Francisco Vale: “O que mais me interessa na edição é um lado de risco”

“Ser editor é um prolongamento natural das minhas leituras.”

É assim Francisco Vale, o homem que foi primeiro professor, depois jornalista e só mais tarde editor. Há 35 anos que o é. Na Relógio D’Água, da qual é fundador. Corre riscos, incluindo o de ter obras que não compensam financeiramente num catálogo de 1500 títulos. Menos, certamente muitos menos, do que os que recebem os visitantes da sede da editora em Lisboa. “Parece um alfarrabista, não é?”

Entrevista por Fátima de Sousa
Fotografias de Bruno Colaço/4SEE


Leituras infindáveis

Infindáveis. É esta a palavra a que recorre quando o desafio é elencar os autores de eleição. Francisco Vale revisita com frequência Proust e os clássicos russos, como Tolstói, Dostoiévski e Tchékhov, que considera terem uma importância muito grande na configuração dos sentimentos ocidentais. Rende-se também a contemporâneos como Cormac McCarthy, Saul Bellow e Don DeLillo. Ou o português Rentes de Carvalho, radicado na Holanda.

 

Entrevista a Francisco Vale
Veja aqui o vídeo da entrevista a Francisco Vale.

 


 

O que o levou a aventurar-se, há 35 anos, no mundo editorial?
Eu era jornalista mas estava um pouco insatisfeito com essa atividade. Já tinha experimentado um pouco de tudo e sentia que a minha imaginação já não dava para muito mais como jornalista. Eu e dois colegas d’O Jornal, o Rogério Rodrigues e o Fernando Dacosta, decidimos então criar uma editora. Tínhamos os três pretensões a escrever ficção e estávamos cheios de ideias. Fizemos um manifesto e tudo, acreditávamos que através da editora íamos modificar a atividade literária em Portugal. Muitos desses projetos ficaram pelo caminho, mas a verdade é que mantive o ímpeto de editor e, em certa medida, o que a Relógio procura fazer é contribuir para essa mudança do panorama cultural.

Mais do que comercial é um projeto cultural? É essa a ambição?
O nosso catálogo configura precisamente essa ambição. A atividade editorial em parte é uma espécie de prolongamento da atividade do editor como leitor. Enquanto o leitor partilha as preferências com os amigos, emprestando-lhes livros, o editor também o faz, embora noutra escala. Essa vertente cultural faz com que a Relógio D’Água procure suprir lacunas, publicando obras como Ética, de Espinosa, ou História da Filosofia Ocidental, de Bertrand Russell. Há obras que particularmente não me dizem muito mas que considero ser uma obrigação editorial publicar.

Há um fio condutor na seleção de autores que seja distintivo da Relógio?
O fio condutor começa por ser esse, o gosto pessoal. Trabalhado e mutável ao longo dos anos. É um aspeto interessante da nossa coerência editorial. E depois há a edição sistemática de autores. Há muitos editores que vão buscar os bestsellers, há mesmo os que recorrem a top 10 como o da Amazon e editam em função disso, o que dá uma linha editorial bastante incoerente. Andam atrás dos livros que mais vendem… Nós procuramos editar sistematicamente autores de qualidade, aqueles que consideramos importantes nas diversas áreas. Somos uma editora generalista, com 1500 livros no catálogo e a mais extensa coleção de poesia publicada em Portugal, 150 títulos, mas também ensaio, literatura infantojuvenil e, claro, ficção nacional e estrangeira. Não temos uma relação passiva com os leitores. Não editamos necessariamente aquilo que eles querem ler. Sem forçar vontades, procuramos surpreendê-los, dar-lhes o que não estão à espera, aquilo que achamos importante que eles leiam também. É por isso que, volta e meia, lançamos os primeiros livros de vários autores. Temos a obrigação de estarmos atentos ao que se publica em vários países, mas os leitores não. Procuramos chamar a atenção para esses autores, quer na ficção, quer no ensaio.


“Há essa ideia de que Portugal é um país de poetas quando a poesia exige disciplina”


