Eternamente Tom Sawyer

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Por: Tiago Matos
Ilustrações: Richard Câmara

Mark Twain transformou em ficção as memórias de infância, dando corpo a um dos mais populares personagens de sempre. E não é que já passaram 140 anos desde que o mundo conheceu Tom Sawyer?

O objetivo é assumido no prefácio: “Embora o meu livro se destine principalmente ao entretenimento de rapazes e raparigas, espero que lá por isso não seja desdenhado por adultos porque a minha intenção, ao escrevê-lo, foi em parte tentar recordar aos adultos de uma forma agradável aquilo que eles próprios foram em tempos, aquilo que sentiam, pensavam e de que falavam, e algumas das exóticas aventuras em que porventura se tenham metido.” Mark Twain define à partida As Aventuras de Tom Sawyer como um simples romance de entretenimento e nostalgia, cujo único compromisso é o de transpor a verdade através da ficção. Afastadas as pretensões literárias, convida o leitor a conhecer sem preconceitos a história de um rapazinho traquina que sonha ser pirata para impressionar os amigos de uma pequena aldeia dos Estados Unidos numa época em que as linchagens públicas e a escravatura são ainda práticas comuns. Decorridos 140 anos desde a publicação do livro, muito mudou no país e no mundo. A realidade de Tom Sawyer já não é a realidade da grande maioria dos seus leitores. Isto não invalida, contudo, que se mantenha vibrante e apelativo. Na captura da sua verdade pessoal, Twain conseguiu também reter a essência do que é ser uma criança, algo com o qual qualquer leitor se consegue identificar. Talvez por isto As Aventuras de Tom Sawyer se mantenha até hoje como um dos clássicos mais apreciados da literatura infantojuvenil.


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As Aventuras de Tom Sawyer
Neste clássico de Mark Twain acompanhamos o dia a dia de Tom Sawyer: as brigas, as paixões e as aventuras em cavernas, cemitérios e ilhas desertas.

Sequelas

As Aventuras de Huckleberry Finn
Há quem diga que é o “Grande Romance Americano” e Ernest Hemingway até era da opinião de que toda a literatura americana moderna nasceu a partir dele. Publicado em 1884 e narrado na primeira pessoa por Huckleberry Finn (com Tom Sawyer a surgir num papel menor), é uma das mais elogiadas sequelas de sempre.
Viagens de Tom Sawyer
Pensado em jeito de paródia às aventuras exóticas popularizadas por Júlio Verne, Viagens de Tom Sawyer leva Tom e Huckleberry (que volta a servir de narrador) a conhecerem o mundo a bordo de um balão. Foi publicado em 1894.
Tom Sawyer Detetive
Em 1896, vinte anos após o original, Mark Twain publica a última aventura de Tom Sawyer, que é na verdade uma prequela de Viagens de Tom Sawyer. Huckleberry Finn continua a fazer as vezes de narrador numa história em que Tom assume o papel de detetive e tenta desvendar um misterioso assassinato.

A VIDA COMO INSPIRAÇÃO

Mark Twain escreveu um dia que “a verdade é mais estranha do que a ficção, mas isso é porque a ficção está obrigada a cingir-se às possibilidades e a verdade não”. Não surpreende então que, embora rocambolescas, as façanhas protagonizadas por Tom Sawyer se baseiem em eventos reais. “A maior parte das aventuras contadas neste livro aconteceu realmente”, escreveu Twain sobre um livro que inclui situações tão improváveis como homicídios entre ladrões de campas, buscas por tesouros enterrados e crianças que fogem de casa rumo a ilhas desertas. “Uma ou duas foram experiências minhas, pessoais, as restantes de rapazes que foram meus condiscípulos”, explica.

O autor cresceu na cidade de Hannibal, no Missouri, na margem do rio Mississippi, e baseou-se neste lugar para a história, disfarçando-o sob o nome de São Petersburgo. Muitos personagens foram também inspirados em pessoas reais da sua infância. Se a personalidade de Tom Sawyer é, segundo Twain, “uma combinação das características de três rapazes que conheci”, o nome terá sido surripiado a um bombeiro seu amigo, responsável pelo salvamento de dezenas de pessoas num naufrágio. “Tom”, disse-lhe um dia o escritor, “vou escrever um livro sobre um rapaz e o tipo de rapaz que tenho em mente é o mais valente do mundo. É o rapaz que tu deves ter sido. Quantas cópias vais querer?”

Também Huckleberry Finn se baseia num antigo vizinho. “Era ignorante, sujo, mal alimentado, mas tinha um coração tão bom como o de qualquer outro rapaz. A sua liberdade era absoluta. Era a única pessoa – criança ou adulto – realmente independente na comunidade e, por consequência, tranquilo, feliz e invejado por todos nós”, explica o autor.

O SEGREDO DO SUCESSO

Tido como o pai do romance americano por nomes tão reputados como Ernest Hemingway e William Faulkner, Mark Twain passava já dos 40 anos quando escreveu As Aventuras de Tom Sawyer. A memória não o traiu, contudo, ao recuperar as brincadeiras e superstições da sua infância. Na cena mais famosa do livro, é ordenado a Tom Sawyer que pinte uma longa vedação junto da sua casa. Aborrecido com a tarefa, decide fazer com que as crianças da vizinhança trabalhem por ele, convencendo-as de que se trata de uma brincadeira muito divertida. E não lhe chega que aceitem pintar por ele. Pelo privilégio de o fazer, ainda lhe devem pagar em berlindes, brinquedos e outros “tesouros”. Estes estratagemas divertiram o público do século XIX, mas continuam a fazê-lo mais de um século depois. Autores como John Grisham recordam-nos com saudade: “Sempre que lia sobre o Tom Sawyer, saía para fazer qualquer coisa atrevida como ele.” Afinal, a escravatura pode ter sido abolida e os chapéus de palha podem ter saído de moda, mas as crianças continuam a ser crianças e a reconhecer-se não como seres perfeitos e angelicais mas como humanos com imperfeições e vontade própria.


 

Personagens

ilustracao-personagens-tom-sawyerTom Sawyer

Rapazinho travesso mas muito imaginativo e perspicaz, Tom vive com a tia, a prima e o meio-irmão na pequena aldeia de São Petersburgo, no Missouri. O seu maior sonho é ser pirata, desejo que o conduz às mais diversas aventuras.

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Huckleberry Finn

Um pouco mais velho do que Tom Sawyer, é ainda assim um dos seus melhores amigos. Filho do “bêbado da aldeia”, Huckleberry age como um vagabundo: veste trapos, dorme ao relento e vive fora das normas da sociedade.

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Joe Harper

É um dos melhores amigos de Tom Sawyer e o seu mais fiel seguidor. Chega a acompanhá-lo para uma ilha com a intenção de fazer vida de pirata, mas é o primeiro a arrepender-se e a querer voltar para casa.

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Becky Thatcher

Esta menina de tranças loiras, filha do juiz local, arrebata o coração de Tom Sawyer no primeiro momento em que a vê. A sua relação com ele é feita de altos e baixos, mas acaba por lhe admirar a bravura.

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Tia Polly

Irmã da falecida mãe de Tom Sawyer (e do seu meio-irmão Sid), faz os possíveis para cuidar dele e o guiar por bons caminhos, alternando severas reprimendas com demonstrações de carinho e amor.

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Injun Joe

É o vilão da história e o homem de quem toda a aldeia parece ter medo, um assassino e ladrão sem remorsos que provoca suores frios e pesadelos a Tom Sawyer.
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Mark Twain
Quem é

  • Nasceu a 30 de novembro de 1835, no estado americano do Missouri.
  • Chamava-se Samuel Langhorne Clemens. Adotou o pseudónimo de “Mark Twain” a partir de um termo usado por barqueiros para confirmar a profundidade dos rios.
  • Trabalhou como operário de impressão, redator, navegador, mineiro e jornalista.
  • Adorava gatos e opunha-se fortemente a todas as formas de crueldade para com os animais.
  • Apoiava a abolição da escravatura e a igualdade de direitos para as mulheres.
  • Tendo nascido num ano de passagem do cometa Halley pela Terra, previu que morreria quando o cometa a voltasse a visitar. Foi isso mesmo que aconteceu, a 21 de abril de 1910.
  • Tem, desde 1976, um asteroide com o seu nome: 2362 Mark Twain.

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