Rita Vilela: “A minha maior influência são as pessoas que me rodeiam”

Fotografia: José Fernandes/4SEE

Escrever para crianças e jovens não é tarefa fácil. Em entrevista à Estante, Rita Vilela falou do que a fascina no mundo da imaginação, fantasia e aventura.

Os Descendentes de Merlin

As histórias que sempre nos contaram sobre o reino de Camelot afinal não são verdade. Merlin, o famoso feiticeiro, teve 12 filhos a quem transmitiu o poder da magia pelo sangue e a capacidade de criar textos mágicos que permitem desvendar o que realmente aconteceu. Uma história marcada pela coragem e pela aventura, num mundo onde podemos encontrar personagens tão distintas como o Rei Artur, os soldados Templários, Camões e Afonso de Albuquerque.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chapéus com História

A Chapelaria da Baixa podia ser como todas as outras, uma simples loja onde se vendem chapéus. Mas os do João são especiais. Nas abas destes chapéus escondem-se histórias incríveis de memórias, aventuras e viagens que atraem os clientes que por ali passam.

A fantasia e a aventura têm presença assídua nos seus livros. Considera-se uma pessoa aventureira?

Originalmente não era. Quando era miúda era muito pouco aventureira e jogava sempre pelo seguro, só arriscava em sonhos. Depois, já adulta, comecei a gostar um bocadinho de adrenalina e hoje tenho gosto pela aventura, mas não esqueço a segurança.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Podia chamar-lhe simplesmente Rita Vilela, mas não gostava de fazer um livro sobre mim. Insiro bocadinhos da minha vida e das minhas experiências nos livros que escrevo. Por exemplo, na vida real fomos fazer uma descida do rio Minho num barco de encher, encostámos o barco à margem espanhola e saímos, mas ninguém se lembrou de o prender e ele começou a afastar-se com as nossas mochilas lá dentro. O meu marido correu, saltou lá para dentro e lá conseguiu trazê-lo de volta. No meu primeiro livro, As 7 Cores de Oníris, coloquei as personagens a passar pela mesma situação, só que vão numa jangada – porque não há barcos de encher no mundo de Oníris. Não a prendem e ela começa a afastar-se. Aí também há um elemento que a tenta trazer de volta, mas na história não é bem sucedido e acaba por ser arrastado rio abaixo e separado dos outros. Costumo usar coisas que me aconteceram, experiências e aventuras que já vivi, para colocar nas minhas histórias.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

A minha maior influência são as pessoas que me rodeiam. Pegando de novo no exemplo de As 7 Cores de Oníris, na obra existem sete raças humanas, seis delas inspiradas em pessoas que eu conheço e uma inspirada em mim. Mas é engraçado que a maior parte dos meus amigos não adivinha qual é. Normalmente inspiro-me nas coisas que me acontecem, nas pessoas que conheço, nas histórias que me contam, em tudo o que me marca e desperta interesse. Depois misturo esses ingredientes com uma dose adequada de imaginação e nasce a história.

Em termos literários, foi depois de ler O Senhor dos Anéis e uma série de outros livros de fantasia. Fiquei com vontade de escrever uma saga minha. Mas, na altura, uma pessoa que me era muito próxima disse-me: “Antes de inventares um mundo, tens de pensar bem qual é a sua dimensão. Se for como a Terra, as pessoas andam como na Terra, mas se for um mundo mais pequeno, com menos gravidade, então as pessoas saltam como na Lua. Tens de pensar muito bem como é o teu mundo, a dimensão, o clima…” Eu não tinha pensado em nada disso e adiei o projeto, mas mais tarde comecei a perceber que na realidade não precisava de pensar nessas coisas, precisava era de pensar nas criaturas ou nas pessoas que ia pôr dentro do meu mundo. A minha história é essencialmente sobre pessoas e o que lhes acontece, o resto é “paisagem”, não é o essencial.

Uma das vantagens de um livro de fantasia é que o mundo pode ter o tamanho da Lua e a gravidade da Terra. E, se temos um problema, posso criar um dragão ou outra criatura imaginária para o ajudar a resolver. Basicamente, um livro de fantasia é bom para escritores “preguiçosos”, porque não é necessário fazer grandes pesquisas e dá-nos um enorme grau de liberdade. Noutros livros, como por exemplo na saga Os Descendentes de Merlin, continuo a ter magia mas vou buscar uma base histórica. Esses já dão mais trabalho.


A minha história é essencialmente sobre pessoas e o que lhes acontece, o resto é ‘paisagem’, não é o essencial.


Os Descendentes de Merlin e Oníris têm sido um sucesso entre o público juvenil. Quais são os principais desafios de escrever para jovens leitores?

