Helder Macedo: “Procuro escrever o que só eu poderia escrever”

Acabado de completar 80 anos, Helder Macedo fala dos dois novos livros e explica que a sua escrita passa por caminhar no desconhecido.

 

Romance

Era para ser um romance – daí o título – mas acabou por ganhar forma como poema. O novo livro de Helder Macedo, publicado pela Editorial Presença, traz à memória o bucolismo de Bernardim Ribeiro numa narrativa em fragmentos.

Resta Ainda a Face

Paulo José Miranda escolheu e Helder Macedo assina os 32 poemas de amor que completam esta antologia editada pela Abysmo.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

A minha vida tem tido aspetos tão diversos! Qualquer título seria demasiadamente seletivo. Mas talvez um verso de um poema que escrevi há muitos anos: Até que os corpos parem de morrer. Uma afirmação de vida a despeito da morte.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Certamente que houve muitas, e não apenas influências literárias. Nas artes, a música e a pintura não foram menos determinantes na minha formação. Ouço mais música do que leio. Nos meus anos formativos, em Lisboa, os jovens aspirantes a poetas e aspirantes a pintores que então éramos conviviam e partilhavam as suas perplexidades, as suas descobertas, os seus quadros, os seus poemas. Influenciámo-nos uns aos outros. A partir daí, cada um foi encontrando os seus mestres tutelares. No meu caso, acima de todos Camões, mas também tantos outros, antigos e modernos, em várias línguas. Como tudo isso se manifesta no que escrevo, não sei. Bem ou mal, procuro escrever o que só eu poderia escrever. Mas as influências certamente estão lá, mesmo que não sejam visíveis.

O que é para si um bom livro?

Um livro que nos faça sair de nós próprios. Que é como quem diz, encontrarmo-nos a nós próprios fora de nós.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

O último, recentemente publicado, foi O País Fantasma, de Vasco Luís Curado. Sobre os tempos finais da Guerra Colonial em Angola e a vinda dos chamados “retornados” para Portugal. Poderosíssimo. A dizer coisas que ninguém tinha dito daquela maneira. E estou a ler, em pré-publicação, um magnífico livro de António Cabrita, Um Espião na Casa do Amor e da Morte, que toma como ponto de partida a sociedade moçambicana para falar de essências universais nas relações entre mulheres e homens. Por coincidência, ambos os livros se situam em países que foram colónias portuguesas. Mas ambos transcendem os seus contextos circunstanciais.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Não tenho uma rotina. Por vezes fico a escrever até de madrugada. Gosto do silêncio em volta. Outras vezes interrompo a escrita para ouvir música.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

No computador. Resisti durante muito tempo, mas agora não quero outra coisa.

 


“Procuro caminhar no desconhecido. Que afinal é, ou deveria ser, o propósito de toda a escrita literária: iluminar sombras, tentar tornar inteligível o que não se entende.”


 

Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Não, nunca planeio. Começo por ter uma ideia inicial, que num romance pode ser uma personagem ou uma situação e em poesia uma palavra, uma imagem. E a partir daí procuro caminhar no desconhecido. Que afinal é, ou deveria ser, o propósito de toda a escrita literária: iluminar sombras, tentar tornar inteligível o que não se entende.

Como lhe surgiram as ideias dos seus novos livros, Romance Resta Ainda a Face?

De Romance foi precisamente como já disse, uma imagem inicial. Neste caso uma jovem mulher entre as duas pistas de uma autoestrada, com os carros a passarem em direções opostas ao mesmo tempo. Como se fosse num sonho, sem saber quem estava a sonhar ou a ser sonhado. E depois a imagem transformou-se em palavras e as palavras fizeram-me perceber que era um poema e não um romance em prosa. Mas chamei-lhe Romance porque também conta uma história, que vai chegando em fragmentos recorrentes da realidade circundante.

Resta Ainda a Face é inteiramente diferente, é uma seleção de poemas meus mas na verdade o livro não é apenas meu… Foi ideia e iniciativa de um escritor e poeta que muito admiro, o Paulo José Miranda, que fez uma seleção dos meus poemas de amor e os complementou com um posfácio que me ajudou a entender melhor o que eu tinha escrito. É portanto um diálogo entre dois poetas, através da escolha que um deles fez dos poemas do outro. O que o torna um livro original, uma criação conjunta.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Não exatamente. Mas como julguei que o Romance ia ser um romance e afinal é um poema, se calhar vai ser um romance… Logo se vê.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Estar à espera do próximo livro. Ou talvez não. Talvez falar dos livros anteriores.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Acreditem em si próprios. Basta isso. O resto logo se vê.

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