Sérgio Rodrigues: “E se a magia do futebol não fosse apenas um lugar comum dos narradores desportivos?”

Fotografia: Bel Pedrosa 

Sérgio Rodrigues fala do seu novo livro e da magia do futebol no Brasil. E deixa um conselho a aspirantes a escritores: “Desista se for capaz.”

O Drible

Este romance do brasileiro Sérgio Rodrigues nasceu a partir de um conto, “Peralvo”, escrito há cerca de 18 anos, sobre um jogador de futebol com poderes sobrenaturais. Mas se o futebol é o pano de fundo da obra, os dribles são também os da relação entre um pai e um filho. E há ainda a história de um segredo de família. É também um retrato do ambiente político e cultural do Brasil.

 

Veja o vídeo desta entrevista.


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

[Risos] Eu não escreveria um livro sobre a minha vida. Acho que ela não merece. Não ia haver livro.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

É muito difícil responder a isso porque é muita coisa e, ao mesmo tempo, não acho que haja nenhuma influência forte o bastante para se manifestar de forma clara. Sempre li muito desde pequeno e tanto lia “alta literatura” como “baixa literatura”. Se tem uma marca no que faço é uma tentativa de criar pontes entre uma literatura de género policial, fantasia, que as pessoas leem com prazer, de maneira compulsiva, e a literatura mais artisticamente ambiciosa, dita séria. Esse trânsito é o que me interessa mais.

O que é para si um bom livro?

É um livro que você lê com prazer e que não esquece no dia seguinte.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Acabei de ler agora um livro recém-lançado de um escritor brasileiro chamado Paulo Scott. É um romance, O Ano em que Vivi de Literatura. Muito bom.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Escrevo todos os dias, mas sou jornalista também. Vivo de escrever. No caso da ficção é uma luta um pouco mais difícil. Abrir espaço nesta rotina para ter uma disciplina não é algo que consiga sempre. Há momentos em que estou envolvido em projetos jornalísticos que vão pagar as contas do mês e a ficção acaba ficando de lado. Não é o ideal, porque acredito que escrever seja um pouco como fazer exercício físico: se passa um tempo longe, você volta meio enferrujado e demora a retomar a forma. Em compensação, se eu não sou o cara mais disciplinado do mundo, quando estou embalado numa história tenho uma capacidade de trabalho muito grande. Nem preciso de dormir.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Escrevo direto no computador. À mão, tomo algumas notas. Se vem uma ideia que acho que pode ser aproveitada e que não gostaria de esquecer, tomo nota. Mas sou viciado em computador. Quando comecei a escrever, comecei a escrever à máquina. Quando, na adolescência, tomei a decisão de escrever fui inscrever-me num curso de datilografia porque achava que era muito importante, que todos os escritores sabiam datilografia. Estava errado. A maioria não sabe. Mas eu me tornei um exímio datilógrafo, escrevo sem olhar para o teclado. Escrever, para mim, sempre esteve mais associado a um teclado do que a uma caneta ou um lápis.


“Tem uma certa sabedoria em saber se deixar levar pela escrita.”


Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Um pouco de cada. Em geral, tenho um plano, mas que não é muito detalhado. É um plano básico que é muito alterado ao longo do processo e às vezes acontece você chegar num lugar bem diferente de onde você imaginava que chegaria. A escrita te leva, e tem também uma certa sabedoria em saber se deixar levar pela escrita. Acaba sendo uma mistura de abandono e de controlo. O controlo absoluto não funciona para mim e o abandono, tampouco.

Como lhe surgiu a ideia de O Drible?

O conto “Peralvo” [que está na base do livro] surgiu daquela operação do “e se”. E se a magia do futebol não fosse apenas um lugar comum dos narradores desportivos? E se a magia do futebol se corporificasse num jogador com poderes sobrenaturais? Foi um pouco o exercício de transformar um cliché em algo que não fosse. O que construí em torno do “Peralvo” – que foi o que me deu mais trabalho – não sei como ali foi parar. O tema principal do livro não é nem o futebol, mas a relação entre um pai e um filho, um tema com milhares de anos de história. Não tenho a menor ideia como apareceram estes dois personagens – o pai e o filho –, mas uma vez tendo aparecido, achei que funcionaria. Que daria uma reverberação maior àquela anedota futebolística que o conto era até então.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Tenho, mas não gosto de falar de ideias enquanto elas não ficam um pouco mais fortes.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Tem várias. O tempo que rouba à sua vida e ao seu convívio com as pessoas que você gosta. Você se fecha num quarto e é solitário – e não tem como não ser solitário. Isso acaba te levando embora muitas e muitas horas em nome de uma recompensa que é muito incerta. Acho que tem uma componente de loucura neste processo todo. Você pode estar trocando as milhares de horas que poderia estar jogando à bola com o seu filho por absolutamente nada, por um resultado pífio. Não há nenhuma garantia que essa troca vá dar em algo importante para alguém, mas você aposta de qualquer forma. E você precisa de fazer isso. Se você não precisar, você não faz.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Desista se for capaz. Se você tiver como desistir é porque aquilo não é absolutamente imprescindível na sua vida e aí você deve desistir porque há coisas muito melhores para fazer com o seu tempo, com o seu esforço. É uma jogada de alto risco. A menos que você não tenha escolha, porque se não o fizer você vai ser infeliz. Se não for capaz de desistir, então é ir em frente. Leia muito, escreva muito, jogue muita coisa fora, não fique satisfeito com os primeiros elogios. Exercite a autocrítica o tempo todo, mas não até ao ponto de ela te impedir de escrever.

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