Na FNAC com Filipa Gomes

Filipa Gomes, a cozinheira mais popular da televisão portuguesa veio à FNAC. E nós viemos com ela. O resultado foi uma conversa repleta de livros… e sabores.


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Prato do Dia
Filipa Gomes
“Acho que as histórias mais engraçadas que tenho [na FNAC] relacionam-se com o facto de agora me encontrar nas prateleiras. Para mim até é um bocadinho estranho. Às vezes passo a correr pela prateleira onde está o meu livro, meio que com vergonha.”
O que a levou a escolher a FNAC Chiado para esta conversa?

Escolhi a FNAC Chiado precisamente por causa do sítio onde estamos sentados [café da loja, junto à janela], porque adoro luz natural e tenho a ideia de que esta é uma das poucas lojas FNAC com janelas. Isso, para mim, é importante.

Tem alguma memória associada à FNAC?

Bem, a FNAC já está presente na vida dos portugueses há alguns anos…

Vinte.

Vinte. Vinte anos é imenso. Por isso já faz um bocadinho parte de nós. Acho que as histórias mais engraçadas que tenho relacionam-se com o facto de agora me encontrar nas prateleiras. Para mim até é um bocadinho estranho. Às vezes passo a correr pela prateleira onde está o meu livro, meio que com vergonha [risos].

Já a reconheceram?

Sim, sim! Fico a pensar que se se calhar as pessoas vão achar que estou aqui toda a babar-me para cima do meu livro. E a verdade é que às vezes estou. Ver um livro meu, comigo na capa, numa prateleira FNAC, ainda é uma coisa muito inusitada. Portanto às vezes passo por ele meio a correr.

O que é que as pessoas lhe dizem quando a veem na FNAC ao lado do seu livro?

Pedem-me um autógrafo, dizem-me que vão comprar, pedem o autógrafo ainda mesmo antes de comprarem. Ou então dizem-me: “Já comprei, e agora? Compro outro? É que o meu ficou em casa.” É muito giro. Principalmente a reação dos miúdos.

Como foi escrever Prato do Dia?

Na verdade, não me sinto escritora. Não foi uma escrita de me sentar a uma mesa, procurar a inspiração e de o livro me começar a correr nas veias em direção à caneta.

O livro vem de um programa que criámos, juntamente com a FOX, e que eu escrevi. Antes trabalhava em publicidade, era redatora publicitária, por isso tenho o bicho da escrita em mim e fiz questão de ser eu a guionista dos programas. O livro acaba por ser uma declinação do trabalho que fiz para Prato do Dia.

Foram mais de, não sei, 500 receitas. A dificuldade aqui foi compilar tudo num livro só…

Com “apenas” 80 receitas.

Sim. Por mim tinha posto as 500. Ou pelo menos 400 [risos].

Há material para um novo livro, portanto…

Há bastante material.

E há planos para isso?

Há muitos planos, mas não os posso contar. Podem passar por um livro, por Prato do Dia, por Cozinha com Twist, por projetos novos que as pessoas ainda não conhecem… Tenho sempre mil ideias na cabeça e muita vontade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

Há uma grande diferença entre escrever um guião e um livro?

É muito diferente porque, na verdade, escrevo o guião para mim mas também para toda uma equipa que tem de estar coordenada e saber exatamente quais são os passos a seguir. No programa tenho uma cozinha de produção e a minha cozinheira de produção tem de saber exatamente como é que eu vou fazer o meu bolo. Imaginem que é um bolo que tem mirtilos inteiros ou framboesas inteiras e demora 45 minutos no forno. Ela tem de fazer um duplicado. No bolo dela os mirtilos não podem estar esmagados, têm de estar inteiros como os meus.

E os meus guiões, pelo menos, são coisas muito descritivas, muito pormenorizadas e detalhadas. Dão muito trabalho, precisamente para que eu tenha a certeza de que a informação que tenho é a mesma que toda a minha equipa tem, para as coisas estarem coordenadas e no final o resultado saia o melhor possível.

A FNAC já está presente na vida dos portugueses há vinte anos. É imenso. Por isso já faz um bocadinho parte de nós.

Na mesa de cabeceira
de Filipa Gomes…

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Sapiens
Yuval Noah Harari

 

Homo-Deus-Historia-Breve-do-Amanha
Homo Deus
Yuval Noah Harari

 

A-Visita-do-Brutamontes

A Visita do Brutamontes
Jennifer Egan

 

Cozinha-Confidencial

Cozinha Confidencial
Anthony Bourdain
Mudando um pouco de assunto, o que costuma ler?

