Simon Scarrow: “Procuro preencher os espaços vazios da História”

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Aproveitámos a edição de 2019 da Comic Con Portugal para conversar com Simon Scarrow, o autor da série de romances históricos A Saga da Águia, atualmente com 17 volumes publicados em Portugal. Descobre tudo aqui.

O Simon é um apaixonado por História.

Absolutamente. É aí que estão as melhores histórias!

O que mais o fascina na História e, mais especificamente, no Império Romano?

Na escola estudei Latim. Nunca fui muito bom mas, quando os professores começavam a falar sobre a língua e a sua história, achava aquilo muito interessante. Além disso, enquanto crescia, via na televisão a série I, Claudius e, quase todos os fins de semana, passavam filmes como Spartacus ou Cleópatra. Tudo isto me interessava muito.

E, claro, quando se começa a viajar pelo Mediterrâneo é difícil ir a um país que não tenha alguma ruína romana, o que nos leva a pensar quem eram estas pessoas que construíram todas estas infraestruturas há dois mil anos.

Quando se vai a Pompeia e vemos que eles tinham água bombeada, os canos expostos nas ruas, ficamos a pensar que era quase como nos dias de hoje. Os romanos eram muito parecidos connosco em certos aspetos mas incrivelmente diferentes noutros. Acho que foi daí que nasceu o fascínio.

Quanto de A Saga da Águia são factos reais e quanto é ficção?

Ora, eu decidi começar a escrever sobre Macro e Cato porque lia imensos livros sobre Roma Antiga, escritos sobre generais e imperadores, mas o que queria mesmo saber era como era Roma na perspetiva das camadas inferiores da sociedade. Por isso criei estes tipos. E quando se escreve ficção histórica e se utilizam figuras fictícias e marginais podemos fazer praticamente tudo o que quisermos com eles desde que respeitemos a veracidade das comidas da época…

Tudo o que estes personagens fazem acontece numa moldura histórica muito específica e eu mantenho-me tão fiel aos factos reais quanto consigo. Procuro apenas preencher os espaços vazios da História.

Macro e Cato têm sido as forças condutoras da série. É algo que se vai manter até à última palavra do último livro?

Não sei, porque quando comecei a escrevei não pensei nisso. Neste momento estou a terminar o 18.º volume da série e, quando comecei, achei que nunca seriam mais de seis ou, no máximo, 12 volumes. Por isso nunca pensei tão à frente. Mas quando se escrevem tantos livros numa série como esta podemos permitir uma espécie de evolução nos personagens. Agora, se o Macro e o Cato sobrevivem até ao fim, seja lá quando for…

Este livro que estou a escrever [Traitors of Rome] é o segundo na Pártia. O próximo será na Sardenha e a seguir o Macro vai retirar-se para a Grã-Bretanha. Vão acontecer muitas coisas nos próximos livros.

Há planos para quantos mais livros?

Continuarei a escrever enquanto os editores continuarem a comprar os livros, porque é muito divertido fazê-lo. Neste momento, Macro e o Cato são como velhos amigos e escrever um livro é como ir de férias com dois dos teus melhores amigos. Por isso continuarei enquanto puder.

Continuarei a escrever enquanto os editores continuarem a comprar os livros.

O Sangue de Roma retrata o sangrento conflito entre os impérios de Roma e Pártia. Podemos, por isso, esperar um aumento na violência em comparação com os restantes livros da saga?

A verdade é que, seja qual for o evento em que Macro e Cato estão envolvidos, há sempre mais qualquer coisa a acontecer. Neste livro, por exemplo, sem revelar demasiado do enredo, o Cato sofre uma espécie de fadiga de combate. Fiz alguma pesquisa sobre isso. Não é a mesma coisa que a fadiga de combate moderna, é um tipo de pressão muito diferente [e] a história individual deles e o que os afeta tem muito mais a ver com isto do que com o conflito geral. O que, na minha opinião, é uma das principais mais-valias desta série: como estas duas pessoas são verdadeiramente seres humanos. Como nós poderíamos reagir se estivéssemos naquela situação. Porque nós não somos imperadores ou imperatrizes de Roma, não somos generais nem nada do género, por isso acabamos por desenvolver uma empatia por eles.

