Os livros que nos assustaram este ano

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À procura do livro ideal para este Halloween? Não precisas de ir mais longe. A Estante dá-te a conhecer os melhores livros de terror publicados este ano.

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Margo

Tarryn Fisher

A linha que separa um thriller psicológico de um livro de terror é cada vez mais ténue, ao ponto de já não conseguirmos distinguir claramente um do outro. Mas vamos partir do princípio que este Margo é um livro de terror. Desde logo porque é assustador.

A protagonista da história é Margo, uma jovem que vive com a mãe numa casa decrépita de uma rua “calcetada com crack, prostitutas viciadas em crack, traficantes, bêbedos, miúdas que ainda agora tinham leite a escorrer pelo queixo e já estão a dar mama aos seus bebés malnutridos”. Margo podia muito bem viver sozinha, no entanto, já que a mãe não lhe presta qualquer atenção.

A sombria realidade de Margo é ligeiramente atenuada quando faz um amigo – um vizinho confinado a uma cadeira de rodas que estabelece um acordo com ela: “Eu salvo-te se me salvares a mim.” Só que, após o assassinato de uma menina da região, Margo decide mudar drasticamente o rumo da sua vida e passa a dedicar-se à descoberta (e punição) de assassinos, violadores e pedófilos – “Fico a ver por um momento, a raiva a acumular-se. Vai levantando fervura devagar, mas deixo que ganhe força, à espera que a força total da minha raiva fique plena antes de agir.”

Passam-se tantas coisas nesta premissa que qualquer leitor casual poderá ficar na dúvida se Margo não será, na sua essência, mais uma historieta de amor como tantas outras, ainda que com uma “decoração” mais macabra. Fica o aviso: não é. Mas é uma história sobre falta de amor. E sobre os efeitos que isso pode ter na saúde mental de alguém.


Abro o forno e coloco a criança lá dentro com cuidado. Sinto que vou vomitar. Batem à porta. Tenho de abrir antes que a minha mãe acorde, zangada.

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O Comboio Errado

Jeremy de Quidt

Não vemos muitas coleções de histórias de terror editadas em português. E são ainda menos as dedicadas a jovens e adolescentes. Este livro do inglês Jeremy de Quidt é, por isso, uma anomalia. Mas uma anomalia muito agradável.

O Comboio Errado é-nos apresentado através de uma moldura narrativa que parte da história de um rapaz que apanha o comboio errado, por engano, e acaba por sair num posto ferroviário deserto. Ou quase deserto, já que um velhote com uma candeia, acompanhado por um pequeno cão cinzento, se aproxima dele e mete conversa.

“Vamos fazer o seguinte”, propõe o velhote a certa altura: “Eu conto-te uma história enquanto esperamos pelo teu comboio. Uma bela história vai ajudar a passar o tempo.”

E é assim que somos introduzidos aos oito contos que compõem o livro, todos eles relativamente arrepiantes – mesmo para leitores adultos. “A Velinha da Ama”, por exemplo, é um fantástico exemplo de terror psicológico a fazer lembrar “Ladybug, Ladybug”, de Avon Swofford. “Babysitting” é outro conto especialmente bem conseguido. Mas todas as histórias têm o seu apelo e são, adequadamente, protagonizadas por jovens. É, por isso, uma leitura perfeita para o Halloween.


Era um riso que não era humano – um riso de escárnio, repleto de inveja e de maldade, vindo do solo vazio e gelado de uma sepultura. 

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O Jardim das Borboletas

Dot Hutchison

Será uma grande surpresa se O Jardim das Borboletas não for adaptado brevemente ao cinema ou à televisão. Tem o estilo e o ritmo certos para isso. E envolve temas tão controversos como rapto, tortura, assassinato em série, violação e pedofilia.

