Gin Phillips: será esta a nova Paula Hawkins?

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Até onde vai uma mãe para proteger o seu filho? Tão identificável quanto aterradora, esta é a questão que serve de mote a um dos livros que melhor tem sabido captar as atenções do público neste início de 2018.

Falamos de Reino das Feras, da americana Gin Phillips, um thriller psicológico que decorre no espaço de apenas três horas, no interior de um jardim zoológico que é tomado de assalto por um homem armado. No centro da narrativa, apanhados de surpresa, estão Joan e o seu filho Lincoln, de apenas 4 anos, que esta procura defender, custe o que custar.

Reino de Feras é um daqueles thrillers que custam a largar, um pouco ao jeito dos de Paula Hawkins ou Gillian Flynn. Mas será Gin Phillips o novo fenómeno do thriller psicológico? Em entrevista à revista Estante, a autora responde às comparações.


A experiência de ser mãe é o núcleo de Reino de Feras. Sempre o vi, primeira e principalmente, como um livro sobre maternidade.


Como lhe surgiu a ideia de Reino de Feras?

Nos meses antes de o começar a escrever, considerei algumas ideias diferentes para a história, mas todas acabavam por tender para a maternidade. O meu filho tinha 4 anos na altura e eu estava encantada com a noção do que significa ser mãe, de como essa ligação é diferente de outras relações. Não me refiro apenas às coisas lamechas, refiro-me a quanto nos consome – quão exaustivo, quão repetitivo, quão estimulante é. Como somos seduzidos pelas bizarras e hilariantes reviravoltas da mente do nosso filho.

Passei muito tempo no jardim zoológico nesses meses, e temos muito tempo para pensar quando vemos um crocodilo completamente imóvel pela 300.ª vez. Um dia, certamente depois de assistir a alguma notícia sobre um dos demasiado comuns tiroteios nos Estados Unidos, dei por mim a pensar: o que faríamos se alguém surgisse aqui com uma arma? Para onde iria?

Eventualmente, este devaneio sombrio começou a parecer algo mais: o enquadramento para explorar todos os ângulos da maternidade que andava a considerar. Perguntei-me o que aconteceria se a maternidade não fosse apenas parte da história, mas a história. E se o leitor tivesse acesso à relação entre uma mãe e um filho no momento mais intenso possível, quando se trata literalmente de uma questão de vida ou morte? E se me aproximasse ainda mais e toda a história decorresse dentro de limites muito bem definidos?

Por isso, tudo acontece no interior de um jardim zoológico. Tudo se passa em três horas, desde o momento em que soam os primeiros tiros até ao momento em que a polícia finalmente chega. E se? E depois comecei a escrever.

Uma mensagem especial para os clientes FNAC
“Espero que gostem de Reino de Feras – especialmente aqueles de vós que forem pais. Espero que vos faça pensar na relação com os vossos filhos. Ou talvez vos faça ver os vossos próprios pais de modo um pouco diferente. Seja como for, muito obrigada por lerem!”
O facto de ser mãe influenciou a escrita do livro?

A experiência de ser mãe é o núcleo do livro. Sempre o vi, primeira e principalmente, como um livro sobre maternidade. O que mais quis acertar foi a relação entre esta mãe e este filho. E há muito do meu próprio filho em Lincoln.

Porquê situar a história num jardim zoológico? Sofreu aqui alguma experiência traumática no passado?

Não, nenhuma experiência traumática num jardim zoológico! Como referi, a ideia ocorreu-me num jardim zoológico e, quanto mais pensava no lugar, mais adequado me parecia.

Gostei da ideia de situar a história num lugar muito doméstico e suburbano, reconhecível por qualquer pai. O jardim zoológico enquadra-se neste campo: seguro, familiar e não ameaçador. E é isto que costumamos pensar das mães, não é?

Mas o jardim zoológico não é apenas isto. Também tem um lado mais negro – há criaturas selvagens em caixas. Perto de carrinhos de bebé e algodão doce, há garras e dentes afiados e a promessa de tudo o que é indomesticado. Há poder.

Acho que esta complexidade funciona bem com o que acontece na história. A Joan e o Lincoln acabam por se sentir encurralados, por isso há um eco com os animais enjaulados. Mas a Joan também é inteligente e forte e segura. Tem poder.


Não me moldo a Gillian Flynn ou Paula Hawkins. Ainda não me considero primariamente uma escritora de thrillers.


Um conselho para aspirantes a escritor
“Sentem-se e escrevam. A inspiração é altamente sobrevalorizada. Escrever é como qualquer outro emprego. Decidam quanto tempo lhe querem dar a cada dia, sentem-se e obriguem-se a respeitá-lo. Talvez escrevam durante horas e consigam uma boa frase. Talvez se deixem levar pela vossa história e acabem com páginas de boas coisas. Seja como for, nada acontece se não começarem a martelar as palavras.”
Reino de Feras é o seu quinto livro, mas o primeiro a mergulhar no género do thriller psicológico. Este tipo de história sempre a fascinou?

Não. Li thrillers, é claro, e gostei muito de alguns deles – gravito em torno de qualquer romance com personagens apelativos, uma bela prosa e uma história que me atrai. Mas quando entreguei este manuscrito ao meu agente, pensei nele como um livro de ritmo rápido sobre maternidade. O termo “thriller” não me ocorreu até os editores o começarem a usar.

Considera este livro a sua porta de entrada para o sucesso internacional?

Acho que quando começamos a pensar nos nossos livros como “porta de entrada para sucesso internacional”, estamos a necessitar de acalmar o ego. Mas tenho andado encantada com a aceitação de Reino de Feras por todo o mundo. Excedeu todas as minhas expetativas, estou muito grata.

Vê-se como a próxima Gillian Flynn ou Paula Hawkins?

Não diria que me moldo a Gillian Flynn ou Paula Hawkins – ainda não me considero primariamente uma escritora de thrillers. O meu primeiro romance foi ficção histórica e também não me rotulo de autora de ficção histórica. Porquê definir quaisquer limites? Não há como dizer que forma poderão assumir os próximos livros.

Quais são as suas principais influências?

Acho que as nossas influências são os escritores de que gostamos. Quer façamos intencionalmente eco deles ou não, absorvemo-los nas nossas células. Eu adoro Elizabeth Strout, Toni Morrison, Edith Wharton, Margaret Atwood, Ann Patchett, Hilary Mantel, Penelope Lively, Charles Dickens e Neil Gaiman, para nomear apenas alguns.


Pensei em Reino de Feras como um livro de ritmo rápido sobre maternidade. O termo “thriller” não me ocorreu até os editores o começarem a usar.


Reino de Feras será brevemente adaptado ao cinema. O que podemos esperar? Vai estar envolvida na produção, de alguma forma?

Acho que o argumento está a ser escrito neste momento. Embora os produtores me mantenham atualizada, não tenho nenhum papel ativo no filme.

É complicado… Para cedermos os direitos de adaptação de um livro ao cinema, temos de aceitar que será uma criação separada. É um meio diferente, por isso será forçosamente um animal diferente. Visceralmente, é difícil aceitarmos isto num romance nosso, mas acho que um pouco de distância do projeto acaba por ajudar.

Já tem alguma ideia quanto ao seu próximo livro? O que nos pode revelar?

Estou a terminar um manuscrito passado no início do século XX, numa colónia utópica no Sul Profundo dos Estados Unidos. É um livro que explora o impulso de criar um mundo onde não existe nada de feio, nada de mau. E o que fazemos quando percebemos que não podemos escapar ao mal, independentemente de onde estamos.


Por: Tiago Matos
Fotografia: Ryane Rice

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