A propósito de todas essas dificuldades que o Cato enfrenta, concorda que a guerra traz ao de cima o pior de cada pessoa?

Não. Acho que a guerra desperta sentimentos diferentes em pessoas diferentes e em períodos diferentes. Uma das coisas que costumamos ouvir é que existe uma espécie de barbaridade restrita e, ao mesmo tempo, soldados capazes de atos amáveis e generosos.

Penso que o que a guerra realmente faz é amplificar aquilo que os humanos são capazes de fazer. Independentemente de serem soldados ou civis, podemos encontrar pessoas que, em períodos de guerra, se comportam de forma bárbara.

Por exemplo, por ocasião de uma visita que fiz a uma prima minha que se tinha mudado para Creta, li um livro sobre a Segunda Guerra Mundial e a invasão de Creta por parte dos alemães. Depois falei com a sogra dela e perguntei-lhe que memória ela tinha desse período. Ela contou-me que essa foi a única altura em que matou uma pessoa.

Aparentemente, um paraquedista alemão aterrou no jardim dela e ela matou-o com uma espada. Esta velhota amável, quando alguém invadiu o seu espaço, tornou-se uma maníaca homicida. Por isso não são apenas os soldados; todos nos podemos comportar de forma bárbara. Acho que é isso que a guerra faz.

O Sangue de Roma centra-se no trono da Arménia e em como os partas substituíram o rei por um dos seus. Quando dois poderes batalham por uma terra, as consequências caem inevitavelmente em terceiros?

Sem dúvida que sim. É quando dois poderes batalham por uma certa região de valor primariamente simbólico que temos o tipo de barbaridades de que falávamos. Porque o objetivo não é apenas conquistar um território, ocupá-lo e torná-lo parte de um império; é também ensinar uma lição ao outro lado. Foi isto que aconteceu na Arménia.

A Arménia era muito associada aos persas e, eventualmente, ao Império Parto. A sua situação não era muito problemática, mas de repente aparece em cena Sula e começa a negociar quem ficaria com o poder entre os partas.

Os partas pensam: mas quem se julgam estes romanos para chegarem aqui e nos dizerem quem deve ser o nosso próximo rei? E os romanos, é claro, pensam que são romanos e que é isso que os romanos fazem.

A Arménia nem sequer era o território mais óbvio; os romanos começaram por tentar invadir a Pártia pelo deserto, mas isso correu terrivelmente mal. Descobriram, contudo, que se pretendiam invadir a Pártia, a forma mais segura era através da Arménia porque é montanhosa, o que traz problemas para a cavalaria. Por isso a Arménia, apenas devido à localização geográfica e sem culpa nenhuma na matéria, tornou-se motivo de uma grande disputa entre dois impérios.

Como é que algo assim afeta o território e as pessoas que nele habitam?

O povo de qualquer região disputada vê-se, sem culpa, no meio dos conflitos. Outras pessoas chegam lá, matam, roubam. Não importa quem sejam, são todos inimigos. Mas, claro, para a aristocracia é diferente – apenas pensam no que podem ganhar com tudo aquilo, como podem sair por cima. Por isso inventam esquemas, conspiram com os romanos, conspiram com os partas, tudo para aumentar o seu poder no reino.

Tem sido assim ao longo de toda a História. Como no Vietname, por exemplo. Os vietnamitas primeiro tiveram os franceses no poder, depois os japoneses, depois os franceses novamente, a seguir os americanos a invadir e a causar todo o tipo de problemas, e a seguir os comunistas a infiltrarem-se a partir do Norte…

A propósito, o Simon afirmou no passado que os Estados Unidos são o Império Romano dos tempos modernos. O que quis dizer com isso?

Quando observamos o Império Romano vemos que são muito superficiais, tal como os americanos. Mas aquilo que me interessa realmente é a sensação que os romanos tinham de que tinham sido escolhidos a dedo por alguma força divina para serem o povo mais poderoso do mundo independentemente do que outras pessoas podiam achar. Penso que é igual com os americanos.

