Escritores que saem aos seus

Pode o talento para a escrita ser hereditário? Conheça alguns exemplos que levam a suspeitar que sim.

Diz-se que filho de peixe sabe nadar e há vários exemplos que o comprovam no mundo literário. Entre nomes mais e menos conhecidos, encontram-se escritores que vivem na sombra da reputação dos pais, outros que os ultrapassam largamente em popularidade, aqueles que exibem nos textos o estilo demarcado dos progenitores, e os que decidiram trilhar um caminho inteiramente diferente.

Kingsley e Martin Amis

Considerado um dos melhores escritores de sempre, Kingsley Amis combinou o típico humor britânico com um olhar crítico e apurado sobre a sociedade e escreveu um pouco de tudo: romances, contos, poemas, ensaios e argumentos para rádio e televisão. São de sua autoria obras tão emblemáticas como A Sorte de Jim e Os Velhos Diabos, respetivamente vencedores dos prémios Somerset Maugham e Man Booker. É também “coautor”, por assim dizer, de Martin Amis, seu segundo filho e outro dos nomes habitualmente referidos nas listas de melhores escritores do Reino Unido. Não se pense, contudo, que Martin se iniciou na escrita por influência do pai. Quando era mais novo, a única coisa que gostava de ler era banda desenhada e teve de ser a madrasta, a também romancista Elizabeth Jane Howard, a pôr-lhe um livro de Jane Austen nas mãos para o despertar para a literatura sem desenhos. A partir daí, o jovem Martin não mais deixou de escrever. Desenvolvendo um estilo irreverente e sem regras em livros como Money, London Fields e O Cão Amarelo, conquistou o público, a crítica, mas curiosamente não o seu pai, que nunca lhe achou piada aos textos.

Família King

Stephen King dispensa apresentações. Autor de dezenas de romances e centenas de contos dos mais diversos géneros, vendeu mais de 350 milhões de livros em todo o mundo e foi distinguido com alguns dos principais prémios da literatura americana. Menos conhecido será talvez o facto de ser casado há 45 anos com a também escritora Tabitha King. E que este casal de autores gerou outros dois autores: Joe Hill e Owen King. Responsável por livros tão elogiados como A Caixa em Forma de Coração e Cornos, o mais promissor dos rebentos de King é o único que não usa profissionalmente o seu apelido. Uma decisão que foi cuidadosamente planeada: Joe adotou o apelido “Hill” na esperança de que os seus textos fossem julgados pelo próprio mérito e não à sombra do imenso sucesso do pai. Até ver, parece estar a correr bem.

Sophia de Mello Breyner Andresen e Miguel Sousa Tavares

Poetisa de origem, mas também contista e ensaísta, Sophia de Mello Breyner Andresen notabilizou-se como uma das principais referências nacionais na área das letras, tendo sido distinguida, entre outros, com o prestigiado Prémio Camões. Miguel Sousa Tavares, um dos seus filhos, começou como advogado e jornalista, mas eventualmente seguiu-lhe os passos. Foi também ele que, em pequeno, a motivou, junto com os seus quatro irmãos, a iniciar-se na escrita de histórias infantis. Neste campo, Sophia criou obras tão emblemáticas como A Menina do Mar, A Fada Oriana e O Cavaleiro da Dinamarca. Miguel Sousa Tavares também se aventurou na literatura infantojuvenil, com livros como O Segredo do Rio ou O Planeta Branco, mas a sua obra de maior sucesso é um romance histórico para adultos: Equador.

Alexandre Dumas e Alexandre Dumas

Muitos conhecem o nome de Alexandre Dumas como o de um dos mais importantes escritores da literatura francesa do século XIX. Aquilo que nem todos saberão é que existiram, na verdade, dois escritores com este nome. Alexandre Dumas, o pai, escreveu dezenas de livros, entre os quais clássicos como Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo. Alexandre Dumas, o filho, nasceu de um caso extraconjugal com uma costureira e apenas se voltou para a escrita para extravasar as frustrações resultantes da sua ilegitimidade. É ele o autor de A Dama das Camélias, posteriormente adaptado por Giuseppe Verdi a uma ópera intitulada La Traviata. Embora escrevessem em registos geralmente distintos – o pai preferia romances históricos, com muita ação, e o filho escrevia textos mais dramáticos –, ambos tiveram sucesso e são hoje recordados, embora com alguma confusão, como referências.


Por: Tiago Matos

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