A história é-nos contada saltando continuamente da primeira para a terceira pessoa, do passado para o presente. Numa das perspetivas acompanhamos dois agentes do FBI na sua tentativa de desvendar os muitos segredos de um caso bizarro que envolve o sequestro de várias mulheres; na outra, entramos na cabeça de Maya, uma das jovens vítimas, desde o momento em que é raptada e levada para uma mansão onde um estranho homem a quem chamam de Jardineiro espera torná-la bela como uma borboleta.

Dot Hutchison, uma autora que até é mais conhecida pela escrita de livros para jovens adultos, tece neste thriller uma trama tão inteligente quanto inquietante, que recorda, a espaços, O Silêncio dos Inocentes, até pela forma como nos faz refletir sobre a beleza.


O Jardineiro nunca se daria ao trabalho de conservar uma quarentona – ou fosse qual fosse a idade dela quando morresse – cuja beleza se desvanecera há décadas. As coisas bonitas são de curta duração, disse-me ele da primeira vez que nos vimos.

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Despertar

Stephen King

O que seria rever o mais recente ano de livros de terror sem incluir pelo menos uma história escrita por Stephen King? Em 2017, o mestre do terror tem estado muito presente nas livrarias portuguesas, com títulos como Sr. Mercedes ou A Torre Negra – já para não falar nas reedições em formato de bolso de Carrie e The Shining – mas é este Despertar que nos sabe verdadeiramente a horror.

A ideia de Despertar surgiu a Stephen King ainda na infância, tendo o autor baseado a narrativa em clássicos como Frankenstein e O Grande Deus Pã. É, por isso, uma história de terror à moda antiga, que percorre meio século, unindo os caminhos de dois homens: o primeiro é um ex-pastor caído em desgraça depois de perder a família e amaldiçoar Deus; o outro é um jovem que assistiu à queda do primeiro e cresceu para se tornar um músico viciado em heroína. Eis que se insere entre eles uma técnica oculta que pode muito bem reanimar os mortos. E é quanto baste para nos deixar colados às páginas desta história – magistralmente contada, como é hábito de King – sobre perda e obsessão.


Houve uma altura em que eu teria dito que escolhemos os nossos caminhos ao acaso: isto aconteceu, depois aquilo, daí ter acontecido aqueloutro. Hoje, penso de outra forma. Existem forças.

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Vidas Finais

Riley Sager

Quando pensamos em terror, (também) pensamos em slashers como Massacre no Texas, Halloween ou Pesadelo em Elm Street. Por norma, neste tipo de histórias existe um psicopata que persegue um grupo de jovens, assassinando-os um a um até restar apenas um(a) sobrevivente. É precisamente essa a premissa deste thriller de Riley Sager – pseudónimo do americano Todd Ritter –, com a diferença que aqui acompanhamos as sobreviventes já após a chacina.

Sim, “sobreviventes”. Plural. Isto porque, embora a narrativa se centre em Quincy Carpenter, esta faz parte de um grupo restrito que os média apelidaram de Últimas Vítimas, composto por duas outras mulheres que também escaparam ilesas de horríveis massacres. Eis que, um dia, uma delas é descoberta com os pulsos cortados. E começam a surgir ameaças que parecem colocar em risco as vidas das outras duas.

Nenhum dos elementos deste trio conseguiu verdadeiramente ultrapassar os traumas passados, e é isso que torna este livro especialmente interessante. Melhor ainda: a história vai saltando do presente para o passado, mostrando-nos o que realmente aconteceu com a nossa heroína na noite do “seu” massacre.

Stephen King chamou a Vidas Finais “o grande thriller de 2017”, recomendando-o em especial a todos os leitores que tenham gostado de Em Parte Incerta. De facto, Riley Sager tem um estilo narrativo muito semelhante ao de Gillian Flynn. E, para mais, quem somos nós para discordar de Stephen King?


Foi a última coisa que Quincy viu antes de a dor e a mágoa se apossarem de si. Nuvens negras rolaram sobre a sua visão, embaciando o mundo. Fechou os olhos, dando as boas-vindas ao oblívio, deixando que a escuridão a invadisse.

