Homem vs. Máquina: O fim do Homo sapiens

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Estaremos prontos para nos deixarmos substituir por máquinas até naquilo que considerávamos mais sagrado: o livre-arbítrio?

Homo Deus

 


O Futuro do emprego

Em 2013, o estudo “The Future of Employment” analisou as probabilidades de algumas profissões virem a desaparecer nos próximos 20 anos. Eis os resultados.
99%
Operadores de telemarketing e mediadores de seguros
97%
Caixas de supermercado
96%
Cozinheiros
94%
Empregados de mesa
91%
Guias turísticos
89%
Pasteleiros
89%
Motoristas de autocarro
84%
Seguranças
83%
Marinheiros
76%
Arquivistas
67%
Nadadores-salvadores
38%
Escritores
0,7%
Arqueólogos
0,3%
Nutricionistas

A ciência e a tecnologia evoluem a um ritmo sem precedentes, alterando a forma como nos relacionamos. As máquinas deixam de estar confinadas ao trabalho mecânico e invadem todos os aspetos do nosso dia a dia. O nosso estilo de vida está a mudar, com uma ligação cada vez mais intensa a dispositivos que não se limitam, como antigamente, a replicar o trabalho braçal.

Desde a década de 1950, com Alan Turing, passou a ser possível criar sistemas computacionais capazes de entender e reproduzir faculdades humanas, mas nunca como hoje as máquinas se aproximaram tanto dos humanos, diz Manuel Dias, da Microsoft Portugal. Este especialista nota que “os avanços em Deep Learning abrem as portas para uma nova era de inovação, em que serviços cognitivos de computer vision, reconhecimento de voz ou reconhecimento de linguagem natural e emoções estão cada vez mais próximos da inteligência humana”.

Desenvolvimentos que podem ameaçar a humanidade como hoje a conhecemos. No seu mais recente livro – Homo Deus: História Breve do Amanhã –, Yuval Noah Harari prevê que o fim do Homo sapiens pode estar a um século de distância. No seu lugar surgirá o Homo Deus, conceito que antecipa o aparecimento de um ser que “manterá algumas características humanas”, às quais juntará capacidades até agora reservadas aos deuses. Uma abordagem otimista que poderá esconder efeitos nefastos.

Uma nova classe de pessoas

A partir do desenvolvimento das ciências da vida e da inteligência artificial (IA), Harari projeta uma sociedade opressiva e totalitária na qual as desigualdades se aprofundam face à existência de uma elite cada vez mais minoritária. “O sistema continuará a valorizar alguns indivíduos, mas estes serão uma elite de super-homens aperfeiçoados e não a grande parte da população”, escreve. Às massas está reservado o desemprego total em consequência de máquinas capazes de “superar [os humanos] em tarefas como a memorização, a análise e o reconhecimento de padrões”.

Manuel Dias lembra que, mesmo assim, “serão necessárias pessoas para construir os sistemas de IA, serão criados novos empregos e empregos mais qualificados”. A questão é: num mundo com mais de 7,3 mil milhões de pessoas, quantas serão necessárias para construir sistemas informáticos? Harari antecipa que, ainda este século, “poderemos vir a testemunhar a criação de uma nova e gigantesca classe não trabalhadora: pessoas sem qualquer valia económica, política ou mesmo artística (…) Mais do que ‘desempregada’, esta ‘classe inútil’ será ‘inempregável’”.

Elon Musk, o multimilionário fundador da Tesla que tem alertado para os perigos da IA – nomeadamente para o potencial de desenvolvimento de armas inteligentes –, acredita que no futuro as máquinas produzirão riqueza suficiente para que os humanos não tenham de trabalhar. “O maior desafio”, diz Musk, “é saber como é que as pessoas vão dar um sentido à sua vida. Muitas pessoas encontram sentido no trabalho. Se o seu trabalho não é necessário, qual é o seu propósito?”

O fim das escolhas

Se durante anos a humanidade se virou para o divino à procura de respostas, a partir de agora, escreve Harari, o divino não estará nas igrejas ou nas mesquitas, mas nos laboratórios de investigação. Em vez de “venerar deuses ou o homem”, os seguidores das “tecno-religiões” adoram os dados e estão prontos a ceder-lhes todo o poder.

Este é um barco que já deixou o porto. Começou com coisas simples, como os algoritmos que nos sugerem eventuais leituras ou o GPS do telemóvel que nos guia no caminho. Estas eram decisões exclusivamente nossas, baseadas em conhecimentos e instintos, mas hoje são ditadas por aplicações. Harari acredita que não ficaremos por aqui. No futuro, as máquinas vão dizer-nos que universidade escolher, em quem votar, com quem casar. Porque o algoritmo não se deixa toldar por emoções, logo será melhor a tomar decisões.

O cenário traçado pode assustar os mais sensíveis mas, garante Harari, “não vale a pena entrar em pânico”. Afinal, “a transformação do Sapiens será um processo histórico gradual e não um apocalipse de Hollywood”.


A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA FICÇÃO


2001: Odisseia no Espaço

Arthur C. Clarke
Um dos títulos maiores da ficção científica, 2001 conta a história de uma viagem espacial que tem como personagem central HAL 9000, um supercomputador dotado de IA. 

Neuromante

William Gibson
Num futuro em que os computadores são omnipresentes, ligações diretas ao sistema nervoso permitem a informadores visualizarem dados e programas e trabalhar nestes, desafiando o universo real. 

Daemon

Daniel Suarez
Mais do que um livro sobre o crime perfeito, Daemon imagina o poder que pode ter um único computador, principalmente se puder contar com a ajuda do Homem.

Por: Hermínia Saraiva

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