De certa forma, foge ao mainstream editorial…
Eu entendo que a criatividade não está nos grandes grupos editoriais que se formaram, designadamente a Porto Editora e a Leya. Na verdade são editoras até relativamente verticais, que mantiveram chancelas que tinham prestígio, como a Caminho, mas perderam criatividade porque estão inseridas nessas estruturas que condicionam as opções dos editores. Na Relógio D’Água não podemos ignorar o mainstream e, volta e meia, temos um título ou outro que se situa entre os mais vendidos. Aliás, de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos temos tido grandes êxitos editoriais deliberados – aconteceu com Adeus, Princesa, da Clara Pinto Correia, O Sexo dos Anjos, do Júlio Machado Vaz, Sul, do Miguel Sousa Tavares, Portugal, Hoje – O Medo de Existir, do José Gil. Ou a tetralogia da Elena Ferrante, que está a vender dezenas de milhar de exemplares. Mas não o procuramos em termos de ausência de qualidade. Quando um livro é bom e tem possibilidades de vender disputamo-lo certamente, mas sempre com a preocupação de diversificar. Por cada livro que consideramos muito vendável, há outros que quanto muito se pagam e outros que até sabemos que vão dar prejuízo. Fizemos isso com vários autores: o Rui Nunes inicialmente vendia 200 exemplares, a Alice Munro só depois de ganhar o Nobel é que começou a vender. É um luxo a que nos podemos dar e que os grandes editores não podem.
E os leitores reconhecem esta abordagem diferenciadora?
Quer os leitores, quer os críticos. Sempre que arriscamos, que colocamos um livro inesperado, somos saudados por muitos leitores. É por isso que a vida de um editor é interessante. Não é estar aqui seis, oito horas a ler originais, a ler os críticos – tal como os jornalistas, exercemos a profissão todo o dia; podemos ouvir um programa e achamos que há ali uma voz interessante que pode passar a livro, como aconteceu com o Júlio Machado Vaz, ou folhear uma revista e perceber que há artigos com uma coerência que podia dar um livro, como aconteceu com o Miguel Sousa Tavares e o que publicava na Grande Reportagem; ou vermos na televisão alguém que consegue explicar um teorema matemático de maneira acessível e decidirmos falar com ele, neste caso o Rui Nunes.
Seis ou oito horas a ler originais… recebe muitos manuscritos?
Embora haja atualmente editoras que se especializam em publicar sem passar pelo crivo de uma seleção editorial – são casas que publicam livros –, continuamos a ter imensos originais, designadamente de poesia. Mas destes eliminamos cerca de 90% apenas com a leitura das primeiras páginas. São muito elementares – rimam “flor” com “amor”. Há essa ideia de que Portugal é um país de poetas quando a poesia exige disciplina, exige o conhecimento dos grandes poetas. Mas temos publicado originais que nos chegam.
Qual é o momento em que sabe, sem dúvida, que um manuscrito é publicável?
Há sempre margens de incerteza, mas temos de correr um certo risco. Se um livro nas primeiras 30 páginas não nos agrada… Até pode ser uma maravilha depois, mas… Com a minha experiência, tenho a pretensão e uma certa segurança de saber nas primeiras 30 ou 40 páginas se vale a pena ler todo ou não. Não os consigo ler todos, porque ao mesmo tempo temos de ler originais noutras línguas, aqueles livros que pedimos porque nos parecem interessantes ou autores que já seguimos e têm novos livros.

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Diria que em Portugal se lê menos ou apenas se vende menos?
Globalmente, acho que em Portugal se continuam a vender poucos livros e a ler pouco, comparativamente com outros países europeus. Mas comparativamente com o que se passava há dez anos, por exemplo, as tiragens são menores mas há mais livros editados, pelo que é natural que o número de leitores tenha aumentado. Há menos grandes leitores, menos pessoas que compram sistematicamente livros. E as pessoas também estão mais atentas, são mais críticas, já não vão indiscriminadamente atrás de um bestseller. Além de que se lê noutros suportes, no computador, no telemóvel… São outras leituras, mas lê-se.

Como é que a Relógio D’Àgua se tem adaptado a essa nova era, a da edição digital?
Estamos num processo de observação e adaptação. Há uns anos escrevi um livro – Autores, Editores e Leitores – cuja primeira parte era ocupada com uma previsão do que iria acontecer no livro impresso e digital. E já na altura, sem ser especialmente perspicaz, me pareceu que o livro digital, designadamente na ficção e na poesia, não iria ter uma evolução rápida e muito menos avassaladora. Em certos géneros, como o ensaio e os livros de estudo, obviamente o digital vai ter um incremento mais rápido, mas em livros que exigem uma leitura continuada e em que há uma relação do leitor com a obra – uma relação física a vários níveis, do olhar ao cheiro e ao tato – a edição impressa está a resistir. Vamos iniciar em breve a edição digital. Estávamos para começar há cerca de um ano mas adiámos deliberadamente. Já temos contratos que preveem essa edição, temos o know-how instalado, mas também temos autores, como o Gonçalo M. Tavares, que não se reconhecem nesse formato.

Risco é uma palavra que tem pontuado esta conversa. Ser editor é uma profissão de risco?
É, mas também não vale a pena ter profissões que não sejam de risco. Pelo menos, é assim que eu entendo a vida, com uma certa margem de risco. As pessoas que não o conseguem fazer podem ser muito interessantes, mas… não é o meu género. O que mais me interessa na edição é um lado de risco, de aposta mesmo.

Qual foi o maior risco que correu?
Numa fase inicial, houve autores que era arriscado publicar. Hélia Correia, Rui Nunes, Regina Louro. O último risco que corri foi o norueguês Karl Ove Knausgård. São milhares de páginas de uma autobiografia em seis volumes. Nunca editei uma obra tão volumosa, mas acho que ele tem qualidade e que vale a pena correr o risco. As vendas estão a ser interessantes, é um autor que está a criar um público.

