Frederico Lourenço: “É quase impossível imaginar a vida pós-Bíblia”

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Em conversa com a Estante, o mais recente vencedor do prestigiado Prémio Pessoa fala sobre o processo de tradução da Bíblia e revela planos para o futuro.

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Bíblia: Livro 1
Frederico Lourenço

Esta é a mais recente tradução integral – a partir do Grego – dos 80 livros da Bíblia. O primeiro de seis volumes foca-se no Novo Testamento, mais especificamente nos quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João). Ao longo de todo o livro, o autor apresenta notas e comentários para esclarecer e contextualizar da melhor forma o texto original.

Acaba de vencer o Prémio Pessoa 2016. Encara-o como um reconhecimento de todo o trabalho feito até agora ou um incentivo para voos ainda mais altos?

Vejo-o como um reconhecimento pelo trabalho feito na divulgação da literatura grega com as traduções de Homero. E também como um voto de confiança no atual projeto de traduzir o Novo Testamento e o Antigo Testamento grego.

Em que medida a sua tradução integral dos textos da Bíblia vem preencher uma lacuna em Portugal?

Penso que havia falta de uma versão portuguesa do Antigo Testamento grego, porque tem características específicas que tornam o texto diferente do texto hebraico. Ao mesmo tempo, foi o Antigo Testamento grego que serviu de Escritura Sagrada aos primeiros cristãos e, por isso, é um documento histórico fundamental para estudarmos a evolução do cristianismo desde as suas origens. Também para a história do judaísmo é um texto fundamental. No que toca à minha tradução do Novo Testamento, penso que vem suprir a falta de uma tradução dos livros que o compõem feita a partir de uma perspectiva crítico-histórica, religiosamente neutra. Também me esforcei por ser tão exato quanto possível na tradução do grego, sem nunca facilitar o texto para o tornar mais legível.

Com que idade começou a ler a Bíblia? O que retirou nessa altura que o acompanhou o resto da vida?

Comecei a ler a Bíblia bastante cedo, mas levou muito tempo até começar a sentir que estava a compreender alguma coisa do que estava a ler. O Novo Testamento só me começou a fazer sentido a partir do momento em que pude lê-lo na língua original, que é o grego. Mesmo assim, há livros que continuam sempre extremamente difíceis de compreender. Não admira que haja estudiosos que dedicam uma vida inteira ao estudo de uma única carta de Paulo, por exemplo. A riqueza de sentido e de possibilidade de sentido é inesgotável.

Como avalia o atual panorama da literatura em Portugal?

Naquilo que me diz mais diretamente respeito – o estudo das literaturas clássicas –, penso que o panorama editorial melhorou imenso desde os tempos em que eu próprio era estudante. Nessa altura, praticamente as únicas boas traduções que havia da literatura grega eram as da Maria Helena da Rocha Pereira. Desde então, tanto em Coimbra como em Lisboa produziram-se excelentes traduções da literatura grega.

É um apaixonado pelo mundo greco-latino. O que ainda está na sua to do list no que a obras literárias diz respeito?

Durante os próximos anos andarei à volta do Antigo Testamento grego. Para já, ainda é quase impossível imaginar a vida “pós-Bíblia”, digamos assim. Gostaria de escrever um livro sobre Jesus e as origens do cristianismo, mas isso terá ainda de esperar.

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