Menina Boa, Menina Má

Ali Land

Até que ponto somos condicionados pelas pessoas que nos criam? Poderão certos distúrbios ser explicados devido à genética? Estaremos todos destinados a ser como os nossos pais?

Estas são algumas das questões que nos são lançadas por esta pequena gema que é também o romance de estreia de Ali Land, uma ex-enfermeira de saúde mental infantil e adolescente – e que, por isso, sabe do que fala quando nos conta a história de uma rapariga assombrada pelos pecados da mãe.

Quando Milly tinha 15 anos e se chamava Annie – “Um nome novo. Uma família nova. Um. Eu. Novinho. Em. Folha”, diz-nos logo no início –, a sua mãe foi presa por matar nove crianças, entre os 3 e os 6 anos, no espaço de uma década. Annie foi entregue a uma família de acolhimento, dando início a uma nova vida. Mas, sendo filha de quem é, não consegue deixar de pensar se será, como refere o título, uma menina boa ou uma menina má.

Menina Boa, Menina Má encontra-se algures entre o thriller psicológico e o livro de terror. Embora relativamente subtil nas descrições das partes mais violentas, é uma história que nos deixa desconfortáveis. E isso é bom.


A tua voz, a maneira como contavas histórias. Cativante, porém, assustadora. Lembro-me de ter pensado que não queria cegar as pessoas ou atraí-las até mim de forma que não pudessem escapar. Não queria ser como tu.

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Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Era mesmo necessária mais uma coleção de contos de Edgar Allan Poe? Sim, era. Pelo menos com uma “embalagem” como esta. Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe é composto por 28 das melhores prosas deste americano que foi um dos pioneiros do horror na literatura. Cada um deles é ilustrado por um artista nacional distinto, entre os quais se incluem nomes como Joana Mosi, Luís Corte Real e Zé Burnay.

Embora datem do século XIX, estas histórias de Poe permanecem assustadoramente sinistras. Temos, por exemplo, o horror gótico de “A Queda da Casa de Usher”, o aflitivo “O Poço e o Pêndulo” e a sátira disfarçada de “A Máscara da Morte Rubra”. Temos também “O Coração Delator”, que poderá muito bem ser um dos contos mais tecnicamente perfeitos de todos os tempos. E o ainda mais perturbante – em especial para quem gosta de animais – “O Gato Preto”. Pelo meio damos um saltinho ao mistério, ou não fosse também Edgar Allan Poe um dos precursores desse género, com “Os Crimes na Rue Morgue”, “O Mistério de Marie Rogêt” e “A Carta Furtada”. É uma edição imperdível para qualquer fã de Poe – e de terror no geral.


Deus do céu! Seria possível? Seria o meu cérebro que entrara em desvario, ou teria sido na verdade o dedo da morta que se mexera na mortalha que a envolvia?

OUTROS LIVROS ASSUSTADORES QUE PODES QUERER CONHECER

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A Substância do Mal

Luca d’Andrea
“É sempre assim. No gelo, primeiro ouve-se a voz da Besta, depois morre-se. Seracs e voragens idênticos àquele onde me encontrava estavam cheios de alpinistas e escaladores que tinham perdido as forças, a razão e, por fim, a vida por culpa daquela voz.”

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Noite Cega

Ragnar Jónasson
“Inquietante. Sim, a palavra era essa. Havia qualquer coisa de inquietante naquela casa antiga e degradada. As paredes tinham um ar pardacento e sombrio, sobretudo num dia chuvoso como aquele. Ali, o outono parecia mais um estado de espírito que uma estação real.”

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Os Melhores Contos de H. P. Lovecraft: Livro 6

H. P. Lovecraft
“Era um local confinado e eu estava sozinho. De um lado, para lá da margem de um ondulante verde intenso, via-se o mar: azul, luminoso, repleto de vagas alterosas, enviando-me exalações de espuma que me intoxicavam.”
Por: Tiago Matos

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