Ultimamente tenho lido muita literatura infantil. Tenho uma filha com 3 anos e lemos diariamente para a adormecer. Mas também gosto muito de ler romances, gosto de biografias, gosto de literatura erótica – Henry Miller, Anaïs Nin. E gosto muito de livros de culinária, sou viciada [risos]. Muitas vezes nem compro os livros de culinária pelas receitas, mas porque é um passatempo abrir o livro e estar a folhear e a deliciar-me com as fotografias. Sou apaixonada por fotografias, pela imagem, pela estética.

Algum livro a inspirou a ser cozinheira?

Todos os livros das pessoas que admiro da televisão me inspiram. E também os livros da gastronomia mais clássica. Gosto muito de Gordon Ramsay, Jamie Oliver, Nigella Lawson. Adoro o Anthony Bourdain. E também sou muito apaixonada por Cozinha Tradicional Portuguesa, da Maria de Lourdes Modesto – acho que é uma bíblia! Assim como O Livro de Pantagruel, que também é muito bom.

O que a atrai mais num livro? Estava a dizer que dá muita importância à fotografia…

Dou imensa importância à fotografia. Quando se trata de livros de gastronomia acho que a fotografia é essencial porque os olhos são a primeira coisa a comer. Sei que é um cliché, mas é muito verdade.

E nos outros? Quais costumam ser os critérios de compra?

Ultimamente não tenho muito tempo e, por isso, não tenho lido livros que não sejam por recomendação. Quanto mais escasso é o tempo, mais certeiros queremos ser. Mas quando entro numa livraria e me apetece comprar um livro, a sinopse da contracapa é muito importante. Tenho tendência a ver as novidades, mas também a ir para escritores que já conheço. Neste momento, por exemplo, estou a ler quatro livros ao mesmo tempo [risos].

O que está a ler?

Estou a ler Sapiens e Homo Deus de Yuval Noah Harari. E acho que não devia ter feito isso [risos]. Porque comecei a ler o Homo Deus, que na verdade vem no seguimento do Sapiens. Devia ter começado pelo Sapiens.

Vai sair um novo do autor: 21 Lições para o Século XXI.

Ele é um cérebro!

Num dos livros fala sobre o passado, no outro fala sobre o futuro e agora vai falar sobre o presente.

Eu estou a gostar imenso, apesar de ser uma literatura um bocadinho mais pesada. Se sei que só tenho meia hora, se calhar não é esse que vou ler.

Também estou a ler A Visita do Brutamontes da Jennifer Egan. Estou a adorar, é ótimo. A história é muito boa. Lá em casa, eu e o meu namorado [Jorge Trindade] lemos muito os livros em conjunto. O tempo não é muito, por isso aproveitamos o balanço um do outro e vamos lendo. Comprei este livro para o Jorge, ele já o leu e agora estou eu a ler.

De resto, comprei recentemente o Cozinha Confidencial, do Anthony Bourdain, que ainda não tinha lido. Estou a amar, é um livro cheio de ritmo, ele tem uma forma muito interessante e muito divertida de escrever. Comecei a ler e agora o Jorge também está a ler, por isso estou com quatro livros ao mesmo tempo.

Têm gostos parecidos, então?

Sim. Mas em algumas coisas divergimos – eu gosto de livros de culinária e ele de banda desenhada, clássica e moderna.

Gosto muito de ler romances, biografias, literatura erótica. E sou viciada em livros de culinária.

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Há algum livro que consiga dizer que é o livro da sua vida?

Não, é impossível. Com os livros acontece-me o mesmo que com os filmes: muitas vezes leio-os e esqueço-me deles. É como se conseguisse captar a sensação, a vivência que ele me provocou no período em que o estava a ler, mas depois tenho muita dificuldade em lembrar-me de autores. Lembro-me de passagens, de imagens que vou criando na minha cabeça – e às vezes nem sei se são imagens do livro ou da minha vida pessoal. Mas claro, há livros que me marcaram. Quando era miúda, lembro-me de ler A Fada Oriana, Os Maias– que, infelizmente, acho que agora foi retirado do plano escolar…

Não foi. Embora tenha sido essa a notícia, o livro já não era obrigatório.

Se fosse retirado ficaria com muita pena porque acho que é um livro mesmo bonito e interessante. São os dois muito diferentes, mas à sua maneira os dois muito naïve. Devem ter sido dos primeiros livros que me ficaram na memória.

Leu-os na escola?

Sim. Também me lembro de ler Trainspotting, que adorei. E Ensaio sobre a Cegueira, que ainda por cima li na praia. Acho que estava completamente deslocada porque é tudo menos um livro de praia [risos].

Lembro-me de ter ficado muito espantada com a forma como Saramago escrevia, que era muito solta. Nunca tinha lido nada assim. Não tem pontuação. E depois é um livro que aflige. Mas é muito bom. Consegue passar sensações muito fortes.

Chegou a ver o filme?

Nunca vi. Muitas vezes, se leio primeiro o livro, tenho medo de ver o filme para não me desiludir. Os livros estão à mercê da nossa imaginação, não é? E a nossa imaginação é uma coisa tão aberta que muitas vezes, quando vemos o filme, sentimos que ficou apertadinho na visão do realizador ou do argumentista. Às vezes não corresponde à nossa realidade. Outras vezes é muito bom. Por exemplo, o filme Trainspotting é ótimo.

Nos livros de culinária não há esse risco.

Também há. O meu livro é um programa e, na verdade, as pessoas que têm o livro em casa podem sentir falta de qualquer coisa.

Mas é curioso que, agora, com a culinária a passar cada vez mais para o meio digital e com tantos programas de culinária na televisão, continuam a sair livros.

É verdade. Houve agora a Feira do Livro, na qual ganhei o prémio de livro de gastronomia mais vendido do ano de 2017. Este prémio foi criado, percebi, porque o crescimento tem sido exponencial. Passámos de lançar 250 livros de culinária num ano para 500 no ano a seguir. É exponencial e parece que o espaço na prateleira para os livros de culinária continua a aumentar. A minha dúvida é: as pessoas vão fartar-se? Esta é uma questão para a qual não tenho resposta. Mas continua a ser o meu trabalho. Portanto, vou continuar a fazer receitas e a editar livros, se possível.

As pessoas vão sempre querer comer, não é?

Pelo menos três vezes por dia. Portanto…

É embaixadora do programa “Somos o Que Comemos”. Quer deixar-nos algumas dicas sobre como as pessoas podem ter uma alimentação mais saudável?

O programa “Somos o Que Comemos” está associado à Parques Sintra. Tivemos inclusive uma tertúlia muito interessante com a Maria Manuel Valagão e o Pedro Graça e falámos sobre a dieta mediterrânica e a importância de se comer bem e de estar ligado à terra. Não necessariamente de termos todos uma horta em casa, porque isso é impossível, mas de estarmos mais atentos à sazonalidade das coisas, àquilo que é nosso. A não consumirmos tomate que vem do outro lado do mundo e que gastou imenso combustível e deixou uma pegada enorme só porque sim.

Eu acho que a alimentação saudável passa muito por isso: por comermos local, apoiarmos a produção local e não exagerarmos, principalmente nos produtos processados. É muito diferente uma pessoa que tem excesso de peso porque anda a comer diariamente croissants, bolas de Berlim, bolachas e produtos processados empacotados e uma pessoa que tem excesso de peso e come coisas de verdade, os produtos que não têm rótulo. Uma maçã é uma maçã, não tem mais ingredientes do que isso.

A Filipa gosta de aproveitar os alimentos que são próprios das estações.

Sim. A sazonalidade da televisão nem sempre há de corresponder à realidade, mas gosto de usar produtos frescos. Essa é uma das minhas principais dicas: usar ingredientes de verdade.

As pessoas vão fartar-se de livros de culinária? É uma questão para a qual não tenho resposta.

As escolhas para a filha

Historias-de-Adormecer-Para-Raparigas-Rebeldes

Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes
Elena Favilli e Francesca Cavallo

 

Eu-Quero-a-Minha-Cabeca

Eu Quero a Minha Cabeça!
António Jorge Gonçalves

 

O-Senhor-Tigre-Torna-se-Selvagem

O Senhor Tigre Torna-se Selvagem
Peter Brown

 

A-Ilha-do-Avo

A Ilha do Avô
Benji Davies

 

mamã

Mamã?
Chris Haughton
Se fosse oferecer um livro à sua filha [Julieta], qual lhe chamava mais à atenção?

Gostava de lhe dar o Histórias de Adormecer Para Raparigas Rebeldes 2. Ela já tem o primeiro. Espero que seja uma rapariga “inteira”.

Já lho começou a ler?

Ainda não. Agora estou a ler um livro muito giro da Pato Lógico, que se chama Eu Quero a Minha Cabeça! É o livro de uma peça de teatro que fomos ver há duas semanas. É tão giro! É a história de uma menina que, sempre que o pai a chama, diz “não!”. E diz isso tantas vezes que perde a cabeça. A única forma de a encontrar é se usar a palavra mágica: “sim”.

