Halloween: uma história de doçura ou travessura?

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Na noite de Halloween os fantasmas e as bruxas saem à rua, mas quem ganha são os doces, as partidas… e as histórias de terror.

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5 ícones do Halloween


Abóboras
Os celtas acreditavam que esculpir um rosto assustador num nabo oco e colocá-lo à porta de casa ajudava os espíritos perdidos a encontrarem o caminho de volta para o Outro Mundo. Anos mais tarde, e na falta de nabos, os americanos passaram a usar abóboras.

Aranhas
Encontrar uma aranha no Halloween era visto como confirmação de que o espírito de alguém próximo se encontrava na mesma divisão. No entanto, era preciso cuidado se a aranha caísse no lume e ardesse: significava que havia uma bruxa por perto.

Bruxas
Representam a data ao ponto de a conhecermos como Dia das Bruxas em Portugal, mas dificilmente se justifica a malevolência que lhes é associada. Isto porque as bruxas originais eram simplesmente as mulheres que aplicavam as mezinhas e organizavam os rituais do Samhain.

Gatos pretos
Nos tempos medievais, quando as acusações de bruxaria andavam na ordem do dia, os gatos pretos eram vistos como encarnações do próprio Diabo. O mito desvaneceu-se com o passar dos anos mas estes animais mantêm-se ainda como símbolo do Halloween.

Morcegos
Os morcegos também eram alvo de superstições de Halloween. Dizia-se que a entrada de um destes animais numa moradia era sinal de que esta estava assombrada. E que se voasse três vezes junto a uma casa, um dos habitantes iria morrer em breve.

Foi há 270 anos que se ouviu falar pela primeira vez em Halloween. O termo surge em 1745 como contração de “All Hallows’ Eve”, expressão que dá nome à véspera do Dia de Todos os Santos. A comemoração que representa é, no entanto, muito mais antiga, remontando às ancestrais tradições celtas e em especial ao Samhain, festival que marca a entrada num novo ano.

Convencidos de que as portas do Outro Mundo se abrem por algumas horas nesta época, os celtas acendem fogueiras e organizam banquetes para receberem as almas dos mortos que regressam a casa em visita a familiares e amigos. A data representa, por isso, uma celebração da morte.

Aglutinação e aculturação

A popularidade da data faz com que a Igreja Católica se junte anos mais tarde à celebração, substituindo o pagão Samhain pelo Dia de Todos os Santos, aglutinação que acrescenta à festa novos rituais.

Muitas crianças mascaram-se de espíritos – para passarem despercebidas entre si – e deslocam-se de porta em porta a pedir o pão por Deus, tradição que se mantém até hoje em algumas regiões de Portugal e que acaba por evoluir para o americano “doçura ou travessura”. Isto porque, com a migração em massa de irlandeses e escoceses no século XIX, os Estados Unidos não só adotam a celebração como a tornam sua.

O Halloween torna-se então uma data essencialmente comercial, na qual se pedem doces, pregam partidas e leem histórias de terror.

Jack e a lanterna

Uma das mais populares histórias que se contam no Halloween está associada ao célebre símbolo da abóbora. É a história de Jack, um irlandês de má reputação que, deparando-se uma noite com o Diabo, faz com que este prometa que nunca lhe levará a alma para o Inferno. No entanto, quando Jack morre, a sua alma também não é aceite no Céu, pelo que se vê forçado a vaguear para sempre sem destino, iluminado por uma lanterna inserida num nabo oco.

A fantasia perdura – embora o sentido prático dos americanos acabe por transformar o nabo numa abóbora – e chega a inspirar escritores como Washington Irving, que termina o seu célebre conto A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça com uma misteriosa abóbora esmagada no chão.

Literatura de Halloween

Mas se o Halloween influencia a literatura, também é muito influenciado por esta. Em particular por romances góticos com elementos sobrenaturais, como Frankenstein ou Drácula, ou ainda pelos sinistros contos de Edgar Allan Poe.

São estes “monstros” que ajudam a moldar não só as decorações e máscaras mas o próprio tom do Halloween. E é o facto de conviverem desde cedo com esta realidade que leva muitos autores anglo-saxónicos a avançarem para a escrita das suas próprias histórias macabras. Vejam-se os exemplos de H. P. Lovecraft com o poema “Hallowe’en in a Suburb”, Ray Bradbury com Algo Maligno Vem Aí e A Árvore de Halloween ou Neil Gaiman com A Estranha Vida de Nobody Owens.

O Halloween até pode ser hoje um negócio, mas é inegável a sua influência no desenvolvimento da literatura de horror.


Por: Tiago Matos
Ilustrações: Richard Câmara

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