A estante de João Tordo

João Tordo
Nasceu a 28 de agosto de 1975, em Lisboa. Começou por trabalhar como jornalista antes de se estrear na literatura, em 2004, com O Livro dos Homens sem Luz. Vencedor do Prémio José Saramago, em 2009, com As Três Vidas, lançou os dois primeiros volumes da Trilogia dos Lugares Sem Nome em 2015 e, em maio último, trouxe-nos o derradeiro O Deslumbre de Cecilia Fluss. Além de romancista, também se distingue como guionista, cronista e formador.

Romances portugueses, ficções latino-americanas, clássicos gregos. Há um pouco de tudo na estante de João Tordo. Até o seu novo livro.

Guarda “muitas centenas” de livros em casa. Tantos que, por vezes, dá por si a oferecê-los a familiares e amigos. Robusta, embora um pouco “desorganizada”, a estante de João Tordo funciona sobretudo como um escape do dia a dia. “Mas por vezes”, explica o autor, “também como ferramenta de trabalho, onde vou para reler certas passagens que são importantes para mim ou que fazem sentido quando estou a escrever um livro.”

Lê um pouco de tudo: ficção e não ficção; livros em português, inglês e espanhol. Todos o inspiraram a seguir o caminho da escrita e fazem parte daquilo a que gosta de chamar “tradição literária”. “Escrevo com essa tradição que me foi sendo emprestada. Não somos donos dos livros, eles passam por nós, são-nos emprestados. E vamos tirando de cada autor aquilo que mais gostamos”, explica.

Para o seu mais recente romance, O Deslumbre de Cecilia Fluss, que encerra a Trilogia dos Lugares Sem Nome, garante que traz toda essa bagagem consigo. “Isso reflete-se na maneira como escrevo e articulo as histórias, porque as personagens, para mim, são muito mais importantes do que o enredo”, defende.

Seja na condição de escritor ou de leitor, João Tordo procura, acima de tudo, embrenhar- se na experiência humana. Por isso é que a perda, o desejo e a solidão são motivos muito presentes nos seus romances. E na sua estante. “Acho que são alguns dos temas mais interessantes de toda a literatura.”


1

Um dos livros mais especiais para João Tordo – talvez “o” livro da sua vida – é Moby Dick, de Herman Melville. Leu-o quando ainda era adolescente. “É um livro especial porque mostra como o romance é um género em que cabe tudo. É um livro de aventuras, mas também uma enciclopédia de baleias e, por vezes, um texto religioso.”

2

Se há nome que, para o autor, merece destaque na sua estante, é o de José Saramago. Ou não fosse O Ano da Morte de Ricardo Reis um dos seus livros de eleição. “Fala de um Portugal que já não existe. É muito inteligente e de uma melancolia enorme. É, talvez, o romance que li que melhor mostra o que é ser daqui, deste sítio, desta cidade encostada ao mar.”

3

A literatura latino-americana também lhe fala ao coração. De Roberto Bolaño, curiosamente, o autor não destaca o seu livro mais emblemático, 2666, mas Os Detetives Selvagens. “É um livro muito intenso sobre a passagem para a idade adulta e tudo o que nos vai acontecendo depois dos sonhos e ilusões da juventude.”

4

Na estante de João Tordo não encontramos apenas ficção. Por vezes, o autor dá por si a ler passagens de sermões budistas ou de obras de referência como A República, de Platão, e Pensamentos, de Blaise Pascal.

5

Não é frequentador de alfarrabistas, nem coleciona livros antigos – até porque tem alguma alergia ao pó. Há, no entanto, uma obra particularmente rara na sua estante. “Tenho um D. Quixote de La Mancha [de Miguel de Cervantes] dos anos 60, escrito em espanhol”, revela.

6

Um dos últimos títulos a chegar à estante, e já percorrido por João Tordo do início ao fim, foi Bússola, do escritor francês Mathias Énard. O mesmo que, em 2015, foi galardoado com o prestigiante Prémio Goncourt.

7

A fazer companhia aos livros está um objeto muito especial, que lhe foi deixado pelo avô. “É um copo de água com o símbolo do Benfica, da altura em que o clube ganhou a Taça dos Campeões Europeus, em 1960.”


Por: Carolina Morais
Fotografias: Rodrigo Cabrita/4SEE

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