Ficção francesa: estes gauleses são loucos!

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Com as eleições presidenciais francesas ao virar da esquina, revisitamos autores desta nacionalidade que nos ajudam a compreender a sociedade atual. Há de tudo… até uma tragicomédia sobre Marine Le Pen.

Muitos dizem que França está à beira do colapso. É compreensível, se notarmos que à crise política e económica têm-se juntado, nos últimos anos, vários atos de terrorismo e conflitos sociais.

Esta é, por isso, uma altura crucial para o futuro da nação, que agora se encontra dividida devido às eleições presidenciais: de um lado os apoiantes de Marine Le Pen (extrema-direita) e do outro os de Emmanuel Macron (centro). Isto embora François Fillon (direita) e Jean-Luc Mélenchon (esquerda) ainda estejam na corrida.

São tempos turbulentos, sim, até difíceis de compreender, mas a literatura francesa pode ser uma grande ajuda na reflexão sobre a realidade do país. Vamos a isso?


UM OLHAR POLÍTICO


Indignai-vos

Indignai-vos!

Stéphane Hessel

Sobreviveu aos campos de concentração nazi. Foi combatente da resistência francesa. Foi, ainda, um dos responsáveis pela redação da Declaração Universal dos Direitos do Homem. E, em 2011, aos 93 anos, Stéphane Hessel publicou este manifesto para alertar o mundo acerca dos perigos dos nacionalismos. O seu país é, aliás, apontado como exemplo de sociedade manchada pelo fosso económico-social, pelas violações dos direitos humanos e pelas injustiças. Um retrato real de França e do mundo, com prefácio de Mário Soares.

Submissão

Submissão

Michel Houellebecq

Olhemos para o futuro. Mais concretamente para 2022. Michel Houellebecq projeta uma sociedade francesa que, tal como hoje, está dividida e à beira de eleições presidenciais. Avizinha-se um duelo entre a Fraternidade Muçulmana e a Frente Nacional. As ruas enchem-se de multidões em protesto e demonstrações de violência. Enquanto isso, o protagonista do romance, François, assiste ao desmoronamento do país e incentiva à reflexão sobre questões fraturantes.

Le Pen

La Face Crashée de Marine Le Pen

Riss, Richard Malka e Saïd Mahrane

Quem é Marine Le Pen? Qual a verdadeira história da líder do partido francês de extrema-direita, Frente Nacional? É a isso que o diretor do jornal satírico Charlie Hebdo, Riss, o guionista Richard Malka e o jornalista Saïd Mahrane tentam responder através desta história verídica contada em forma de banda desenhada… com um tom humorístico. Os segredos mais obscuros da forte candidata à presidência de França, assim como as suas declarações e amizades mais controversas, são desvendadas nesta obra. É, certamente, uma leitura recomendada para quem quer compreender a ascensão de Le Pen.


UMA SOCIEDADE DIVIDIDA


Astérix

Astérix – O Grande Fosso

René Goscinny e Albert Uderzo

Não há como dissociar França de uma das suas bandas desenhadas mais icónicas. E a verdade é que, apesar de ter sido publicado há mais de 35 anos, este volume da série Astérix já retratava a tendência desta comunidade para a instabilidade e divisão social. O cenário é uma pequena aldeia gaulesa, que é dividida devido à disputa entre Giradix e Segregacionix pelo lugar soberano. Um dos autores, Alberto Uderzo, explicou que a obra é uma referência ao contexto político da altura em que a escreveu – anos 80 –, ou seja, ao Muro de Berlim. Houve, no entanto, quem olhasse para a história como um retrato da França da altura, dividida em dois durante a campanha eleitoral que terminou com a vitória de François Miterrand.

Não terão o meu ódio

Não Terão o Meu Ódio

Antoine Leiris

Não há fosso mais evidente nas sociedades contemporâneas do que aquele que se verifica entre o Ocidente e o Islão. E França tem sido, nos últimos anos, uma das principais vítimas desta relação conflituosa. Não Terão o Meu Ódio é um relato na primeira pessoa de um homem que, nos atentados terroristas de Paris, a 13 de novembro de 2015, perdeu a sua mulher e mãe do seu filho, Hélène. É também um apelo de união contra o ódio e a favor da paz.


CRÍTICA SOCIAL


Miseráveis

Os Miseráveis

Victor Hugo

Apesar de ter sido publicada no século XIX, a mais emblemática obra de Victor Hugo não deixa de ser um marco no que toca à análise social. Os costumes franceses, os conflitos entre nações – nomeadamente, a batalha de Waterloo –, a discrepância entre ricos e pobres, e as injustiças de todo o tipo acompanham este clássico que já foi adaptado a televisão, cinema e teatro. Embora em contextos diferentes, os problemas levantados por Victor Hugo na altura são também alguns dos que se fazem sentir na França moderna.

 

Raça e História

Raça e História

Claude Lévi-Strauss

Um dos problemas mais graves da sociedade francesa atual já era motivo de reflexão de Claude Lévi-Strauss em 1952, ano em que publicou Raça e História por encomenda da UNESCO. A ideia do autor era simples: denunciar todas as formas de racismo que, há tão pouco tempo, haviam feito espoletar a Segunda Guerra Mundial. Lévi-Strauss defendia que uma sociedade em crescimento era aquela que abraçava a diversidade cultural e agia no sentido da convergência de todos os interesses. Ora este é um ponto que não podia estar mais na ordem do dia, já que a hierarquização de raças ainda assola, hoje em dia, o território francês. Marine Le Pen é a candidata presidencial que mais fortemente se tem pronunciado em relação a este assunto, tendo até anunciado a sua intenção de fechar as fronteiras do país, para evitar a entrada de imigrantes, caso seja eleita. Uma posição que vai contra a de Claude Lévi-Strauss.


Por: Carolina Morais

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