Falam, falam, falam… e o Ricardo Araújo Pereira escreve

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Reaccionário com Dois Cês é o novo livro de Ricardo Araújo Pereira. Ideal para quem se delicia com as “rabugices” do autor sobre o nosso país e não só.

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Ricardo Araújo Pereira gosta de rabujar. É tão simples quanto isto. Quem não se lembra, ainda do tempo dos Gato Fedorento, do “homem a quem parece que aconteceu não sei o quê”, uma das suas personagens mais marcantes? Parece que ainda o conseguimos ouvir: “Quando eu vejo que há aí palhaços, pá, que falam, falam, falam, falam, falam, falam, pá, e eu não os vejo a fazer nada, pá, fico chateado, com certeza que fico chateado, pá!”

E lembras-te de quando, uns anos mais tarde, na série Lopes da Silva, Ricardo Araújo Pereira – RAP, para simplificarmos – entrou na pele de Basílio Lopes da Silva, o típico personagem de boina, bigode e sotaque da Beira, para se indignar com o facto de a apanha da uva, ao contrário da apanha da maçã ou da laranja, ter uma designação específica – vindimas? “Mas o que é isto?!”, reclamava ele, mostrando-se depois escandalizado com os cowboys – que “no fundo são pastores de vacas!” – ou com o facto de não existirem chineses carecas.

Podes estar a questionar-te: “Mas porquê este regresso ao passado?” Porque Ricardo Araújo Pereira está de volta para se queixar de mais uma série de coisas. Aliás, na capa do seu novo livro, Reaccionário com Dois Cês, que compila crónicas publicadas na revista Visão entre 2012 e 2017, RAP faz questão de frisar que o leitor está prestes a deparar-se com mais de 250 páginas de “rabugices sobre os novos puritanos e outros agelastas”.


Quero com isto dizer que o humor não serve para nada? Sim. É isso mesmo que quero dizer. Uma vassoura, um automóvel, um partido político, têm serventia. O humor faz parte daquele grupo de coisas muito importantes que não servem para nada. Como o amor, por exemplo.


Rabugices sobre o país e as redes sociais

Fazendo jus ao título do livro, o autor insiste, logo nas primeiras páginas, em refilar com o Novo Acordo Ortográfico. “Quando eu era pequeno, setores era o nome que se dava aos professores. Hoje, setores é a versão actualizada da palavra sectores”, constata. Mais à frente, volta a “rabujar”, como o próprio diz, sobre o assunto: “O leitor também rabujaria se um acordo internacional o obrigasse a abraçar de outra forma, ou a beijar de modo diferente.”

Encontramos ainda, no início da obra, desabafos sobre um verão com pouco sol e água fria, uma seleção nacional que agora ganha campeonatos europeus, uma imprensa portuguesa que venera aquilo que se diz nas redes sociais, e muito mais.

Aliás, as redes sociais merecem grande destaque neste Reaccionário com Dois Cês. Ricardo Araújo Pereira mostra-se especialmente resmungão quando o assunto são selfies – “o equivalente moderno da PIDE”, defende, já que “também persegue, tortura e mata” –, ameaças de morte on-line – o autor chegou a testemunhar uma dessas cenas provocada um robô de cozinha –, ou os famosos botões de reação do Facebook – RAP defende que deviam existir botões chamados “Considero Apenas Razoável” ou “Abomino”, e ainda a possibilidade de não gostar de um “Gosto” ou de gostar de um “Não Gosto”.


Pessoalmente, gosto da minha liberdade de expressão sem mas. É liberdade de expressão sem mas, e café sem açúcar. Realmente, não fica tão docinho, mas não estraga o verdadeiro sabor.


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Outras tantas rabugices

Sem querermos revelar demasiado, podemos assegurar que Ricardo Araújo Pereira foi cuidadoso ao ponto de oferecer indignações para todos os gostos – ou não estivesse o livro dividido em quatro grandes partes: “Comente o seguinte país”, “Admirável Facebook novo”, “Então mas o que é isto?” e “Assim como nós não perdoamos a quem nos tenha ofendido”.

Há crónicas com fartura sobre ministros e ex-ministros – José Sócrates não falta no mix, pois claro –, humor e humoristas, modas linguísticas – consegues imaginar Ricardo Araújo Pereira a escrever palavras como “chaval”, “beca” ou “tótil”? –, liberdade de expressão e até Donald Trump e Marine Le Pen.

Como se isto não bastasse para aguçar a curiosidade, revelamos que o livro sucessor de A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar – editado em 2016 – termina com uma autoentrevista. Ricardo entrevista Ricardo. Isso mesmo.

Parece-nos ser uma boa altura para dizermos: “O que tu queres sei eu!” E o que tu queres, naturalmente, é ler o novo livro de Ricardo Araújo Pereira.

(Ah, e se algum dia o autor passar por este artigo, pedimos desde já desculpa pelo desconforto causado pelo uso do Novo Acordo Ortográfico.)


Por: Carolina Morais
Fotografia: Estelle Valente/Teatro São Luiz

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