Guardiões de memórias

revista-estante-gardioes-de-memorias

Viveram sob um regime colonial e lutaram pela libertação dos seus países. Há 40 anos, autores como Pepetela, Germano Almeida, Ungulani Ba Ka Khosa ou o então adolescente José Eduardo Agualusa assistiram à independência de Angola, Moçambique e Cabo Verde. Na obra publicada antes e depois de 1975, reuniram sonhos e construíram memórias. Quatro décadas depois, assumem que muito falta ainda fazer, mas mantêm-se otimistas quanto ao futuro.

Por Susana Torrão
Ilustração de João Fazenda

Os pioneiros

Já desaparecidos, Rui de Noronha e José Craveirinha terão os seus nomes para sempre ligados à poesia moçambicana.

Rui de Noronha (1909-1943)

Filho de pai indiano e mãe negra, é hoje considerado o percursor da moderna poesia moçambicana. Embora de forma tímida – como a política da época exigia –, foi o primeiro a abordar temas como a injustiça do sistema colonial ou a opressão feita ao povo moçambicano, ainda nos anos 30. Os seus poemas foram publicados em livro já a título póstumo.

José Craveirinha (1922-2003)

Hoje considerado o poeta maior de Moçambique, foi o primeiro africano a receber o Prémio Camões. Colaborou ainda com publicações como Brado Africano, Voz Africana, Voz de Moçambique e Tribuna, entre outras. Ligado aos movimentos de libertação, esteve preso entre 1965 e 1969.

Germano Almeida começou a escrever quando tinha 16 anos, na ilha cabo-verdiana da Boa Vista, por prazer e para combater fantasmas. Mais a sul, em Angola, Pepetela desenvolveu as primeiras narrativas de ficção para trocar histórias com um colega de escola. Hoje, um e outro têm uma relação particular com a História. Germano Almeida garante que só a ficção permite compreender totalmente a realidade, Pepetela assume que a sua escrita tem como propósito “reforçar a identidade de uma nação que primeiro estava a nascer e agora está consolidada”, ao mesmo tempo que serve de provocação aos historiadores que, pelo menos à época da independência, “estavam muito preguiçosos ou com medo de trabalhar a História”.

Natural de Benguela, Pepetela iniciou-se cedo na escrita. “Desde que aprendi a escrever, com sete ou oito anos, comecei a escrever histórias. Gostava de as ler para um amigo. Ele tinha muitas histórias para contar sobre um povo de encruzilhada entre várias etnias, do Sul de Angola, com feitiços e lutas entre criadores de gado e agricultores. Eu não, e então passei a ler-lhe as histórias que escrevia”, recorda Pepetela que, desde cedo, esteve atento a questões sociais. Em 1963, tornou-se militante do MPLA, o que o levou à fuga para Paris e daí para Argel, tendo aí escrito o primeiro romance, Muana Pó. Seis anos depois, seguiu-se Mayombe: “Comecei o livro porque houve uma operação e eu devia escrever o comunicado para enviar para a rádio e agências de imprensa. Relatei o que se tinha passado e achei que o que estava escrito era tão pobre em relação à realidade que, depois de enviar a informação, continuei. A primeira operação que surge no livro é muito próxima do que aconteceu, mas os nomes não têm nada a ver”. Escrevia num bloco de cartas, à noite, à luz de um candeeiro a petróleo que deitava muito fumo. Mayombe foi publicado cinco anos depois da independência e obrigou o autor a um jantar com os antigos camaradas de armas, que queriam, à força, confirmar se eram as personagens do romance. Não eram, com grande pena de alguns.

Germano Almeida, por sua vez, despertou para a escrita em Cabo Verde, a partir da leitura: “Sempre gostei de ler. E acho que o vício da leitura traz com ele o vício da escrita. Aos 16 anos comecei a escrever as minhas primeiras histórias, mas sem preocupações de vir a publicar”. Depois de um naufrágio que houve na época, as preocupações eram, aliás, bem diversas: “Tinha medo dos mortos… O medo das pessoas que tinham morrido no naufrágio é que me fez começar a escrever sobre eles. Pensei: se escrever sobre eles vou conseguir libertar-me deles. Efectivamente consegui, mas perdi esse texto”.

revista-estante-germano-almeida-memorias-da-guerra

Germano Almeida

Um dos principais nomes da literatura cabo-verdiana, despertou para a escrita através da leitura.

