Sérgio Godinho: “Neste momento não quero viver sem a ficção narrativa”

Considera-se um criador. Um criador que se tornou conhecido pelas canções mas cuja mais recente criação é um livro. Em Estocolmo, Sérgio Godinho conta-nos a história de um homem apaixonado pela sua raptora. Apesar de ser ficção, o autor também sabe o que é estar preso.


Estocolmo

Estocolmo

Sérgio Godinho
Estocolmo é o seu segundo romance e fala sobre um homem que está apaixonado pela sequestradora. O facto de a palavra “síndrome” não estar no título significa que encara a relação entre as duas personagens como uma relação de amor e não necessariamente como uma doença?

A relação tem um caráter neurótico, como é evidente. Mais do que isso: é uma obsessão doentia, porque estás cativo e tens estes sentimentos ambíguos em relação a alguém que te está a tirar a liberdade. Mas há muitas relações amorosas que são doentias.

A esses sentimentos ambíguos não podemos necessariamente chamar sentimentos amorosos, ou podemos?

São sentimentos amorosos, mas o amor é uma palavra que dá para tudo e é rica de significados. Quantas canções e poemas não há de amor? Amores infelizes, amores paternais, filiais, de amizades. Pode chamar-se uma relação amorosa porque eles têm uma relação amorosa, mas isso não é impeditivo de que seja uma relação doentia, tanto de um lado como do outro.

Esta é uma situação que é tudo menos normal, embora a normalidade seja uma palavra muito difícil de definir. Chamei ao romance Estocolmo referindo-me à síndrome de Estocolmo, que está classificada como uma patologia de feição de um sequestrado pelo seu raptor.

No início do livro, a Diana deixa várias “pistas” ao Vicente do que poderá vir a acontecer.

Sim, deixa.

O pior cego é aquele que não quer ver?

Exatamente! Mas é difícil, nessa altura [no início], perspetivar que vai acontecer algo tão radical. O narrador é que está a informar o leitor de que há alguma coisa além disso. Ela deixa muito poucas pistas, outras são dadas pelo narrador – do género: “Nem ele sabia o que estava para acontecer.” O narrador põe-se de fora e vai, de certo modo, inquietando o leitor. Isto parece uma situação tão normal, porque há de acontecer alguma coisa?

Eu inverti um bocado aquilo que é mais comum nestas situações de rapto: alguém mais velho raptar alguém mais novo.

E também o facto de o raptor ser uma mulher.

Sim, muitas vezes é um homem que rapta uma mulher. Há situações em que o rapto acontece numa situação de guerra e outras em situação urbana e em que se cria uma situação ambígua. Achei que era interessante desenvolver isso invertendo as cartas, jogando outro jogo que é o de uma mulher mais velha, com um nome público a defender – porque é uma jornalista de televisão conhecida –, que está a correr enormes riscos e acaba por raptar aquele rapaz a quem alugou o quarto.

Toda a teia de ambiguidades que se segue é interessante. Há uma perversidade na personagem da Diana: ao mesmo tempo que é muito feminina e tem o seu trabalho normal, joga com os sentimentos dele e tanto lhe dá a entender que o vai soltar como se envolve com ele sexual e amorosamente, como o ameaça.

É dito no romance: uma das coisas que é terrível num preso que está num caso destes é não saber quanto tempo tem de pena. Eu já estive preso e não saber quanto tempo se vai ter de pena… Se tu sabes que são…

Dois, três anos…

…Mal ou bem preparas a tua cabeça para essa espera. Essa situação de incerteza permanente é aquilo que também há muito nos casos de violência doméstica. Apesar de serem casos um bocadinho diferentes, ambos criam teias que são muito mais intricadas afetivamente – falamos tanto de afetividade como de atração sexual. Falamos de descobrir uma nova vida, porque trata-se de um rapaz com muito pouca vida e que descobre uma mulher…

Mais madura…

Tudo isso cria uma teia que é complexa.

Há muitas relações amorosas que são doentias.

