Helena Magalhães: “Passamos demasiado tempo a dizer que sim, porque não temos coragem de dizer que não”

Em conversa com a Estante, Helena Magalhães fala do seu livro de estreia, Diz-lhe Que Não, de amor, de redes sociais e de mulheres poderosas como Michelle Obama ou J. K. Rowling.

Diz-lhe que não

Diz-lhe Que Não é o primeiro livro de Helena Magalhães, jornalista freelancer e autora do blogue The Styland.

No livro Diz-lhe Que Não, fala para “mulheres moderadamente românticas” e denuncia, de certa forma, a predominância das relações fugazes. O que gostaria que as mulheres retirassem desta obra?

Em primeiro lugar, queria que este fosse um livro com personagens reais e que qualquer leitora, quando chegasse ao fim, conseguisse retirar algum know how para as suas próprias relações. Queria que, ao identificarem-se com as histórias que estou a contar, conseguissem tornar as suas relações mais saudáveis, que eu acho que é algo que falta hoje em dia. Vejo muito pouca gente em relações saudáveis. Eu, ao estar a descrever um rol de histórias, que ao fim ao cabo não são 100% felizes, queria que as pessoas conseguissem olhar para as suas próprias relações. Não tenho nada para ensinar, queria apenas levar as pessoas a refletir sobre as suas próprias vidas.

Ao longo do livro, vai partilhando histórias e experiências suas e das suas amigas. Foi difícil escrever algo tão pessoal, ou foi algo que fez com naturalidade?

Foi natural. A minha escrita, desde que eu era miúda, já era muito pessoal, muito reflexiva. Todas estas histórias têm um fundo de verdade, embora estejam fantasiadas, obviamente. Lembro-me que uma vez li uma entrevista da Estante ao José Rodrigues dos Santos, em que ele diz que a única forma de contar a verdade é através da ficção. Eu acredito nisso. Este é um livro de ficção, embora seja verdade. E eu tive o cuidado, em algumas histórias que estão muito mais descritivas do que outras, de enviar esses capítulos às pessoas em questão. Queria ter a certeza de que, ao lerem aquilo, se conseguiam identificar e não se sentiriam demasiado expostas. Por isso, para mim não foi difícil. Teria sido muito mais difícil escrever algo 100% ficção.

Acha que as redes sociais são uma das principais causas da forma desapegada, às vezes até fria, como as pessoas se relacionam entre si, hoje em dia?

É 100% verdade. Eu não cresci com redes sociais. Quando eu tinha 16 ou 17 anos, não existiam. Por isso é que eu dediquei um capítulo a um personagem que é o Telecomunicações, que realmente existe, mas que eu queria que fosse um reflexo daquilo que todos nós somos hoje em dia. Ou seja, não nos damos a conhecer, nós damos a conhecer apenas a nossa personagem virtual, e isso cria um grande handicap nas relações. Acho que todas as pessoas, mulheres e homens, para bem das suas relações, deveriam controlar as redes sociais, aquilo que partilham. Nós, seres humanos, estamos cada vez mais desinteressantes e desinteressados nas outras pessoas. As redes sociais dão-nos aquela sensação de ter tanta gente disponível e, ao invés de investirmos tempo numa pessoa, passamos para a próxima.

Ao longo da obra, vai também fazendo várias referências culturais. Acha que são esses pequenos apontamentos que fazem a diferença na sua escrita?

Acho que sim. Eu, quando estou a ler alguma coisa, gosto muito de ler algo que me coloque, enquanto a leitora, a acompanhar de espírito aquilo que estou a ler. O que a pessoa vê, sente, ouve, cheira, onde está, a envolvência… Isso para mim é o que faz os leitores criar uma relação com os personagens. E eu queria que este fosse um livro muito passado aqui em Lisboa, com muitas referências a sítios e tudo mais, porque queria que as pessoas se identificassem com a sua realidade, com os espaços, e também queria passar a envolvência emocional, que está muito ligada à música, aos ambientes… Acho que oferecer apontamentos espaço-temporais – músicas, sítios, viagens – cria ligação com as pessoas.