Viver sob o colonialismo

José Luandino Vieira, nome maior das letras angolanas, passou grande parte do tempo da guerra na prisão – em Angola e no Tarrafal. Português de origem, partiu para Angola aos três anos. Começou a escrever ainda nos anos 50 e adotou o nome Luandino em homenagem à cidade de Luanda. Detido (e libertado) pela PIDE em 1959, viria de novo a ser preso dois anos depois, acusado de ligações ao MPLA. Condenado a 14 anos de prisão, cumpriu grande parte da pena no campo do Tarrafal, em Cabo Verde. Era lá que estava quando o seu livro Luuanda foi distinguido com o Grande Prémio de Novela da Sociedade Portuguesa de Escritores. A censura só se apercebeu mais tarde e tentou abafar o caso, proibindo qualquer menção ao prémio, exceto se houvesse um enquadramento crítico do autor e da obra.

Luandino voltaria a Angola em 1975, onde permaneceu até 1992, voltando depois para Portugal, onde vive desde então. Grande parte da sua obra, de onde também se destaca Nós, os do Makulusu (uma visão do colonialismo a partir do interior da sociedade branca), foi escrita durante os anos 60 e 70, o que o levou a recusar o Prémio Camões em 2006. Explicou na altura considerar-se um “escritor morto”, devendo o prémio ser atribuído a autores ainda ativos.

Bastante mais jovem, José Eduardo Agualusa, natural do Huambo, não teve participação política antes da independência, mas tem memórias da guerra. “O meu pai dava aulas ao longo da linha do caminho de ferro: assisti a descarrilamentos e à presença dos militares, que era constante. A guerra e a injustiça colonial também eram evidentes. Mas não era algo sobre o qual refletíssemos muito”, recorda. Com África em convulsão, também em Moçambique escritores como José Craveirinha e Mia Couto aderiram aos movimentos de libertação – neste caso a FRELIMO – como reação ao regime colonial.


revista-estante-jose-agualusa-memorias-da-guerra“Assisti a descarrilamentos e à presença constante dos militares. A guerra e a injustiça também eram evidentes.”

José Eduardo Agualusa

O sonho da independência

Na sequência do 25 de Abril, a chegada da independência das ex-colónias em 1975 – apenas a Guiné-Bissau ficou independente ainda em 1974 – marcou o início do sonho para muitos autores africanos. “Foi uma época de grandes projetos, em que tudo parecia possível. Todos nos envolvemos. Mesmo sendo muito jovem, com 15 anos, tinha uma grande atividade política naquela época”, recorda Agualusa. “Na altura, se se pensava numa Angola independente, projetava-se um país socialmente mais justo, onde a maioria das pessoas tivesse a oportunidade de usufruir da riqueza do nação. Isso não aconteceu. Infelizmente, Angola é um país com gravíssimas desigualdades sociais”, afirma o autor de Nação Crioula, não deixando, porém, de salientar os pontos positivos: “É preciso dizer que há melhorias: quando eu era criança, se saísse do Huambo, e mesmo dentro da cidade, havia muitas pessoas descalças.

Hoje não. Apesar de tudo, houve um processo de devolver a dignidade às pessoas e, mesmo com muitos erros e equívocos, aumentou o número de angolanos alfabetizados e com possibilidade de estudar. Há mais jovens nas universidades”.

Já Pepetela teve nesta época a sua primeira e única experiência de poder, como vice-ministro da Educação no governo de Agostinho Neto: “Eu não gostava, nunca me agradou mandar, nunca tive jeito. Na primeira oportunidade abandonei o governo e nunca mais tive nenhuma função de responsabilidade. Mas deu-me uma noção do que era o Estado, do que era governar. Uma experiência que me tem sido útil muitas vezes para criar personagens”. A passagem por Argel e o acompanhamento que fazia de outros países africanos não lhe permitiram demasiadas ilusões. “Eu achava que não íamos atingir a sociedade perfeita que idealizávamos. Mas não imaginava uma sociedade em que todos se atropelam uns aos outros no pior do que o capitalismo tem”, lamenta.

No caso do escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, autor de Ualalapi — considerado um dos 100 melhores romances africanos do século XX — foi a intervenção que teve no pós-independência que o fez descobrir a escrita. Trabalhando à época no Ministério da Educação, foi colocado no norte de Moçambique, na província de Niassa. “Nessa altura, Niassa era o nosso gulag, era para lá que iam as pessoas que estavam contra o regime, para os chamados campos de reeducação. Foi o olhar sobre essa não-cidadania a que foram vetados alguns moçambicanos, logo após a independência, que me levou a chamar a atenção sobre o facto. Foi a incredulidade em ver o Niassa que fugia ao país que me levou a escrever”, diz. Hoje, a sua escrita procura destacar a diversidade cultural moçambicana como fonte de riqueza e união.


