Weina Dai Randel: “Não digam à vossa família que estão a escrever um livro”

weina-dai-randel-revista-estante-fnac

Weina Dai Randel viu o seu primeiro romance, A Imperatriz da Lua Brilhante, chegar às livrarias ao fim de uma década de trabalho. Em conversa com a Estante, a escritora chinesa fala sobre a mulher mais poderosa da história do seu país. E sobre a década em que viveu nos Estados Unidos, afastada de familiares e amigos.


Imperatriz

O primeiro livro de Weina Dai Randel, publicado em Portugal pela Editorial Presença, relata a história da Imperatriz Wu, a primeira e única mulher que, em 5 mil anos de história, governou a China.

Demorou dez anos a escrever A Imperatriz da Lua Brilhante. Porquê tanto tempo?

Eu também não sabia que ia demorar tanto tempo, para ser sincera. Afinar técnicas de escrita criativa demorou-me muitos anos. Passei, frequentemente, horas a fio a ler livros sobre esta arte, a aplicar as regras ao meu romance, e depois a reescrever tudo. Esta parte do processo foi muito lenta.

No decorrer dos últimos dez anos, também atravessei duas gravidezes e assumi o papel de mãe, o que limitou o meu tempo para escrever. E para a pesquisa. Sim, pesquisar para romances consome muito tempo.

Enquanto estava a escrevê-lo, assumiu um compromisso interior de não regressar à China a não ser que o livro fosse publicado. Porque decidiu fazer isso?

Em 2005, logo depois de me ter formado numa universidade no Texas, disse aos meus amigos e à minha família, pelo telefone, que gostaria de escrever um livro sobre a Imperatriz Wu [a única mulher que, na China, chegou ao poder e reinou como soberana]. O meu pai não aprovou a ideia e disse-me para arranjar um emprego a sério. Os meus amigos perguntaram: ‘Queres escrever um livro em inglês?’, com aquele tom de quem não acredita que conseguirás fazê-lo – afinal, eu só comecei a falar e a escrever em inglês quando tinha 24 anos. E a minha mãe disse-me, sem rodeios, que eu estava a ficar velha e devia parar de perder tempo e começar a ter filhos.

Com a minha personalidade naturalmente rebelde, assumi um compromisso interior de não regressar à China a não ser que publicasse o meu romance. E isso foi o que aconteceu nos dez anos que se seguiram – apesar de sentir umas saudades terríveis deles, de lhes ligar todos os domingos de manhã e de, com frequência, procurar voos para Xangai. Mas não voltei. Depois, finalmente, três meses antes da data de publicação do meu livro, visitei a minha família na China.

O que a levou a decidir tornar-se escritora?

Sempre adorei palavras. Sempre adorei ler desde que era miúda. Por isso, pareceu-me uma escolha natural.


Afinar técnicas de escrita criativa demorou-me muitos anos.


Como refere, baseou a personagem Wu Mei na verdadeira imperatriz chinesa Wu Zetian. O que lhe despertou interesse na história dela?

Em primeiro lugar, a Wu Zetian foi a única mulher que governou a China em 5 mil anos de história. Sendo a mulher mais poderosa, que se afirmava e fazia os homens curvarem-se diante de si, era muito intrigante para mim.

Em segundo lugar, eu ficava muito indignada – e continuo a ficar – quando lia comentários sobre a Imperatriz Wu cheios de preconceito e malícia, muitas vezes feitos por estudiosos confucionistas da China antiga. Infelizmente, esses comentários são herdados por alguns escritores contemporâneos, e por leitores também. Pareceu-me injusto que uma mulher tão notável, que governou a China durante décadas e deixou um legado de ouro ao país, fosse alvo de cuspo durante séculos só por causa do seu género.

Eu acreditava que ela merecia uma voz. Uma voz que mostrasse a sua inocência, vulnerabilidade e evolução. Uma voz nova de mulher jovem que batalhava para sobreviver num mundo de homens – o que, claro, é ficção, mas pelo menos lembrar-nos-ia de que uma mulher como a Imperatriz Wu merecia ser mais do que o retrato que os filósofos pintavam dela, e que a sua história não deveria ser esquecida.

De facto, a Imperatriz Wu é frequentemente tratada por muitos estudiosos como uma espécie de vilã. Por que razão acha que se trata de um erro histórico?

