Han Kang: quem é esta vencedora do Man Booker?

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Depois da história de uma vegetariana que queria transformar-se em planta, Han Kang transporta-nos para um massacre na Coreia do Sul. Vem conhecer a autora que venceu o Man Booker e é comparada a Franz Kafka.

A-Vegetariana

Estávamos em 2015 quando uma vegetariana se tornou tema de conversa pelo mundo fora. Não queria continuar a pertencer à raça humana. Estava obcecada com a ideia de criar raízes e transformar-se em planta. Acreditava que, dessa forma, se salvaria. Mas essa sua obsessão acabou por provocar o chamado “efeito borboleta”. Tudo à sua volta mudou e, mais tarde, entrou em colapso.

Poderia esta ser uma história verídica? Sim. Mas não é. Foi imaginada e escrita pela sul-coreana Han Kang, materializando-se sob a forma do livro A Vegetariana. O mesmo que, em 2016, lhe valeu o tão cobiçado Man Booker International Prize. Na verdade, a obra foi publicada muito antes, em 2007, mas só há cerca de dois anos ganhou uma edição em inglês. Daí o buzz gerado a nível internacional.

Agora, a escritora residente em Seul está de volta com um novo romance, Atos Humanos. E há quem diga que é mais impactante e provocador do que o anterior. Mas já lá vamos. Primeiro, foquemo-nos na autora.

Han Kang: a mulher dos sete ofícios

É mãe, romancista, poeta e, entre muitas outras coisas, artista musical. Sim, Han Kang não se fica pela escrita de livros. Gosta tanto de se aventurar na escrita de canções – e de as interpretar – que em 2007 lançou um álbum com dez temas compostos e cantados por si.

Admiradora de arte, e em especial de escultura, a autora garante, no entanto, que a literatura é a sua grande paixão e uma presença constante na sua vida desde criança.

“Sempre tive influências literárias – o meu pai também é escritor. Ele adorava colecionar livros e, por isso, eu estava sempre rodeada por eles. Estava tudo cheio de livros, exceto as janelas e as portas. Os meus pais deixavam-me sozinha e eu podia ler os romances que queria. Descobri que adorava ler. E a escrita veio naturalmente”, explica a autora.


“Existem tantas escritoras talentosas e, sem elas,
o mundo literário seria drasticamente reduzido.”

– Han Kang

 

Aos 14 anos, Han Kang já sabia que queria ser escritora. Na universidade estudou literatura coreana e, em 1993, estreou-se com a publicação de alguma poesia.

Hoje, é a escritora mais aclamada da sua geração na Coreia do Sul e, graças ao romance A Vegetariana, tem merecido comparações a Franz Kafka, autor de A Metamorfose. Ele próprio vegetariano. “Claro que li Kafka quando era adolescente, tal como toda a gente. Gosto dos trabalhos dele. E lembro-me de ter lido uma frase de um poeta dos anos 20, Yi Sang, que dizia: ‘Quero acreditar que os seres humanos deveriam ser plantas.’ Li-a quando era estudante na universidade. E o Kafka, tal como esta história e muitas outras coisas, vive dentro de mim. Mas nenhuma delas foi uma influência direta”, esclarece a autora.

A verdade é que a sua vida mudou (e muito) desde que foi galardoada com o Man Booker International Prize – foi, aliás, a primeira coreana a ser nomeada para esse prémio. “Durante algum tempo, mudou tudo. Muitas viagens, muitas entrevistas, muitas solicitações, o reconhecimento na rua, em Seul”, recordou numa entrevista ao Diário de Notícias.

Mas, apesar de grata por todo o reconhecimento e por agora ser publicada em vários países, Han Kang precisa da sua “normalidade” para continuar a escrever. “Preciso muito da minha privacidade, da minha solidão, das minhas horas para dedicar ao que faço. Felizmente, passada a febre inicial, as coisas voltaram à normalidade e eu consegui recuperar o meu método e, até certo ponto, o conforto do meu cantinho”, frisa a autora que continua a escrever à mão quando se trata de poesia.


“A grande força do trabalho da Han é o facto
de ela chegar ao universal através do específico.”

— Deborah Smith, tradutora de Han Kang

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Atos Humanos: o reavivar de um massacre

Recuemos agora a 1980. Grupos de estudantes, por toda a Coreia do Sul, protestaram contra a ditadura de Chun Doo-hwan, nomeadamente contra o fecho de universidades e a falta de liberdade. O livro Atos Humanos, de Han Kang, tem como foco a cidade sul-coreana de Gwangju – onde a autora nasceu, em 1970 –, que nesse período foi alvo de um verdadeiro massacre: mais de 150 pessoas foram mortas pelo exército que servia a ditadura militar.

Essa cidade foi a casa de Han Kang até apenas quatro meses antes da carnificina – o seu pai, entretanto, dedicou-se a tempo inteiro à escrita e levou a família para Seul. Só aos 12 anos, quando encontrou na estante de sua casa um álbum de fotografias capturadas por fotojornalistas de todo o mundo, é que a escritora se apercebeu da dimensão do que se passou em Gwagju.

“Lembro-me do momento em que o meu olhar se debruçou sobre o rosto mutilado de uma jovem mulher que tinha as feições rasgadas por uma faca. Silenciosamente, algo bem profundo dentro de mim quebrou. Algo que, até então, nunca me tinha apercebido que lá estava”, recordou a autora em conversa com o The Guardian.

Sendo este um episódio tão poucas vezes falado na Coreia do Sul, Han Kang sentiu a necessidade de o investigar exaustivamente e, posteriormente, de o imortalizar na forma de um livro. Assim nasceu Atos Humanos.

“Nunca encarei este livro como um exorcismo, mas mais como um ato de justiça, como um contributo para a memória, porque entendo que há episódios que, quanto mais lembrados, menos suscetíveis são de se repetir”, conclui a escritora.


Por: Carolina Morais

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