As vozes femininas

Paulina Chiziane, Isabel Ferreira, Aida Gomes e Ana Paula Tavares são algumas das mulheres que marcam a poesia e romance africanos. Também elas tiveram intervenção política durante os tempos da guerra colonial.
Paulina Chiziane: A ex-militante da FRELIMO tornou-se, com Balada de Amor ao Vento (1990), a primeira moçambicana a publicar um romance. Em Niketche: Uma História de Poligamia, aborda realidades como a poligamia na atualidade do seu país.
Isabel Ferreira: Iniciou a carreira como cantora num grupo que atuava para os guerrilheiros antes do combate. Em obras como O Guardador de Memórias, reflete sobre o universo da mulher em Luanda.
Aida Gomes: A viver na Holanda desde 1985, é outro dos nomes do romance africano que se tem debruçado sobre questões sociais. Em Os Pretos de Pousaflores, retrata a guerra em Angola e a sua relação com Portugal.
Ana Paula Tavares: Nome de destaque na poesia angolana, é autora de livros como Manual para Amantes Desesperados e Os Olhos do Homem que Chorava no Rio, assumindo desde sempre a influência da literatura e música brasileiras na sua obra.

Relação com a História

Ao longo das últimas décadas, as questões da identidade cultural, da História e da memória foram tratadas por diversos autores africanos. “Só com a ficção poderemos contar os episódios que aconteceram com a independência. Através da História e dos relatórios oficiais não será possível”. Quem o afirma é Germano Almeida, para quem a ficção possibilita uma multiplicidade de perspetivas que permitem uma visão mais global da realidade. “A História relatada como a aprendemos nunca é suficiente para transmitir a realidade de um país. Esta é-nos ensinada com a ficção. Enquanto a História é encadeada e tem um objetivo, na ficção podemos variar os mais diversos aspetos. Ficamos com uma síntese mais completa do que aconteceu”, explica. Ainda assim, não se deixa iludir quanto ao papel da literatura: “Atribui-se um crédito excessivo à influência da literatura na sociedade. Não acredito que esteja a influenciar particularmente a realidade cabo-verdiana. Com o desenvolvimento dos meios de impressão e com a Internet e a televisão, a importância dos escritores foi-se desvanecendo. Em Cabo Verde temos alguma produção literária, mas é uma produção que se circunscreve a Praia, São Vicente, Sal e pouco mais. Não temos meios de comunicação, as pessoas têm pouco dinheiro e ninguém compra um livro se precisar de comprar açúcar”. Mesmo assim, continua a defender que não existem textos inócuos: “Quando escrevo, o meu propósito é contar uma história. Mas o facto de eu escolher esta ou aquela história já não é um facto inocente”.

Com livros como Yaka ou A Gloriosa Família, mais do que fazer História, Pepetela quis brincar com ela. “A intenção é reforçar a identidade de uma nação. E, para isso, tem real importância a literatura ir à História recuperar figuras ou factos que tenham a ver com a formação dessa identidade”, explica. “[Em A Gloriosa Família] uso um fragmento de algum historiador ou cronista da época, que contava a história à sua maneira. E depois o que eu escrevo é exatamente o contrário. Também é isso que costumo fazer: uma espécie de desafio, de provocação aos nossos historiadores.”

Ungulani Ba Ka Khosa alinha pela mesma bitola: “A minha grande paixão é perseguir a memória. Muitas vezes, em países como o nosso, recém-independentes, escrevemos a nossa história e temos a tendência de esquecer certos traços, desmemorizamos”. E dá um exemplo: “Em Ualalapi, procurei olhar Gungunhana como uma figura que na tradição oral é vista como um invasor, um déspota, e mostrar que também há este lado da História, apesar de oficialmente ser vista como figura de resistência do período pré-colonial. Esse olhar mostra que devemos relativizar a invasão de um determinado espaço: não é só o branco que veio a África e colonizou. Também dentro do próprio continente, com essas invasões, há outros espaços de colonização. No início do livro, usei uma citação de Agustina [Bessa-Luís] que diz que a História é uma ficção controlada. Eu limitei-me a descontrolá-la e a abri-la a outros horizontes.”

Também José Eduardo Agualusa, em A Rainha Ginga, procurou dar uma perspetiva diferente de uma figura bem conhecida da história angolana. O objetivo foi contar os factos a partir do interior da corte de Ginga, criando uma nova versão dos acontecimentos: A História é um conjunto de ficções que chegou até nós. As crónicas e documentos publicados na época são também versões. Tudo são versões. Nunca saberemos o que aconteceu realmente”.

