O Homem de Giz: um thriller que soa a Stephen King

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“Comecemos pelo princípio. O problema é que nunca estivemos de acordo quanto ao princípio. Foi quando o Gav Gordo recebeu o balde com paus de giz como presente de anos? Foi quando começámos a desenhar bonecos de giz ou quando eles começaram a aparecer por sua iniciativa? Foi quando se deu o terrível acidente? Ou quando encontraram o primeiro corpo?”

O Homem de Giz

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4 conselhos de C. J. Tudor
para aspirantes a escritor

1
“Continuem a escrever. Não se deixem ir abaixo com as rejeições. Todos as recebemos. Para a maior parte dos escritores, este é um longo e árduo trabalho, pontuado por frustrações e desapontamento. Mas não faz mal. Porque falhar significa que não se tornam complacentes. Tornam-se melhores.”
2
“Lembrem-se sempre da razão por que começaram, por que adoram escrever. Não escrevam o que acham que as pessoas querem; escrevam o que gostam, mesmo que pareça que ninguém o quer. As coisas mudam.”
3
“Mantenham sempre convosco uma nova ideia que vos entusiasme. Assim, se o vosso primeiro livro for rejeitado, têm mais alguma coisa para trabalhar. E pode ser que essa seja a tal.”
4
“Nunca é tarde demais. Eu publiquei o meu primeiro romance aos 46 anos. Levei mais de uma década a consegui-lo. Há tempo!”

Um thriller arrepiante que salta entre o passado e o presente, acompanhando o mesmo grupo de amigos à medida que este se vê assombrado por uma figura sinistra. Este podia muito bem ser o resumo do icónico It, de Stephen King. Mas não. Falamos de O Homem de Giz, o muito elogiado romance de estreia da inglesa C. J. Tudor.

É a história de cinco adolescentes – quatro rapazes, uma rapariga – que, em 1986, se entretêm a trocar mensagens a giz pela cidade, cada um com a sua cor. Isto até ao dia em que a brincadeira os conduz a um cadáver. Uma descoberta que se revela fundamental nos percursos que cada um segue até ao reencontro, trinta anos depois.

Repleto de twists inesperados, O Homem de Giz tem apanhado de surpresa muitos leitores, incluindo outros escritores. Fiona Barton, autora de A Viúva e O Silêncio, diz que “há muito tempo não tinha uma noite em branco devido a um livro”. Ali Land, autora de Menina Boa, Menina Má, descreve a narrativa como “tensa, habilidosa e plena de terror”. E Michelle Richmond, autora de O Pacto, fala da história como uma “exploração afiada e aterrorizante dos laços e limitações das amizades de infância e dos segredos que se recusam a permanecer enterrados”. Mas foi a própria C. J. Tudor quem mais se surpreendeu com o sucesso do livro.

Uma história que surge tarde

A primeira coisa que C. J. Tudor fez quando lhe compraram o livro foi substituir o congelador do velho frigorífico de família. “Rock and roll!”, zomba a autora, que viu naquele momento a sua vida mudar.

Em entrevista à Estante, recorda como lhe surgiu a ideia da história vencedora: “Tinha 43 anos e mais de uma década de rejeições e projetos falhados para trás. Não sabia bem como prosseguir como a minha escrita. E então um amigo comprou uma caixa com paus de giz à minha filha, para o seu segundo aniversário. Passámos a tarde a desenhar bonecos na estrada. Mais tarde, ao abrir a porta, vi-me confrontada por estas estranhas figuras de giz. Na escuridão pareceram-me incrivelmente sinistros.”

Na altura, ganhava a vida a gerir um negócio de passear cães. O tempo era tão escasso como o dinheiro, pelo que aproveitava todos os momentos que podia para escrever. “Sempre escrevi, mas levei muito tempo a assentar e tentar escrever um livro inteiro. A vida metia-se sempre pelo caminho”, lembra. “De certo modo, ainda bem que me levou muito tempo. Tive uma vida bastante preenchida, muitas experiências, boas e más. Tudo isso alimentou a minha escrita. E agora estou num bom lugar. Posso apreciar toda a experiência de publicação sem alguma da neurose que teria quando tinha 20 ou 30 anos.”

Um sucesso inesperado

Talvez motivado pela atual onda de revivalismo – basta pensar no êxito do remake de It ou da série Stranger Things –, O Homem de Giz foi muito cobiçado pelas editoras, o que teve o condão de permitir a C. J. Tudor escrever finalmente a tempo inteiro. “É uma mudança de vida significativa e um enorme privilégio. Além disso, posso participar em eventos literários, viajar para lugares maravilhosos e conhecer pessoas fantásticas.”

A autora confessa, contudo, que nunca esperou que o seu livro fosse tão bem acolhido – “Não pensei que um editor quisesse o livro, quanto mais 38!” –, ao ponto de até já se falar numa adaptação ao cinema: “Têm havido conversas (e um primeiro rascunho), mas nada mais concreto… por enquanto!” Admite, no entanto, que acharia “fantástico” ver a sua história no grande ecrã. “Mas não sou gananciosa, estou satisfeita por ter um livro publicado.”

3 PERGUNTAS A C. J. TUDOR

Stephen King é uma das suas principais influências. Algum dos livros dele a inspirou na criação de O Homem de Giz?

Muitas pessoas têm comparado o livro a It e “O Corpo” [novela que inspirou o filme Stand By Me, publicada na coleção Estações Diferentes], o que é extremamente lisonjeador, mas não pensei de forma consciente em nenhum deles quando comecei a escrever o meu livro. Na verdade, pensei mais na minha própria adolescência, nos anos 80, e nas coisas que eu e os meus amigos fazíamos. Mas, claro, o meu amor pelo King é visível nos elementos mais arrepiantes. E incluí deliberadamente um par de referências a obras do Stephen King que estou certa que os fãs vão apanhar.

Além de Stephen King, que outros autores a influenciaram ao longo dos anos?

Não sou esquisita quando se trata de ler. Pego em tudo o que pareça interessante! Mas o meu coração tem estado sempre com as histórias mais sombrias e arrepiantes. Além de Stephen King, adoro Michael Marshall (a trilogia The Straw Men), Richard K. Morgan (Carbono Alterado), Stieg Larsson (Millennium) e também sou uma grande fã de John Connolly e Harlan Coben.

Está a trabalhar num novo livro?

Sim, é mais um thriller sombrio e arrepiante, situado numa antiga vila de mineiros, no norte de Inglaterra. Quando Joe Thorne tem 15 anos, a sua irmã mais nova, Annie, desaparece. E depois volta. Decorridos 25 anos, na mesma vila, um rapaz de 11 anos é espancado até à morte pela própria mãe. E Joe regressa, para trabalhar como professor, mas também para encontrar respostas. Só que regressar ao lugar onde cresceu significa enfrentar as pessoas com quem cresceu, as coisas que fizeram e o que encontraram.

Por: Tiago Matos

 

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