Quando vemos o Donald Trump dizer que quer tornar a América novamente grande, o que ele está realmente a dizer é que quer tornar a América a maior novamente. E é assim que eles se veem.

As semelhanças entre o Império Romano e os Estados Unidos são muito claras. Veem-se a eles próprios como divinamente destinados a serem os líderes do mundo. E encontramos certos presidentes americanos a comportarem-se como Césares.

As semelhanças entre o Império Romano e os Estados Unidos são muito claras. Veem-se a eles próprios como divinamente destinados a serem os líderes do mundo.

O Simon chegou a viver nos Estados Unidos, embora tenha nascido na Nigéria e passado igualmente pelas Bahamas e por Hong Kong. Como é que todas estas culturas e experiências influenciaram a sua escrita?

A minha mulher cresceu na Papua-Nova Guiné, por isso tanto ela como eu somos aquelas pessoas que foram educadas como ingleses a morar no estrangeiro. Tínhamos uma determinada ideia de como era o Reino Unido mas, lá chegados, percebemos que é completamente diferente. Por isso sentimo-nos estrangeiros. Deixamos de ver o Reino Unido como o centro do mundo, como muitos britânicos. Como os americanos, que se desenharem um mapa colocam a América no centro e o resto do mundo à volta.

A diferença é que se nascemos e crescemos no estrangeiro não sentimos realmente nenhum país como a nossa casa. Mantemos inclusive uma certa distância para com o país do qual nos sentimos mais próximos, de modo que o conseguimos ver de forma mais objetiva. E, claro, se andamos a viajar pelo mundo sem um sentimento particular de identidade nacional, ficamos muito mais conscientes de que todas as pessoas são diferentes e de que existem diferentes crenças. Estamos muito mais abertos para o aceitar.

Ao escrever sobre a Roma Antiga, uma das características que dei ao Cato foi uma grande empatia pelos lugares que visita. Quando escrevi A Águia do Império achei que seria muito interessante criar um personagem com quem as pessoas se pudessem identificar fortemente… e em seguida metê-lo a invadir a Grã-Bretanha. Foi de propósito para os leitores ingleses.

A reação não foi tão má como esperava. É que muitos britânicos cresceram com a ideia de que são herdeiros do Império Romano e olharam para eles como se fossem ingleses e para os bárbaros como se fossem galeses ou escoceses.

Já esteve em todos os lugares em que os personagens dos seus livros estiveram?

Sim, todos. E acho que isso é muito importante. Porque se estamos a escrever como é estar no deserto do Egito às nove da manhã, se não formos lá não vamos saber como é a qualidade do ar ou os sons que se ouvem. Existem diferentes tipos de calor, diferentes humidades. Se não formos a diferentes lugares, nunca vamos saber isso.

O Simon foi professor de História e partilha frequentemente o quanto os seus professores o marcaram. Qual é a sua relação com ensino?

Organizo workshops de escrita e vou a escolas falar de gladiadores e coisas assim para tentar interessar os alunos por História. Ser professor é um trabalho fantástico e uma grande responsabilidade porque estamos a abrir as mentes das pessoas para conhecimentos alternativos que vão “abanar” as suas personalidades. Uma das razões para eu ter abandonado o ensino foi porque o governo inglês o alterou. Em vez de deixarem os professores ensinar livremente as matérias à sua maneira, agora dizem que as coisas têm de ser ensinadas de uma certa forma. Deixou de ser educação e passou a ser treino.

Costuma ler ficção histórica?

Não muita. Uma das coisas que descobri ao escrever ficção é que leio ainda menos ficção do que costumava, precisamente por saber como as histórias funcionam. Por exemplo, se estiver a ler um romance policial consigo perceber logo quem cometeu o crime. Para mim já não há surpresas nestes livros. Apesar disso, muito ocasionalmente deparo-me com algo de que não estava à espera. Esses são os escritores aos quais devemos estar atentos.

Por: Frederica Abreu
Fotografia: Bill Waters

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