Fahrenheit 451: a antevisão de um mundo destruído pela televisão

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Na mais recente edição da revista BANG!, distribuída nas lojas FNAC, Jaime Nogueira Pinto escreve sobre a distopia Fahrenheit 451.

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Jaime Nogueira Pinto

 

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Fahrenheit 451 na TV
Mais de meio século depois da adaptação de François Truffaut, a HBO está a produzir uma nova versão de Fahrenheit 451, dirigida por Rasmin Bahrani. Desta vez, Montag é encarnado pelo afro-americano Michael B. Jordan, Clarice é a franco-argelina Sofia Boutella, Mildred é Laura Harris e Beatty é Michael Shannon.
Sabias que…
Ray Bradbury inspirou inúmeras adaptações e guiões, desde It Came from Outer Space (1953) a The Halloween Tree (1993) e a Sound of Thunder (2005). Escreveu guiões de filmes e de séries de televisão.

A Sexta Coluna, de Robert Heilein, foi o primeiro livro de ficção científica que li. Fiquei fascinado com a trama: era uma invasão e ocupação dos Estados Unidos por uns tais “Panasiáticos” (havia uma história em quadradinhos do Blake e Mortimer, de E. P. Jacobs, O Segredo do Espadão, que tratava do mesmo tema). Depois, a resistência norte-americana acabava por vencer os ocupantes, recorrendo a uma organização político-religiosa originalíssima. O livro era de 1941 e a tradução era o n.º 20 da colecção Argonauta, que António Souza Pinto, da Livros do Brasil, começou a lançar em 1953. Livros em formato pequeno mas de grande qualidade, com capistas como Cândido Costa Pinto e Lima de Freitas.

Graças ao pai de um amigo, que tinha toda a colecção e ma foi emprestando por ordem de saída, li os volumes todos até então publicados. Depois, tornei-me um fidelíssimo comprador e leitor da Argonauta, onde fui descobrindo os mundos de Isaac Asimov, A. E. Van Vogt, Clifford D. Simak, Brian Aldiss, Ray Bradbury.

Li o Fahrenheit 451 – o n.º 33 – depois de ter lido O Mundo Marciano (tradução das Martian Chronicles) e O Homem Ilustrado, duas colectâneas de contos de Bradbury. Devo-o ter lido no Verão de 1958, dois anos depois de ter saído em Portugal. Nesse tempo, as minhas leituras tinham passado da colecção Salgari, com Sandokan, o Tigre da Malásia, para a colecção De Capa e Espada das Edições Romano Torres, onde me ia familiarizando com Ponson du Terrail (Os Quatro Cavaleiros da Noite, Um Trono por Amor, O Pagem do Rei, As Luvas Envenenadas) e com Paul Féval, criador do Lagardère. Também já tinha lido, nas mesmas edições Romano Torres, o Walter Scott em português.

Fahrenheit 451 era já um romance, uma coisa mais séria, uma história completa; a história de uma sociedade futura onde os livros tinham sido banidos e onde os bombeiros já não apagavam fogos – as casas eram de materiais não inflamáveis –, só queimavam livros. Fahrenheit 451 (233o Celsius) era a temperatura a que ardiam os livros.

Para viciados na leitura, que continuam a gostar de ler e de ter livros – livros de todos os géneros, das novidades aos clássicos, livros com folhas, letras impressas, capas, encadernações, edições modernas e antigas (tenho algumas primeiras edições do Camilo Castelo Branco, compradas no Brasil) – esta destruição dos livros é equivalente a um apocalipse.

Quando saiu nos Estados Unidos, em 1953, Fahrenheit 451 foi lido como um manifesto contra a censura, como um panfleto contra todas as inquisições. Estaline tinha morrido nesse ano, a memória de Hitler ainda estava bem viva e o macartismo tomava a América de assalto.

Hoje percebemos melhor o seu significado mais fundo, ou percebemos o livro à distância, de maneira diferente, e talvez mais interessante civilizacionalmente. Até porque é na nossa distância que as sombras de Fahrenheit 451 parecem incidir com maior crueza, como se vivêssemos agora o futuro adivinhado no livro. O próprio Bradbury insistia que o livro não era “uma resposta ao senador Joseph McCarthy” nem era sobre a “censura estatal”, mas sobre o modo como a televisão estava a destruir “o nosso interesse pela leitura e pela literatura” e a “transformar as pessoas em imbecis” (“It is about people being turned into morons by TV”).


Para leres o artigo completo, procura a nova revista BANG! numa loja FNAC.


Por: Jaime Nogueira Pinto
Nota: O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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