Coracao-Mais-Que-Perfeito

Coração Mais que Perfeito

Sérgio Godinho
Disse que não tinha personagens femininas fracas nem nas suas músicas. A Diana é uma mulher possessiva e engendra um plano para fazer do Vicente seu prisioneiro. É a sua personagem feminina mais forte até agora?

Não… Acho que no primeiro romance, Coração Mais que Perfeito, a personagem principal, a Eugénia, é muito forte. Ela não tem muito rombo de vida mas é uma resiliente, uma sobrevivente e uma personagem com certeza mais positiva. Porque esta [a Diana] tem uma grande perversidade. As minhas personagens femininas – até mais do que as masculinas – são geralmente fortes, até nas minhas canções. Não sei porque isso acontece, tenho de fazer…

Uma análise.

Não, o meu psicanalista não veio [risos]. Mas não tenho que fazer uma análise sobre isso, é como tem acontecido narrativamente. Também nos meus contos, no Vidadupla, há personagens femininas que são extremamente fortes. Mas isso não quer dizer que não tenham defeitos. Se fossemos analisar numa escala de mais forte e mais fraco, ele [Vicente] é mais fraco do que ela [Diana]. Mas depois há uma personagem, a mãe da Diana, que vai aparecer e mudar as circunstâncias.

Falando um pouco do Vicente, há uma certa inércia na personagem que vai deixando que a Diana se torne cada vez mais dominante.

Há uma inércia sobre a qual ele se culpa. Porque está a colaborar tanto? Porque julga que pode ser solto ou está “apanhado” por ela, amorosa e sexualmente? O que o faz condescender tanto? Ele faz imensas interrogações. É um tipo interessante, com uma certa cultura…

Está, aliás, a estudar psicologia.

Estuda psicologia. Quase sente que é um objeto de autoestudo, mas ao mesmo tempo não o quer ser. Há um turbilhão de pensamentos contraditórios.

E qual é a resposta para esse turbilhão de perguntas?

Aquilo é uma situação, não há resposta. É normal que exista um turbilhão de pensamentos quando se está numa situação de confinamento. É diferente se estás numa cama de hospital (que também é uma forma de prisão), mas sabes que é inevitável. Ali sabes que também és um ator daquilo, então tem de haver esse turbilhão de pensamentos contraditórios.

A certa altura, a Diana parece querer ser apanhada e vai tendo momentos de… não sei se os hei de chamar “remorsos”?

Sim, ela precisa de se punir. E arrisca muito quando apresenta uma notícia que é idêntica à situação que ela está a viver.

Pondo isto noutro setor, muitos criminosos são apanhados porque têm uma certa necessidade de se expor. Há alguns casos em que estão no local do crime e informam a polícia. Estão ali, no fim de contas, a jogar um jogo perigoso mas que ao mesmo tempo é como dizer: “Pá, olhem para mim, fui eu!” Percebes? E a Diana também está a jogar esse jogo.

Essa compulsão faz dela uma pessoa doente?

Ela é muito neurótica. Não sei se a palavra doente se aplica ou deixa de aplicar. Acho que é uma doença, mas ela é sobretudo extremamente neurótica porque vive ao mesmo tempo com a normalidade. Ela diz mais do que uma vez que simplesmente sentia que tinha de o fazer. Não sabe porquê, porque é uma compulsão. É extremamente cruel o que ela faz. O livro também tem muita crueldade.

Essa compulsão atenua de alguma forma o mal que ela faz? Quando somos culpados de algo, essa “doença” atenua o mal que fizemos?

Não acho que atenue porque, lá está, o que é a normalidade? Acho que era o Caetano Veloso que dizia: “Visto de perto ninguém é normal.” [risos]

Acho que não atenua no sentido em que ela é uma pessoa funcional. Se fosse inimputável podia dizer-se que atenuava. Há criminosos que fizeram coisas horríveis e que estão numa instituição psiquiátrica porque são considerados inimputáveis. Acho que ela tem uma espécie de dissociação de personalidade entre essa tranquilidade que tem perante as câmaras ao apresentar as notícias, o facto de ser uma pessoa consciente e socialmente bem inserida, e esse mundo secreto. É curioso porque há uma terceira personagem que também acaba por entrar no jogo dela.