Lembra-se da sensação de ter nas mãos o primeiro livro saído do prelo?
Lembro-me de, quando tinha seis livros, os ter posto no chão, olhado para eles e achado que estavam ali livros lindíssimos que eram o princípio de uma aventura editorial muito bem encaminhada. Aqui há tempos pus esses seis livros assim e até corei: grafismo péssimo, imensas gralhas… É preciso olhar para os livros que se publica e gostar deles. E eu gostei.

Mas não foi o início de uma aventura?
Houve um certo risco. Houve pessoas próximas que me disseram: “Tens um bom ordenado como jornalista, porque é que te vais meter numa editora?” Durante anos acumulei, e parte do meu ordenado como jornalista era para a editora. O arranque foi complicado porque não tinha experiência editorial. Tinha sido professor, depois jornalista, mas decidi “vou ser editor”. Voltaria a fazer o mesmo.

O que é mais gratificante?
A relação com os autores. Sou amigo da maior parte dos autores portugueses e até dos estrangeiros que edito. Sou amigo há muitos anos de José Gil, António Barreto, Hélia Correia, Ana Teresa Pereira… E a relação com os leitores. É o mais interessante da atividade editorial.

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Gostava de editar…

Admite uma “inveja natural e legítima” em relação a autores que gostava de acolher na Relógio D’Água. Na poesia, Ruy Belo é o primeiro numa lista de desejos que inclui Alexandre O’Neill, Herberto Helder e o brasileiro Manoel de Barros. Na prosa, concretizou recentemente a ambição de editar José Cardoso Pires, mas almeja juntar-lhe António Lobo Antunes. E Afonso Cruz, da nova geração de autores.

Eu, escritor

É editor, mas não necessariamente de si próprio. Não é que Francisco Vale não escreva, porque escreve: é autor de um ensaio e dois romances e está a acabar um segundo livro de ensaio que “talvez publique daqui a algum tempo”. “Quando me sinto feliz é quando escrevo. Já sentia isso quando era jornalista”, partilha. Começa por escrever à mão, perpetuando uma relação com o papel que é geracional, mas assume: “Não podemos sacudir as sensações próprias de cada geração.”

Um homem de esquerda

Foi como estudante universitário que Francisco Vale se iniciou no ativismo político. “Não me consigo conceber a não ser como alguém que estava contra o regime, que procurava ser eficaz em termos de combate político. E isso deixa marcas.” Deixou. A da clandestinidade, nomeadamente. Com a democracia a cumprir mais anos do que a Relógio D’Água, continua um homem de esquerda assumido. Ressalvando, não obstante, que a editora está aberta a todas as correntes e até citando autores de direita e mesmo fascistas que são excelentes e publica ou gostaria de publicar, como Céline ou Ezra Pound.

Clássicos da literatura para dar e… ler

Fundada em 1982, a Relógio D’Água é uma editora independente, reconhecida pelas suas coleções de poesia e clássicos. Aos 35 anos, decide lançar 35 clássicos da literatura.

Para assinalar os 35 anos da sua fundação, a Relógio D’Água está a lançar uma coleção de 35 livros intitulada “Clássicos para Leitores de Hoje”. As obras serão publicadas ao longo de 2016 com o objetivo de reforçar a contínua atualidade destes autores. Por outro lado, são vendidas a preços mais acessíveis do que o habitual, também para promover a literatura em Portugal.

A editora é igualmente reconhecida pela sua coleção de poesia, que divulgou autores de língua portuguesa como Fernando Pessoa, Cesário Verde, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles, e ainda edições bilingues de Hölderlin, Rimbaud, Blake, Rilke, Yeats, Wordsworth, Lorca, John Ashbery, T. S. Eliot, Dylan Thomas, Marina Tsvetáeva, Akhmatova, Auden e Pablo Neruda, entre outros.

A Relógio D’Água publica ainda reconhecidos romancistas portugueses, como Vitorino Nemésio, Hélia Correia, Maria Gabriela Llansol, Rui Nunes, Ana Teresa Pereira e Gonçalo M. Tavares, entre outros. Atualmente, o catálogo da editora chega às 1500 obras, com a publicação de 60 novos títulos por ano.


17 dos 35 clássicos já foram desvendados


1. Emily Brontë: O Monte dos Vendavais
2. F. Scott Fitzgerald: O Grande Gatsby
3. Jane Austen: A Abadia de Northanger
4. Virginia Woolf: Orlando – Uma Biografia
5. Voltaire: Cândido ou o Otimismo
6. D. H. Lawrence: O Amante de Lady Chatterley
7. Montaigne: Ensaios
8. Marcel Proust: Em Busca do Tempo Perdido (sete volumes)
9. Eça de Queirós: O Primo Basílio
10. Mário de Sá-Carneiro: Céu em Fogo
11. Mário de Sá-Carneiro: A Confissão de Lúcio e Outras Histórias
12. Ivan Turguéniev: Pais e Filhos
13. Gustave Flaubert: A Educação Sentimental
14. Machado de Assis: Memórias Póstumas de Brás Cubas
15. Machado de Assis: Dom Casmurro
16. Fiódor Dostoiévski: Crime e Castigo
17. Fiódor Dostoiévski: O Jogador

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