinha de fazer parte de cânone algum. Além das figuras idealizadas – como Hemingway ou Camus – e dos clássicos de fôlego, épicos na ambição e na execução – Dickens ou Mellvile. E claro, a televisão, o cinema e a música. Balzac não seria o mesmo escritor se tivesse ouvido Led Zeppelin, fumado um charro e crescido com a MTV e Os Sopranos. Sou um filho da cultura pop, que gosta muito da mistura do erudito com o popular – Junot Diaz, o escritor, faz essa combinação prodigiosamente.

O que é para si um bom livro?

Um livro que nos faça sentir e pensar e que seja capaz de nos mostrar a vida inteira (é difícil) entre a capa e a contracapa. Que indaga – e nos faz indagar, e aquele que persiste mesmo quando não o estamos a ler, ou já acabámos. E, de preferência, com sentido de beleza.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Bartleby, o Escrivão – Uma História de Wall Street, de Herman Melville. Livro pequeno – na verdade é um conto – sobre um escrivão que se recusa a fazer o que lhe pedem. Tinha lido recentemente Moby Dick e é curioso ver a diferença no estilo (e na dimensão), mas ver também que a mestria e o talento continuam lá. Moby Dick é um livro de explosão, fôlego e prolixo, este é um texto de contenção e frugalidade. Sempre preferi aqueles que, mesmo após o sucesso, não escolhem uma fórmula e continuam a procurar, a arriscar, sabendo que, inevitavelmente, em algum momento, irão espetar-se ao comprido. Há quem diga que Bartleby é o próprio Melville, uma representação do seu descontentamento com a sua situação enquanto escritor – e com a crítica e o que exigiam dele –, e sobre o livro arbítrio e a força de vontade (como em Moby Dick), de como, muitas vezes, tudo isso leva ao isolamento e à necessidade de fazer escolhas, em que as perdas são maiores do que os ganhos.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Prefiro escrever de manhã cedo. Quando estou a escrever um romance, como agora, acordo por volta das sete e meia e, depois das tarefas que servem para limpar e aquecer a cabeça – passear o cão, corrida, pequeno-almoço, lavar a loiça –, começo a escrever. Mas ainda que passe algumas horas ao computador, o processo de escrita não é só teclar. Grande parte dos dias, ao longo de meses, mesmo sem me dar conta, estou a bordo do comboio expresso do livro, sempre em movimento, as personagens, o enredo, os detalhes. Ainda ontem percebi que toda uma cena do romance que estou a escrever se desenrolava na minha mente e que eu era uma espécie de espectador. Sem ser nada de místico, é uma forma de transe.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Tiro muitos apontamentos à mão, mas passo tudo para o computador. Notas, à mão, ajudam a sistematizar o livro, ressaltam pormenores, são a primeira pedra. Mas o computador é uma excelente máquina para escrever e apagar. E apagar é importante quando se escreve.


“Balzac não seria o mesmo escritor se tivesse ouvido Led Zeppelin, fumado um charro e crescido com a MTV e Os Sopranos.”


Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Se planeasse todos os detalhes seria obsessivo-compulsivo. Planeio muita coisa, mas, por uma razão de eficácia, liberdade e também divertimento, é bom partir para a história disponível para tudo, deixar que o fluxo do subconsciente traga o que acha mais interessante ou relevante à superfície. Um pouco de controlo e muita abertura. E edição. Raros serão os que vomitam um romance genial numa primeira versão.

Como lhe surgiu a ideia de O Caçador do Verão?

A ideia partiu de uma imagem de miúdos a correr na praia, durante uma tempestade súbita, e um deles que era atingido por um raio. Essa imagem era resultado daquilo sobre o que eu queria escrever – o tempo mágico, por vezes trágico, mas sempre romantizado, da infância. Por outro lado, tinha a ideia de um homem comum, que começava a sair, durante a noite, para fazer pequenos acertos de contas com as próprias mãos, um homem descontente com o estado das coisas – mas, mais que tudo, consigo mesmo. Esse homem, percebi, era o mesmo miúdo que fora atingido pelo raio, aquele que tivera uma infância romanesca antes de chegar a ser o tal justiceiro. Quis escrever sobre esse caminho, e sobre a infância. O Saramago dizia que um dia chegou a um quiosque de jornais e, diante da amálgama de manchetes, julgou ver o título do seu próximo livro, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas também dizia que já tinha o livro dentro de si, ou seja, muitas vezes uma imagem – os jornais, o raio, etc. – é apenas uma revelação daquilo que o escritor quer fazer e sobre o qual já anda a pensar há algum tempo.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Sim, estou a escrevê-lo, e embora se passe entre 1960 e hoje, é inspirado na história de Caramuru, um português náufrago, no século XIV, no nordeste do Brasil, que viveu com índios canibais, se casou com uma indígena e chegou a ser recebido em França por Catarina de Médici.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Em Portugal, julgo que a questão financeira, ou seja, é muito difícil viver dos livros – escrevo para o Diário de Notícias, sou consultor editorial da editora Marcador e há anos que consigo viver de atividades ligadas à escrita, mas, de tudo o que faço, claramente escrever livros é o ofício que exige mais tempo e, no entanto, o que contribui menos para o orçamento. Tenho as expectativas bem ajustadas, sei que vivo e escrevo num país de 10 milhões de pessoas, com baixos índices de leitura, e que escrevo num idioma que não é muito procurado por editoras estrangeiras. Mas sei que tenho a sorte – também trabalhei para isso – de fazer o que gosto e estou muito grato. Além disso, e isto não é grave, apenas uma observação, ser escritor ainda é considerado por muita gente como um hobbie. Acham que o escritor passa o dia de pijama a inventar histórias como um diletante, uma imagem que deve contribuir para que tantas vezes peçam aos escritores textos para publicações sem lhes oferecerem um pagamento por isso, o que é mais ou menos como pedir a um talhante que desmanche uma vaca e a distribua de graça pelos clientes.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Tira um curso superior e arranja um trabalho de escritório? Claro que não (bem, se calhar…), mas – e como editor digo muitas vezes isto aos escritores com quem trabalho – ser escritor não é um acessório de moda, nem a inevitabilidade de um talento que nos faz especiais, nem um milagre do Senhor, nem um comboio expresso para a fama. É uma maratona que dura uma vida. O tempo da escrita e da edição não está em sintonia com o tempo da vida real, não se escreve um livro com a rapidez de um post nas redes sociais nem o retorno é imediato como um like de um amigo nesse mesmo post. E isso é muito difícil de entender para muita gente. Para ser escritor é preciso paciência, muito trabalho, disciplina, a noção de que precisamos de tempo, e pôr tudo aquilo que somos e amamos naquilo que fazemos. Tem um lado romântico, sem dúvida, mas não é um estilo de vida, é um ofício, e, como me disse recentemente o escritor David Machado, no final do dia também vamos às compras ao hipermercado atentos às promoções da semana.

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