Helen Macdonald: “Este livro foi algo que me aconteceu”

Depois da morte do pai, Helen Macdonald refugiou-se numa casa de campo e dedicou-se a treinar um açor. A autora explica as suas razões para escrever um livro que tem muito de autobiográfico.

A de Açor

O livro de Helen Macdonald é uma viagem ao mundo do luto e da natureza. A historiadora decidiu tornar-se falcoeira depois da morte do pai e escreveu um livro de memórias onde conta o processo de luto e de como treinar um açor a ajudou a ultrapassar essa fase mais difícil da sua vida.

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Veja o vídeo desta entrevista.


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Acho que este resultou muito bem. Depois de perdermos uma mãe ou um pai, temos de começar a viver novamente. Aprendemos a ler o mundo a partir do zero. É quase como aprender o alfabeto. Daí que A de Açor seja um bom título.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Leio de tudo um pouco. Sempre achei que, quando lemos, não nos devemos cingir a um único género. Gosto bastante da nova literatura inspirada na natureza. Gosto particularmente da obra de um poeta chamado Roger Langley, que não é muito conhecido mas que é um escritor extraordinário. Quando estava a escrever o livro, senti dificuldades em ler algo mais literário e por isso ouvi muitos dramas radiofónicos de Agatha Christie e Shakespeare. Foram ambos uma influência considerável, porque estavam sempre na minha cabeça enquanto estava a escrever.

O que é para si um bom livro?

Precisa de me absorver. Preciso de ser transportada. E tanto pode ser uma obra literária como um trabalho de não ficção. Pode levar-nos a lugares na nossa imaginação ou a lugares sobre os quais nunca pensámos como funciona o mundo. A sensação de ser transportada é o mais importante para mim.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

O último livro que li foi um de poesia, The Collected Poems, de Roger Langley. Conheci-o quando ainda era vivo e, de todos os escritores que conheço e que escrevem sobre natureza, o seu olhar, sensibilidade e paixão por esse mundo são do mais perfeito que existe. Os seus poemas deixam-me sempre em lágrimas.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Escrevi este livro num café. E quando se trabalha em cafés, começamos a achar que o mundo está cheio de reformados e jovens mães, porque todas as outras pessoas que vemos estão a trabalhar. Normalmente escrevia sozinha e acabei por fazer amigos naquele café. Acho que não acreditavam que eu fosse realmente escrever o livro. Quando foi publicado, ficaram muito contentes.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Computador. Vou editando enquanto vou escrevendo. Escrevo rápido e revejo parágrafo a parágrafo, capítulo a capítulo. Assim, no fim do livro, coloco um ponto final e não penso mais nisso.


“Depois de perdermos uma mãe ou um pai, temos de começar a viver novamente. Aprendemos a ler o mundo a partir do zero. É quase como aprender o alfabeto.”


Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

É difícil explicar, porque este livro foi algo que me aconteceu. A única coisa que se alterou na forma como tinha planeado o livro foi uma maior exploração da história do T. H. White. Fui aos arquivos nos Estados Unidos, onde têm os seus trabalhos guardados, e fiquei muito triste quando descobri a sua história. Era um homem muito difícil, infeliz e pouco agradável. Mas também foi um dia uma criança muito maltratada pelos pais e na escola, e senti que queria incluir mais da sua voz no livro.

Como lhe surgiu a ideia de A de Açor?

Aconteceu-me. Quando fui capaz de lidar com o luto, comecei a pensar no que me tinha acontecido e como a história me ultrapassava. Tinha de ser contada.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Sim e não. Tenho um contrato de dois livros com a minha editora, por isso ainda vou escrever outro livro. Quero que seja de não ficção e que tenha como tema central a nossa relação com a natureza, a forma como a vemos e valorizamos. Mas tenho andando tão ocupada com este livro que não tenho tido tempo para decidir exatamente sobre o que será. Terei dezembro de férias para pensar nisso.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Eu tenho sido uma escritora com muita sorte. Este livro trouxe-me muitas alegrias. Mas tenho viajado muito e acho que, por isso, o único inconveniente tem sido o de não ver a minha família com tanta frequência quanto gostaria.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Arrisquem. Seja vocês próprios e leiam. Leiam o máximo que conseguirem. E absorvam tudo. Esse sentido de alegria e liberdade que alcançam quando leem muito vai espelhar-se na vossa escrita.


Por: Catarina Sousa

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