O momento atual

A viver em Cabo Verde, Germano Almeida garante que o país atual nada tem a ver com o de há 40 anos: “O balanço é vantajosamente positivo para nós”. Em São Vicente há várias décadas, continua a ver-se como um estranho, o que lhe permite ver melhor as idiossincrasias da ilha. “A infinidade de histórias que me chegavam diariamente não tem preço. Sobretudo para o conhecimento de São Vicente”, lembra. Dois Irmãos, romance em que narra um fratricídio, resulta de um caso que conheceu enquanto procurador na Praia e que o impressionou, dada a veneração que a comunidade devotava ao assassino.


revista-estante-ungulani-ba-ka-khosa“Ao nascer de um paradigma político, o que é verdade ontem é mentira hoje. Isto é um cenário ideal para a literatura, mas não para a estabilidade das pessoas.”

Ungulani Ba Ka Khosa


Para Ungulani Ba Ka Khosa é precisamente a instabilidade de países como Angola e Moçambique que os torna literariamente mais ricos: “São países que nasceram de um paradigma político e não cultural. E ao nascer-se de um paradigma político, e sendo a política tão flutuante, o que é verdade ontem é mentira hoje. Tudo isto é um cenário ideal para a ficção, para a literatura, mas não para a estabilidade das pessoas”.

Como professor universitário, Pepetela foi testemunha privilegiada das alterações da sociedade angolana. Mesmo assim, há algumas, como a chamada Geração Kuduro, que ainda lhe causam estranheza: “Acho que nem a minha filha, que ainda não tem 40 anos, a entende. Como é que eu vou perceber estes jovens que têm 20 anos? Há dois tipos: os pobres, que vivem nos bairros periféricos e convivem com a violência diária e perdem valores de humanidade; e os outros, que têm uma vida mais folgada, receberam tudo e nem sequer percebem que precisam de estudar. É claro que compreendo o que está por trás disto, mas ultrapassa-me”. As mudanças notam-se no estilo da geração mais jovem de escritores angolanos. “Procuram fórmulas novas, embora sejam muito influenciados ainda pela minha geração. A principal diferença é que as vivências que têm do tempo colonial são as da família. E há a tendência das pessoas mitificarem o passado, para o bem ou para mal. É ficção sobre a ficção”, diz Pepetela.

Com o tempo dividido entre Portugal, Angola e Brasil, José Eduardo Agualusa tem acompanhado a evolução do país com um maior distanciamento. Assume que é persona non grata no seu país, mas gostaria de viver mais tempo lá: “Preciso de passar mais tempo em Angola, para recolher histórias, para estar com as pessoas”. Quanto ao futuro, não faz previsões mas mantém-se otimista: “Não saberia fazer previsões nem para Portugal, que é um país em que quase nada acontece, quanto mais para Angola. Mas espero que as coisas corram bem, acho que há um movimento mundial de democratização e transparência e Angola não pode fugir a isso. Vai ser forçada a acompanhar esse processo, não tem como não o fazer”. |


revista-estante-manuel-alegre-memorias-da-guerraMemórias da Guerra

“Em Nambuangongo,
tu não viste nada
Não viste nada nesse dia
longo, longo
A cabeça cortada
E a flor bombardeada
Não, tu não viste nada
em Nambuangongo!”

As primeiras estrofes de Nambuangongo Meu Amor, de manuel alegre, refletem a experiência da guerra que muitos jovens da sua geração viveram em África. O poema – que também deu título a uma antologia sobre a temática da guerra – foi escrito sem objetivo específico. “Esses poemas eram a expressão do que se sentia e estava a viver na altura”, afirma o autor. Os textos que escreveu em Angola – no mato e na prisão –, em Coimbra e durante o exílio integram os livros Praça da Canção e O Canto e as Armas. “Alguns deles foram salvos pelo Luandino Vieira, que estava na prisão ao mesmo tempo, através da primeira mulher dele”, recorda. Embora estivesse sempre isolado, os outros presos faziam-lhe chegar apoio: “Tínhamos lutas diferentes, eles lutavam pela independência, eu pela liberdade do meu país.” O processo de escrita é sempre “um estado de graça” para Manuel Alegre, mas também um reavivar de memórias: “Lembro- -me de amigos que morreram, dos meses passados no mato, da comida que não aparecia ou que era sempre a mesma, do medo de pisar uma mina… São coisas que quem lá esteve não esquece.”

Gostou? Partilhe este artigo: