Filipa Fonseca Silva: “É muito difícil ser escritora em Portugal”

Amanhece na Cidade é o mais recente livro de Filipa Fonseca Silva. E é narrado por um táxi. Em conversa com a revista Estante, a blogger, copywriter e romancista levanta o véu sobre esta curiosa obra e fala sobre o preconceito de que são alvo as mulheres escritoras em Portugal.

 

Amanhece na Cidade
Filipa Fonseca Silva
Pelo asfalto lisboeta circula um táxi, conduzido por Manuel, que conta as histórias de quem passa por ele e que, entre outras, incluem uma stripper e um sem-abrigo. Manuel vive magoado com a vida, mas à medida que o táxi o leva a desbravar novos caminhos, descobre novos pontos de vista.

Amanhece na Cidade, o seu novo livro, tem como narrador um táxi que vai contando as histórias de várias pessoas que se cruzam no seu caminho. Porquê esta escolha peculiar?

Foi uma tentativa de criar algo diferente. É muito raro termos histórias narradas por objetos. A perspetiva de um táxi, o distanciamento que tem por não ser humano, dá-lhe uma maneira diferente de narrar a história, talvez um pouco mais imparcial do que qualquer outro narrador. Embora este táxi seja muito opinativo e demonstre também um lado humano, acaba por ter uma narração mais emocional. Foi o desafio a que me propus, porque para escrever é interessante desbravar terrenos que nunca experimentámos.

Como surgiu a ideia para este livro?

A ideia surgiu numa viagem de táxi onde eu encontrei um taxista que me inspirou para a criação do Manuel – que é o taxista desta história. Foi um taxista que, talvez por necessidade, veio o caminho todo a contar-me que a mulher o traiu e deixou. Ele chorava e eu já não sabia o que lhe havia de dizer. Quando saí do táxi pensei: tenho de escrever sobre a história deste taxista e o que lhe aconteceu depois. Foi por aí que tudo começou. Só depois decidi que o narrador não seria um taxista, mas um táxi.

O que foi mais difícil?

Foi precisamente conseguir a coerência narrativa do táxi. Eu nunca me podia deixar levar pelo entusiasmo ao ponto de me esquecer que o táxi não é uma pessoa e, portanto, tinha de ter uma voz diferente de um ser humano. Se é um objeto que não sai da estrada, não pode ir para dentro do quarto ouvir a conversa do Manuel com a mulher, não pode ir para dentro do restaurante ouvir a conversa do Manuel com os amigos. Por isso, em todas essas histórias paralelas que vou contando através do táxi, tentei ter sempre o cuidado de pensar: “Esta conversa não pode ser tida no quarto, senão o táxi não tem como ouvir. O melhor é levá-la para a porta de casa.”


Para escrever, é interessante desbravar terrenos que nunca experimentámos.


Este táxi tenta adivinhar a vida de quem se cruza com ele, apesar de dizer que não é adivinho, nem um ser omnipresente. Enquanto escritora, o seu processo de trabalho também funciona assim?

Acho que não. Além de ter uma grande imaginação, um escritor tem de ver as coisas de uma forma que não é a sua e pôr-se na pele dos personagens. Acaba por ser um processo parecido com o de um ator, porque tem de perceber quem é a personagem, de onde ela vem, os gestos, as expressões. Um escritor não pode ter preconceitos em colocar-se quer no papel de prostituta, quer de sem-abrigo, de taxista, de professor universitário ou de cientista.

No meu caso, o que fiz foi imaginar: se eu fosse o Manuel e a minha mulher me tivesse deixado, o que diria? O que faria? Para mim é sempre este o ponto de partida para a criação da personagem. Não sei se isso é ser omnipresente, provavelmente é ter a capacidade de analisar as pessoas e criar personagens que obviamente acabam por ser retalhos de pessoas que vamos conhecendo ao longo da vida. O personagem Manuel acaba por ser inspirado no tal taxista que me levou um dia naquela viagem, mas também em outras centenas de taxistas que me levaram noutras viagens. Mais do que omnipresente, um escritor deve ser um observador.

As outras personagens são pessoas comuns com as quais nos podemos cruzar no dia a dia. O que podem trazer de novo ao leitor?

Estas personagens não são só pessoas típicas de Lisboa ou de uma cidade grande, onde há sempre sem-abrigo, prostituição ou a vizinha que está à janela que sabe tudo sobre a vida de toda a gente. Tentei usar estas personagens para falar sobre alguns preconceitos sociais, nomeadamente que todas as strippers são prostitutas; que todos os sem-abrigo são bêbados ou drogados ou simplesmente pessoas que não querem fazer nada; que todos os refugiados são inúteis que vêm para aqui ganhar subsídios e ter casas e não querem trabalhar.

Há inúmeros temas que me são queridos no sentido em que quero falar deles porque sei que são preconceitos que existem. Quis que este livro trouxesse um bocadinho do que é Lisboa nesta segunda década do século XXI. Talvez a crise dos refugiados, que abordo no livro através de uma das personagens, seja um tema que daqui a dez anos já não exista. Mas, ainda assim, se daqui a dez anos alguém ler este livro, queria que soubesse do impacto que esta crise dos refugiados teve.

De todas as vidas que relata neste livro, qual é aquela que mais significado tem para si?

Gosto muito do Manuel, porque acho que é o típico lisboeta: aquele homem que diz o que pensa, que fala alto e que é do Benfica [risos]. É um personagem que os leitores me dizem que adoram e gostavam de saber o que aconteceu com ele.

Também gosto muito da personagem Idalina, que é a “cusca” que está sempre à janela e sabe da vida de toda a gente. Porque, seja em que cidade for, há sempre uma Idalina num prédio.

Mas as personagens são tão diferentes que acaba por ser difícil dizer aquela que tem mais significado para mim.


Mais do que omnipresente, um escritor deve ser um observador.


Em 2014, foi notícia ao tornar-se a primeira escritora portuguesa a entrar no top 100 da Amazon com o livro Os 30 – Nada é Como Sonhámos. Isto abriu-lhe mais portas? Deu-lhe mais oportunidades em termos profissionais?

Abriu-me muitas portas, nomeadamente a porta da Bertrand Editora, que é a minha editora atual. Mas é importante dizer que o livro chegou ao top 100 da Amazon inglesa. O livro já tinha sido publicado em Portugal e passou despercebido – como infelizmente acontece com muitos autores portugueses, sobretudo nas primeiras publicações. Então decidi mandar traduzi-lo e publicá-lo em self publish na Amazon. Foi essa versão que chegou ao top 100.

Foi uma grande realização, porque mostra que lá fora estão abertos à literatura estrangeira e deu-me notoriedade perante os leitores. Se esse primeiro livro tinha passado despercebido, com esta notícia acabou por conquistar novos leitores, que é um dos principais objetivos de um escritor.

É difícil ser uma mulher escritora em Portugal?

É mesmo muito difícil ser mulher escritora em Portugal, existe muito preconceito. Aliás, como se sabe, há em todas as áreas. Mas na escrita é particularmente difícil.

As mulheres estão conotadas com literatura cor-de-rosa, ou agora também com as modas dos romances eróticos, o que acaba por ser um preconceito A J. K. Rowling, por exemplo, quando escreveu o seu primeiro romance para adultos, fê-lo com um pseudónimo masculino, como muitas mulheres ao longo da história. Porque, de facto, essa barreira existe. Aliás, não tenho qualquer dúvida de que, se na capa do meu livro estivesse “Filipe Fonseca Silva”, o livro venderia mais.

A experiência que tem como publicitária ajuda-a enquanto escritora?

A publicidade é muito diferente, porque é uma coisa imediata e descartável apesar de todo o trabalho criativo envolvido. É o mesmo que estar a comparar um hambúrguer do McDonald’s com uma refeição num restaurante de um chef.

Quais são as suas principais referências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Como qualquer escritor, tento ter a minha própria voz. No entanto, as referências podem não serem evidentes mas estão lá. Leio livros compulsivamente desde os 8 anos, portanto dificilmente não as teria. Ainda assim, tento que não se note.

Sinto menos pudor em utilizar referências musicais e cinematográficas, por exemplo, porque não estão tão associadas ao vício da escrita. Há quem diga que os meus livros são muito parecidos com o estilo de Woody Allen, porque há sempre uma personagem meio louca. Mas, apesar disso, tento sempre ter o meu ponto de vista e originalidade.


Não tenho qualquer dúvida de que, se na capa do meu livro estivesse “Filipe Fonseca Silva”, o livro venderia mais.


O que é, para si, um bom livro?

É aquele que me prende desde a primeira página. Já tentei ler alguns dos grandes clássicos da literatura e ainda não consegui exatamente por isso. Não tenho dúvidas de que serão excelentes, mas para mim não são bons livros enquanto não conseguir passar dos primeiros capítulos.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

O último livro que li é superinteressante. Chama-se Lodolândia! e comprei-o numa feira do livro. É sobre uma família que tem um parque com jacarés na Florida. De repente, a mãe, que é a estrela da companhia, morre. A situação começa a descambar porque os turistas diminuem. O livro conta a vida daquela família – composta por quatro irmãos e um pai meio louco, que acha que o show deve continuar – que vive distante da cidade e da civilização. É muito interessante e divertido.

Neste momento estou a ler Valter Hugo Mãe, porque é um autor a quem procuro sempre estar atenta. Gosto muito do trabalho dele.

Como é a sua rotina de escrita?

Infelizmente não tenho uma rotina onde posso ser escritora o tempo inteiro. Tenho outra atividade e, portanto, a minha rotina é escrever quando tenho tempo à noite. Mas, se tivesse, seria acordar de manhã, deixar os miúdos na escola, beber um café e então começar a escrever, porque sou mais produtiva da parte da manhã. Ir ao ginásio à hora de almoço e depois escrever mais um bocadinho até os meus filhos chegarem, porque aí acaba-se o sossego e não há escrita possível.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Sempre no computador. Talvez no tempo da faculdade, quando se tiravam notas das aulas teóricas, conseguisse escrever muito rápido. Hoje em dia já não consigo. Quando o faço e depois leio, não percebo o que escrevi. No entanto, faço sempre um esquema à mão, uma espécie de guião das personagens e temas, que acabo por usar até acabar o livro.


No final dos meus livros, coloco sempre o meu e-mail para os leitores me escreverem. Gosto sinceramente de saber o que acharam, porque no próximo livro pode ser útil.


Qual é a pior parte de ser escritora?

Editar é muito difícil. Uma pessoa acaba de escrever, lê, depois tem de ler outra vez, mas com outra perspetiva, para ver onde se pode melhorar. À quinta leitura começa a ser um bocado aborrecido. Por outro lado, é na edição que percebemos que há personagens que têm de sair, porque os editores aconselham e, como não escrevo apenas para mim, tenho de estar atenta aos conselhos deles.

É importante saber ouvir e gosto muito que me deem esse feedback, no sentido de perceber o que posso melhorar no próximo livro, porque há sempre maneiras de melhorar. Daí que, no final dos meus livros, coloque sempre o meu e-mail para os leitores me escreverem. Gosto sinceramente de saber o que acharam, porque no próximo livro pode ser útil.

Que conselhos dá a aspirantes a escritores?

O meu conselho é que leiam e escrevam muito. Há uma regra que diz que uma pessoa só é boa numa coisa depois de 10 mil horas a praticar. De facto, escrever é assim, tal como qualquer outra profissão. Se o Cristiano Ronaldo não treinasse todos os dias, se calhar não era o profissional que é hoje e, por mais genial que fosse, não tinha chegado onde chegou. Para mim um escritor não pode nunca parar de escrever.

O meu segundo conselho é saber ouvir. Às vezes é difícil ser criticada, porque os artistas acham sempre que os outros é que não estão a perceber. Mas se não estão a perceber a nossa ideia, é por alguma razão. É importante saber ouvir, ter sentido de autocrítica e não levar a peito as críticas, porque só assim podem ser melhores.

Já tem ideias para o próximo livro?

Tenho várias ideias, não tenho é tempo [risos]. Já tenho um livro que vai ser feito, mas não é romance, é um livro mais cómico. Criei uma personagem, fiz as ilustrações e agora estou na fase de criar os textos para as acompanharem. Além deste, tenho também outro primeiro rascunho que já tinha feito, mas, como não fiquei satisfeita, pus na gaveta com o objetivo de o retomar um dia.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Sou muito má com títulos, é sempre a última coisa que fica fechada nos meus livros. Quando começo a escrever, dou um nome qualquer ao livro – o Amanhece na Cidade era Táxi. Quando finalmente o editor me pergunta como se vai chamar o livro, fico completamente sem resposta. Por isso não consigo responder a esta pergunta [risos].


Por: Ana Catarina Pinto
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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