Ela sabe seduzir.

Ela de certo modo está ali também a sugar as energias de outras pessoas.

E o facto de ela usar o sexo como arma também é disruptivo?

Acho que não é caso único mas, sim, ela usa a sedução sexual de uma maneira muito neurótica. Não é bem uma bipolaridade que há ali, é outra coisa, um lado negro. Todos nós temos um lado…

Lunar.

Como diria o Carlos Tê e o Rui Veloso. Mas a Lua tem um lado brilhante e escuro e ontem à noite houve um eclipse. Eu vi-o!

Estava acordado até tarde.

Não, acordei. Acordei e estava bonito, pá. Mas enfim, isso já é outra coisa.

As minhas personagens femininas são geralmente fortes, até mais do que as masculinas, e até nas minhas canções.

 

Vidadupla

Vidadupla

Sérgio Godinho
As amarras espaciais de Vicente podem ser facilmente interpretadas como as amarras amorosas e emocionais que temos a outras pessoas. Alguma vez se sentiu um Vicente? Ou uma Diana?

Pode haver alturas em que nos sentimos um pouco prisioneiros de escolhas que fizemos anteriormente mas não vou dissecar isso. Sou muito privado em relação à minha vida e portanto não vou fazê-lo com um elo de comparação [à narrativa].

Como distingue uma história que é boa para ser cantada e ouvida de uma história que é boa para ser escrita e lida?

Não é bem esse o meu ponto de partida. As criações de ficção passaram a ocupar uma parte importante da minha vida a partir de uma certa altura. Voltando um bocadinho atrás, tinha escrito coisas esparsas e literatura infantojuvenil,  inclusivamente um livro de que eu gosto muito e que está no Plano Nacional de Leitura, que também ilustrei, que é O Pequeno Livro dos Medos. Já agora, vai haver um concerto para crianças no CCB à volta dos medos e desse livro. É um tema que me interessa muito. Mas continuando…

Depois disso comecei os nove contos de Vidadupla, e depois Coração Mais que Perfeito, o meu primeiro romance, e quase de seguida Estocolmo, embora tenha feito um interregno para fazer o disco Nação Valente. E descobri uma paixão narrativa que nunca tinha sentido.

Nas minhas canções, embora muitas vezes haja personagens, não há histórias com princípio, meio e fim. Há narrativas, muitas vezes, mas outras vezes não há. São coisas de interrogação, político-sociais, ou histórias pícaras de personagens que de certo modo se tornam exemplares: o Casimiro ou o Coro das Velhas. Mas há histórias de todo o tipo… Estás a ver? Disse “histórias”, mas no sentido muito aberto, percebes?

Quando se faz uma ficção narrativa é evidente que há uma história. O Vidadupla tem temas muito diferentes, mas Coração Mais que Perfeito percorre vários anos da vida de uma mulher. Há personagens secundárias… Aqui resumi a coisa a praticamente três personagens. Quis “secar” um bocado à volta, uma vez que este assunto é…

Entre duas pessoas.

Entre duas pessoas. E também porque este livro é mais curto do que Coração Mais que Perfeito. Mas acho que quando encontro algo sobre o que falar torna-se…

Fácil?

Não é fácil. Torna-se uma estrada onde já estou. Fácil não é. O que acontece é que enquanto estou a escrever procuro escrever um pouco todos os dias. Especialmente à noite. É mais fácil. De dia há outras solicitações. Às vezes também escrevo à tarde. De manhã não. Nem sou de acordar muito tarde, mas estou a fazer outras coisas.

No caso das músicas, diz que começa a escrever as letras depois de a melodia já estar construída.

Geralmente sim.

E para os livros? Qual é a sua base?

Nas músicas começo pela melodia, até porque quando nos vêm as palavras parece que já têm uma componente fraseada musical e, portanto, a prosódia já está determinada pela música.

Nos livros nunca me aconteceu, até ver. E tenho um terceiro romance começado. Não sei quando vou continuá-lo. Talvez faça um outro projeto antes.

Relacionado com a literatura ou com a música?

