Em Revelação: Pierre von Kleist

Criada há cinco anos, a editora Pierre von Kleist quer continuar a produzir livros como se fossem obras de arte. Através da fotografia criaram uma linguagem própria que tem tudo para ser exemplo visual.

Por Elsa Garcia

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Foi a folheá-los, a sentir-lhes o cheiro e a apreciar a qualidade das fotografias dos livros que editam que começou a conversa. Um deles foi desenhado como se fosse um livro de pautas, uma sinfonia visual usando a metáfora da música. No preâmbulo do encontro a página do The New York Times dedicada a Japan Drugs, o recente livro de António Júlio Duarte editado pela Pierre von Kleist.

André Príncipe e José Pedro Cortes fundaram e editam os livros baseados no nome e na personagem fictícia Pierre von Kleist. Acabaram de fazer cinco anos e o balanço é positivo e, de certa forma, inesperado. Tudo começou com o livro “mais difícil que existia” para reeditar, Lisboa Cidade Triste e Alegre, de Victor Palla e Costa Martins. Decorriam os anos 50 quando começou a ser publicado em fascículos que saíam, de dois em dois meses, nos jornais. “No final do ano saía a capa dura e as pessoas iam ao quiosque encadernar, o que fez com que não se saiba quantos livros saíram na altura”, conta André. O livro voltou a ter uma nova vida em 1982 quando António Sena, proprietário da galeria Éter, descobriu 300 fascículos que não tinham sido vendidos com os jornais.

As 300 cópias foram encadernadas e o livro ganhou novo fôlego, chegando inclusive a fazer uma carreira internacional. Nos anos que se seguiram o livro adquiriu um estatuto mítico na fotografia portuguesa.

Foi muito tempo depois que André Príncipe, já com José Pedro Cortes, decidiu voltar a editá-lo, tornando-o o primeiro projeto da Pierre von Kleist.

“A primeira reação foi de choque pois não é fácil editar um livro impresso em gravura: não existiam negativos e tudo era tecnicamente muito difícil. Se não fizéssemos este livro mais ninguém iria fazê-lo, pois conhecia a família, ia fazer uma editora e conhecia distribuidoras. Decidimos avançar e o processo demorou cerca de dois anos. Em seguida atirámo-nos à água e tivemos que aprender a nadar porque, de repente, tínhamos 1500 livros com um preço de venda ao público de 90 euros ”, diz André. Conseguiram, esgotou em menos de 12 meses e conquistou o estatuto de “livro do ano” num importante blogue. O grande arranque ensinou-os a fazer livros, a aperfeiçoar uma lista de distribuição e a serem reconhecidos e respeitados. Afinal começaram pelo mais difícil.

André Príncipe é cineasta e fotógrafo e José Pedro Cortes é fotógrafo. Encontraram-se e decidiram criar a Pierre von Kleist, editora focada na fotografia, que em cinco anos lançou 18 livros, dos quais cinco estão esgotados e outros quatro quase a esgotar. O trabalho editorial
é feito pelos dois e, em muitos livros, “somos nós próprios a fazer o design e a prepará-los para a gráfica”. Por isso, também é deles a escolha dos autores e dos projetos, um a um. Os livros de capa dura são feitos na Alemanha, os restantes em Portugal. Em comemoração dos cinco anos, a festa foi feita com uma nova exposição de André, Antena 2, na galeria de fotografia Pedro Alfacinha, e com a estreia do seu filme Campo de Flamingos sem Flamingos, do qual resultou também um livro. “O coração de um livro de fotografia está numa sequência de imagens. Como editora vemo-nos mais próximos da literatura e do cinema do que da arte contemporânea. A linguagem dos nossos livros é a fotografia: escrever com luz”, conclui André.

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