Acredito que a única forma de contar a verdade é através da ficção


Como surgiu a ideia para este seu primeiro livro?

Eu já escrevo desde que era miúda. Enquanto estava a trabalhar neste livro, fui a casa dos meus pais, andei à procura de coisas minhas e encontrei uns textos que escrevi quando tinha 14 anos relativamente a um dos personagens, o Artur. Eram textos de amor, extremamente intensos, e eu na altura quando li aquilo pensei ‘Caramba!’. Nunca fui boa a nada, nunca tive grandes aptidões para desporto, ciências, nada, mas sempre escrevi e sempre soube que algures na minha vida iria parar à escrita. Já tinha uma crónica no meu blogue sobre estes temas, foi da crónica que nasceu o livro e, por isso, não foi nada muito novo. Veio foi no timing certo. Há 10 anos, por exemplo, eu nunca imaginava que escreveria um livro. Sempre vi a escrita como um hobby, mas hoje em dia já não. Eu escrevo, é esse o meu trabalho, e já não me imagino a fazer outra coisa.

No livro, diria que há uma certa influência de O Sexo e a Cidade?
É impossível fugir ao cliché Carrie Bradshaw e, no próprio blogue, comentam muito isso. Mas a série assentou numa premissa errada: a Carrie esperou 10 anos pelo Big e, no fim, ficou com ele. Na vida real, nenhuma mulher espera 10 anos por um homem e a série acaba por dar uma visão irrealista das relações e do amor. Um homem que nos coloca 10 anos na prateleira e, de repente, muda e quer casar connosco é uma fantasia que faz com que as mulheres não saibam “dizer que não” a esses homens que, na verdade, nunca vão querer ficar connosco. Nem hoje nem daqui a 10 anos. E é exatamente sobre esses “Mr. Bigs” que o livro fala – todos os homens errados que queremos tanto acreditar que são o homem ideal e aos quais continuamos a dizer que sim.

Enquanto escritora e jornalista que trabalhou sempre com mulheres, quais são as mulheres que a inspiraram a fazer o que faz hoje?
A nível literário, Jane Austen e Charlotte Brontë, que escreveram e narraram sobre homens e contribuíram, na altura, com obras que marcaram o papel da mulher na sociedade, na vida e nas relações. E, para mim, isso é a maior inspiração. O meu objectivo é que as leitoras (e leitores) consigam entender o Diz-lhe Que Não como um livro que procura contribuir para uma mudança nas relações atuais e no papel que nós, mulheres, devemos ter na busca da felicidade.

Em Portugal, admiro a Maria João Lopo Carvalho, a Joana Bouza Serrano e Isabel Machado, escritoras que escrevem sobre mulheres de força em épocas de homem, com romances históricos que nos levam a viajam por épocas e continuam a contribuir para que a nossa história continue a ser contada.

Depois, destaco a Michele Obama, pelo seu trabalho e pelas causas infantis e feministas que abraçou e abraça; Ellen Degeneres, pelas mensagens positivas que passa diariamente no seu programa; J.K. Rowling, que perdeu tudo, não tinha emprego e estava à beira da pobreza quando começou a escrever a saga que viria a mudar a sua vida; Emma Watson, pelas mensagens feministas que está a passar às novas gerações de mulheres em todo o mundo; Keira Knightley, pela sua postura contra os estereótipos que a mulher sofre a nível do corpo; Catarina Furtado, por todo o seu percurso e trabalho nas Nações Unidas; Sara Sampaio, que nos mostra como não há barreiras para os nossos sonhos. A lista é infinita…


Admiro a Maria João Lopo Carvalho, a Joana Bouza Serrano e Isabel Machado, escritoras que escrevem sobre mulheres de força em épocas de homem