Com a literatura. Mas o que estou a dizer é que em todos estes casos não fiz um esquema a dizer: “A história é esta, vai daqui ali, tem este pico e acaba ali.” Geralmente tenho um ponto de partida e algumas ideias sobre o que pode ir começando a acontecer, mas sou muitas vezes – e isto tem sido muito dito por escritores – surpreendido pela própria escrita, pelos caminhos que se abrem. Há aquele cliché da mão que já escreve sozinha e que comanda o pensamento. É verdade que muitas vezes uma pessoa está a escrever e pensa: “Agora podia acontecer isto se…”

Até porque o Sérgio disse que teve de refazer uma das personagens deste romance.

Não, não foi bem uma das personagens. Tive de “secar” algumas coisas. Como a linguagem que, em alguns casos, estava demasiado explícita, mas sem que isso fosse empobrecedor. Tive de fazer um exercício de síntese. Às vezes escreve-se um bocado a mais porque estamos com ideias.

Com o balanço.

E à noite já se está assim com uns aditivos. Não foi necessariamente rescrever uma personagem… Talvez características da mãe ao princípio. A relutância da mãe é maior nesta versão final. Mas é uma questão de afinação.

Pode haver alturas em que nos sentimos um pouco prisioneiros de escolhas que fizemos anteriormente.

O-Pequeno-Livro-dos-Medos

O Pequeno Livro dos Medos

Sérgio Godinho
O Sérgio vê-se como um escritor ou mais como músico ou autor?

Como um criador. Já fiz três filmes com argumentos meus. Desde sempre que gostei de fantasiar e criar mundos. Quando comecei a descobrir o ofício das canções – que é a conjugação de várias artes numa coisa só – e fui experimentando formas musicais, encontrei um canal que se tornou fulcral na minha vida. As músicas e as canções continuam a ser fulcrais na minha vida e não quero abandoná-las. Por isso é que tive um grande prazer em voltar às canções num disco de originais, Nação Valente.

Ainda é na música que se revê mais?

Não é rever mais, mas já fiz muita coisa na música e em muitos géneros. Neste momento não quero viver sem a ficção narrativa, mas não quero fazer aqui uma ordem de valores. É evidente que as canções têm uma vertente muito importante para mim: a performance. Estou no palco e estou a comunicar com o público. Nos livros a comunicação é completamente diferida.

De que forma está à espera que o público reaja a este segundo romance?

Incógnita total. Espero que recebam bem e que fiquem um bocadinho perturbados, mas não gosto de criar expectativas. É evidente que todos queremos que os outros aceitem aquilo que nós fazemos. Às vezes trato de coisas um bocado difíceis, mas é esse também o meu impulso e não tenho medo.

E nas criações dos outros? Por exemplo, quando está a ler um livro, o que o agarra a uma história?

A história é claramente aquilo que te agarra mas, às vezes, é aquilo que também cria resistências iniciais a não se entrar muito bem na música daquele escritor. E de repente há ali um código que se desvenda e entramos no mundo daquele criador. Já li coisas de tal maneira diferentes que não posso dizer que haja um estilo único que me agrade. Sou muito eclético nas minhas escolhas.

Qual foi o último livro que leu?

Agora estou a começar o Elieteda Dulce Maria Cardoso.

O que está a achar?

Estou só no princípio. Começa logo com uma frase bastante forte: “Eu sou eu e o Salazar que se foda.”

Estou sempre a ler muitas coisas ao mesmo tempo. Tenho de ler um bocado mais sobre a História de Portugal porque ando um bocado esquecido e tenho vergonha.

Alguma vez pensou escrever um livro baseado na sua vida?

Tenho algumas crónicas escritas. Não são uma autobiografia mas são autobiográficas. Quero escrever um pouco mais por aí. Por isso é que estava a dizer que há outros projetos. Não quero que seja uma biografia extensiva de cabo a rabo sobre a minha vida, mas posso escrever sobre coisas da minha vida se as achar interessantes. Sou bastante rigoroso com isso, não gosto de autocondescendência.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Sei lá! Deixa lá ver… Como te chamas?

Tatiana.

Então chamava-lhe Tatiana.

Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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