A sua filha também é uma rapariga rebelde?

A Julieta é como uma adolescente num corpo de 3 anos. O Senhor Tigre Torna-se Selvagem foi o último livro que lhe comprei e ela adora. Tem umas ilustrações ótimas. Fala sobre esta coisa de termos de ser todos iguais e andarmos todos engravatados e fechados no cinzento. É um tigre que decide revoltar-se e fazer as coisas de outra maneira, diferente dos seus amigos animais. Depois percebe que há dias em que se calhar até tem vontade de andar engravatado mas outros que não. Pode ser livre.

Quando escolhemos livros para a Julieta, tentamos sempre que sejam livros que, de alguma forma, passem as mensagens nas quais acreditamos. Acho que a Orfeu Negro e a Pato Lógico têm livros que, além de serem muito bonitos e terem umas ilustrações maravilhosas, têm essas mensagens.

A Ilha do Avô também é giro. É sobre um menino que viaja com o avô até uma ilha encantada, mas o avô acaba por ficar lá e o menino tem de voltar. É uma forma de explicarmos às crianças que às vezes as pessoas desaparecem e que não vão para um sítio pior, às vezes ficam num sítio muito bom.

Este senhor, o Chris Haugton, também tem um primeiro livro que se chama Mamã?, sobre um mocho que cai do ninho e não sabe da mamã. E há uma série de amiguinhos dele que estão na floresta e o ajudam a encontrá-la.

Acho que a Julieta também ia gostar de Boa Noite a Todos. As ilustrações são muito boas.

Normalmente lê-lhe um livro por noite?

Sim, um por noite. Por enquanto ela ainda gosta de histórias simples, que tenham aí umas 20 páginas. Mas já gosta de nos ler os livros a nós. Decora as falas.

A Filipa gosta de literatura fantástica?

Não costumo ler. Acho que o último livro de fantasia que li foi o Harry Potter. Há bastantes anos.

Na literatura lusófona, há algo que lhe chame a atenção?

Tenho gostado muito de José Luís Peixoto. Valter Hugo Mãe também tem coisas muito porreiras. E o Afonso Cruz, que também é ilustrador e músico. Acho que o último que li dele foi Jesus Cristo Bebia Cerveja. Tem uma maneira de escrever muito interessante.

Temos aqui uma reedição de Henry Miller.

Sexus, sim. Ele tem outro que é ainda mais giro, mas esta é uma boa aposta. E é um livro porreiro para uma pessoa ler no verão. Fica mais levezinha.

Eis a sua parte favorita da FNAC: a secção de gastronomia.

Vou levar todos [risos].

Quais são os que lhe chamam mais a atenção?

O Dicionário dos Sabores é muito bom para quem gosta de criar receitas novas porque faz ligações dos sabores, explica que ingredientes ficam bem com outros, faz cruzamentos. Também O Livro de Pantagruel. E há um livro muito interessante da Maria Manuel Valagão, Algarve Mediterrânico: Tradição, Produtos e Cozinhas, que acho que tem semelhanças com Cozinha Tradicional Portuguesa porque vai ter com as pessoas e procura as suas histórias e ela transcreve ipsis verbis aquilo que elas dizem e o linguajar das pessoas do Sul. Isso é muito interessante. Além disso, tem receitas que são muito boas.

Também tenho gostado muito de cozinha vegetariana. Gosto muito de Vegetariano Todos os Dias. Recentemente também comprei Vegan para Todos. Ah, e a Gabriela Oliveira também tem receitas muito interessantes: Cozinha Vegetariana à Portuguesa tem cozinha vegetariana para dias de festa, crianças. Gosto muito das receitas dela.

QUE LIVRO OFERECERIA A…

Jamie Oliver
Gordon Ramsay
Nigella Lawson

O Livro de Pantagruel, Cozinha Tradicional Portuguesa e Algarve Mediterrânico porque são portugueses e era bom que os estrangeiros não achassem que só fazemos chiken piri piri sardines.

Marcelo Rebelo de Sousa

Não me atrevia, esperava que fosse ele a oferecer-me e a aconselhar-me a mim.

Cristiano Ronaldo

Provavelmente um daqueles livros da Taschen com pin-ups. Acho que ele sabe apreciar umas curvas.

Donald Trump

Um manual de pesca, porque talvez ele se começasse a dedicar a outra coisa qualquer. A ir para o rio pescar umas trutas…

Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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