Muitos estudiosos na China não gostarão, provavelmente, de ouvir a minha afirmação de que a Imperatriz Wu não era vilã. A verdadeira Imperatriz Wu nunca chegou a ser conhecida, uma vez que os registos históricos mais antigos sobre ela foram escritos quase 200 anos após a sua morte, o que significa que já se tinham passado gerações quando os estudiosos chineses começaram a escrever a sua parte da história.

A perceção que tenho da Imperatriz Wu também tem muito a ver com a forma como a história foi produzida na China. Nos tempos antigos, os historiadores eram funcionários destacados pelos imperadores, que, como podem imaginar, não gostavam particularmente da ideia de que uma mulher governou o país. Os historiadores tiveram de corresponder às preferências do imperador, porque se escrevessem algo que o desagradasse, ou algo provocador, as suas posições sociais, as suas cabeças e até as vidas dos seus familiares poderiam estar em perigo. Percebem, então, porque é que a Imperatriz Wu não foi enaltecida nesses registos históricos primordiais, certo?

O problema é que esses registos tornaram-se a principal fonte dos estudiosos, dinastia após dinastia, e assim se estabeleceu o retrato de uma Imperatriz Wu má e criminosa.

Também quero destacar que essa definição teve muito a ver com a prevalência do confucionismo que dominou a China. O confucionismo, como sabemos, via os homens como mestres superiores e as mulheres como seres inferiores que os serviam. Por isso, naturalmente, a Imperatriz Wu, a mulher que subverteu a ordem, foi apontada como vilã.

A Imperatriz da Lua Brilhante faz parte de uma série de dois livros. Porquê uma duologia?

Sugeri ao meu editor nos Estados Unidos uma trilogia, com o terceiro livro a descrever a ascensão da Imperatriz Wu até se tornar soberana do país, mas ele não tinha a certeza de como o mercado norte-americano iria responder a três livros, por isso decidimos optar por uma duologia.


Muitos estudiosos na China não gostarão de ouvir a minha afirmação de que a Imperatriz Wu não era vilã.


Descreva a sua rotina de escrita.

Geralmente, escrevo durante quatro horas de manhã, entre as 8h30 e as 12h30, e depois faço uma pausa para ler à tarde. À noite, escrevo durante mais duas horas antes de ir dormir.

Costuma escrever o primeiro rascunho à mão ou no computador?

No computador. Na verdade, só consigo escrever no computador do meu escritório. Não consigo em qualquer outro lugar fora do meu escritório, nem num portátil, nem num avião.

Planeia todos os detalhes da história de antemão, ou deixa-a fluir?

Normalmente não planeio detalhes, mas costumo ter já um final pensado quando me sento para escrever.

Quais são as suas principais referências e de que forma influenciaram o seu trabalho?

Quando eu estava a escrever A Imperatriz da Lua Brilhante, li volumes de poesia chinesas, romances clássicos como Dream in the Red Mansion (também conhecido como The Story of the Stone), e A Arte da Guerra, para estar familiarizada com a China antiga. Adorei a linguagem poética e as imagens ricas, por isso treinei-me para escrever sempre com imagens em mente.

Qual foi o último livro que leu? O que achou do mesmo?

Estou a meio de Do Not Say We Have Nothing, de Madeleine Thien. Estou a adorar!

Qual título daria a um livro sobre a sua vida?

Sem título. Estou agradavelmente surpreendida com esta pergunta, porque não acho que a minha vida seja interessante o suficiente para se tornar um livro. Mas talvez? Não sei. Veremos. O que quer que aconteça, espero que tenha um bom final.


Treinei-me para escrever sempre com imagens em mente.


Qual é a pior parte de ser escritora?

A depressão. Tive crises depressivas quando era adolescente, mas, quando cresci, outras partes melhores da minha personalidade sobressaíram e consegui manter-me positiva. No entanto, anos passados a escrever em isolamento e uma inclinação para me embrenhar no estado de espírito das personagens trazem esse lado negro de volta à minha vida.

Que conselhos daria a aspirantes a escritores?

Não digam à vossa família que estão a escrever um livro, a não ser que esteja quase terminado. Porque vai demorar-vos mais tempo a escrever do que pensam, se lhes disserem. Eles vão perguntar como está a correr o livro sempre que vos virem. E isso pode tornar-se muito irritante e desmotivante. Em vez disso, tirem algum tempo para escrever, e escrevam discretamente, todos os dias. Independentemente do que aconteça. Mesmo que seja apenas por cinco minutos.


 

Gostou? Partilhe este artigo: