O Grande Irmão está a ver-te

Quem é o Grande Irmão que nos vigia e que George Orwell inseriu na sua celebrada distopia 1984? Porque nos soa ainda hoje tão assustadoramente familiar?

Por: Tiago Matos
Ilustração: Gonçalo Viana

Dados rápidos


Físico
A única parte que se conhece do Grande Irmão é o rosto, exibido por toda a nação. É descrito como um homem com cerca de 45 anos, dono de um bigode farto e de uma beleza austera. Pensa-se que George Orwell se inspirou em Estaline para esta descrição.
Lema
“O Grande Irmão está a ver-te.”
Lido em
1984 (George Orwell)

Estamos a ser vigiados. É uma convicção que, nos últimos anos, deixou de ser exclusiva dos teóricos da conspiração e se alastrou um pouco por todo o mundo graças às políticas de partilha de informação na Internet e à propagação de câmaras e tecnologias de rastreio.

A Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos admitiu espiar a população através de dispositivos eletrónicos. A ciberespionagem e o hacking governamental são assuntos na ordem do dia. Que nome se dá a tudo isto? Big Brother. O Grande Irmão. E foi George Orwell que o cunhou, no livro 1984.

Somos transportados, nesta célebre distopia, para um mundo em guerra, dividido em três superestados, consequência de uma devastadora guerra nuclear. Winston Smith, protagonista da história, faz parte da Oceania, nação composta por Reino Unido, América, Austrália, Nova Zelândia e Sul de África. Quem governa – com mão de ferro – a população desta vasta região é o Partido, e fá-lo sob três máximas: “Guerra é paz”, “Liberdade é escravidão” e “Ignorância é força”.

O rosto visível do partido é o Grande Irmão. Literalmente. Isto porque a única parte que se conhece dele é o rosto. Surge espalhado por todo o território, acompanhado pelo desencorajante aviso: “O Grande Irmão está a ver-te.” E está mesmo. Existem câmaras – ou telecrãs, como são conhecidos – por todo o lado. Informadores também.

Se não há privacidade, também não há liberdade. É pedido ao povo que se sacrique pela nação. Pelo Grande Irmão. A lavagem cerebral é constante.

Quem é o Grande Irmão? Nunca chegamos a saber. Ao ponto de nos perguntarmos: será que realmente existe? É um homem de carne e osso ou apenas mais uma ferramenta de propaganda? A resposta, por estranho que pareça, não é importante.

Para Winston Smith e restantes cidadãos da nação distópica de Orwell, tudo o que interessa é que existe enquanto símbolo, manifestando-se através de membros do Partido que os vigiam, exploram e manipulam continuamente. São evidentes os paralelismos com figuras da vida real. E é isto que faz com que, existindo ou não, o Grande Irmão permaneça imortal.


3 livros para
O Grande Irmão

A Longa Noite de um Povo
Barbara Demick

Será que o Grande Irmão sabe realmente o sofrimento que causa ao seu povo? Talvez se sensibilize ao conhecer os testemunhos de seis norte-coreanos neste livro que explora o regime totalitário mais repressivo do mundo atual.

Da Ditadura à Democracia
Gene Sharp

É importante que o Grande Irmão perceba que as ditaduras não duram para sempre. Neste livro, que se acredita ter desempenhado um papel central na Primavera Árabe, enumeram-se as principais fraquezas destes regimes e traça-se o caminho para os derrubar sem violência.

V for Vendetta
Alan Moore

Se a luta não violenta não impressionar o Grande Irmão, a revolução liderada pelo misterioso V e esboçada nesta novela gráfica certamente o fará. É uma lembrança de que a repressão tem sempre os dias contados e de que os revolucionários também dominam o poder dos símbolos.

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