Tem um blogue, The Styland, onde fala sobre beleza, moda, amor e, também, livros. De que forma esta plataforma lhe permite conhecer e inspirar as leitoras?
Acho que uma coisa que consegui fazer, pelo feedback que tenho tido, foi mostrar a uma geração tão digital que os livros ainda têm um peso enorme na nossa vida. Têm na minha e comecei a perceber que também têm na de imensa gente. Eu também lia e sigo alguns blogues e sites que falam de livros, mas são muito chatos, tornam mesmo a literatura numa coisa pesada. Quando eu criei o blogue, em 2014, quis sempre que fosse um blogue que pudesse apelar às coisas que para mim são importantes e que fugisse ao conceito de lifestyle. Eu queria que fosse uma plataforma que pudesse dar às mulheres várias armas de empowerment, por isso é que falo de muitos livros escritos por mulheres, para mulheres, histórias de mulheres, histórias de força.

Que tipo de livros a levam a fazer um post no blogue? Têm que falar de mulheres?
Não, também já falei de livros de homens. E também já falei de livros de que não gostei. Há imensos livros que estão na berra, como os de John Green, e que eu li e achei extremamente infantis. Se calhar li no timing errado, obviamente. Mas para mim, têm de ser livros que me façam sentir aquela magia, aquela coisa de estar desejosa de chegar a casa, ao comboio, onde quer que seja, para ler mais um bocado. Isso para mim é essencial. Se um livro me agarra dessa forma, se eu estiver aqui, agora, a morrer para ir para casa continuar a ler, é isso. É essa a magia.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Seria sem dúvida o mesmo: Diz-lhe Que Não. Porque passei demasiado tempo a dizer que sim a empregos que não gostava, a amigos que não me faziam bem, a namorados que não me tratavam bem, a patrões que não me davam valor, a colegas de trabalho que me rebaixavam… Na nossa vida, passamos demasiado tempo a dizer que sim, porque não temos coragem de dizer que não. Um dos posts mais lidos do meu blogue é aquele onde falo do momento em que me despedi e decidi ser freelancer. Esse foi um ponto de viragem na minha vida e que, por estar tão cru e franco, acabou por tocar os leitores: quando eu decidi dizer que não, foi efetivamente quando a minha vida começou a mudar.


Acho que consegui mostrar a uma geração digital que os livros ainda têm um peso enorme na nossa vida


O que é para si um bom livro?
É aquele nos faz refletir, que nos passa alguma mensagem, embora eu também goste de livros extremamente suaves de ler, só para divertir. Por exemplo, eu tenho um fascínio por livros de young adult, tipo Harry Potter ou vampiros, porque nos transportam para aquela magia de quando éramos adolescentes. E isso para mim é fascinante, eu adoro estar a ler algo que, apesar de eu ter 31 anos, me faz sentir como se tivesse outra vez 16. É super mágico.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?
Acabei de ler este mês o Constança, da Isabel Machado; o Twelve Bar Blues, de Patrick Neate, que acompanha várias gerações de várias famílias nos Estados Unidos, tudo em volta do jazz e dos blues; depois li Os Ambiciosos, de Michelle Miller, e também A Cor Púrpura, de Alice Walker, um clássico.

Como é a sua rotina habitual de escrita?
Não existe rotina. Eu escrevi este livro em dois meses, no verão, porque decidimos assim à última da hora. Mas não tinha uma rotina. Eu sou uma pessoa muito desregrada, havia dias em que não escrevia nada e dias em que ficava 10 horas a escrever. Era doentio mesmo.

A nível de blogue, a minha escrita é muito mais noturna, mas é uma coisa que eu tento combater. E apesar de eu ser desregrada, agora estou a tentar ser mais regrada e acordar cedo para escrever.

Quer escrever um próximo livro? Já tem alguma ideia?
Sim. Aliás, eu antes de começar a escrever este livro, já tinha dois meio-escritos, que meti em pausa para avançar com este. E achei que quando acabasse este, iria retomar um dos outros. Mas o que é que aconteceu: quando eu acabei este livro, em setembro, fiquei emocionalmente tão desgastada, foi uma coisa que eu nem sei explicar, que me consumiu imenso. Entretanto, comecei um outro livro, que talvez seja um seguimento deste, mas muito diferente, porque só vai ter uma personagem.


Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço / 4SEE

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