Na realidade, para mim é natural escrever para jovens. Tanto num caso como noutro, criei as sagas ao sabor do meu imaginário. Quando escrevi Oníris, estava convencida de que era um livro para adolescentes e adultos e depois a editora classificou-o como infantojuvenil. O meu imaginário é mesmo muito mais jovem do que a minha idade.

Relativamente a Construtor de Futuros, houve uma pessoa que me disse que o livro funcionava por camadas. Acho que isso acaba por ser aplicável a uma grande parte da minha obra. Diferentes leitores podem ir buscar coisas diferentes a um mesmo livro, uns ficam-se pela superfície, outros vão mais fundo… É o mesmo que acontece com as metáforas. Eu tenho dois livros de metáforas em parceria com a Margarida Fonseca SantosHistórias para Contar Consigo e Brincar com Coisas Sérias. E é muito interessante perceber que as mensagens em que pensámos quando criámos cada conto nem sempre coincidem com a “moral da história” que os leitores encontram, porque cada um retira da metáfora o que tem mais a ver consigo num dado momento.

Voltando às sagas, uma rapariga disse-me uma vez que a Oníris tinha mudado a vida dela. E eu perguntei-lhe: “Mas mudou a tua vida como?” Oníris é uma saga de fantasia que conta a história de um conjunto de jovens adultos que têm de ultrapassar montanhas para tentar chegar a um território proibido e superar provas que foram definidas pelos deuses… e eu não estava a ver de que forma essa história poderia provocar uma mudança no leitor. Ela respondeu-me que graças ao livro passou a valorizar muito mais a família, o ambiente familiar que tinha. E isto é muito especial, é uma enorme satisfação saber que as minhas histórias ajudaram as pessoas, provocaram mudanças.

Outro exemplo, o livro infantil A Boca que Gritava Demais, que fala de uma boca que gostava de gritar e tinha problemas com a vizinhança: umas orelhas sensíveis que andavam nervosas com aqueles gritos todos. Depois de a história ser lida numa escola, uma professora revelou-me que os seus alunos passaram a falar mais baixo nas aulas.

Estas sagas de fantasia e aventura têm continuação ou vão ficar por aqui?

Têm. No caso de Os Descendentes de Merlin, já temos três volumes – Os Guardiães dos Manuscritos Mágicos, A Dama do LagoHeróis do Mar – e o quarto já está escrito e sairá em outubro. Parte da história decorrerá na Transilvânia, mostrando-nos uma versão totalmente diferente da lenda do conde Drácula. E já tenho um conjunto de ideias a nascer para o quinto volume. No caso de Oníris, para já vamos ficar pelos três. Cheguei a iniciar o quarto, mas depois não avançou.

O que é para si um bom livro?

O que eu gosto num livro é que fale comigo. Para mim, um bom livro é um livro que me faz sonhar. Tenho a teoria de que uma pessoa que não gosta de ler é porque ainda não encontrou o livro certo para si. E o livro certo não é necessariamente o melhor livro do ponto de vista literário, mas é o livro que mexe com ela, que estimula o seu imaginário, que a leva para longe, que a faz pensar. Quando encontramos livros desses, que falam connosco, acho que toda a gente gosta de ler, e tenho visto exemplos disso… de leitores que começaram a gostar de ler com as minhas obras.

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Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

O último livro que li foi O Muro de Berlim, de Frederick Taylor. Li-o numa ótica de pesquisa histórica para depois poder pegar no tema e trabalhá-lo na saga Os Descendentes de Merlin. Foi um livro de que gostei muito e que me fez perceber o que se passou realmente naquela cidade depois da guerra. Quando nos transmitem História como se fossem histórias, funciona. Toda a gente gosta de histórias, não é? Esse livro está escrito de uma forma que entusiasma. Quase nos conseguimos pôr no lugar das pessoas e pensar: e se, de um dia para o outro, construíssem um muro ali no meio da Avenida da Liberdade? E as pessoas do lado direito deixassem de poder atravessar para chegar ao lado esquerdo? Foi um livro em que peguei com o objetivo de adquirir ideias para trabalhar e que depois me deu imenso prazer a ler.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Gosto de escrever por impulso. Sento-me ao computador, começo a escrever e as ideias vão surgindo. É a forma que me dá mais prazer, e as minhas duas sagas foram escritas assim, sem planeamento inicial. Embora, na prática, se demore muito mais tempo a escrever por impulso do que de uma forma planeada. Quando não planeamos as coisas, às vezes percebemos: “Espera, isto não pode ser assim.” Obriga-nos a voltar atrás e a fazer de novo. Mas é a minha forma mais natural de escrita.

Uma vez fiz um livro planeado. Tirei um curso de escrita criativa e um dos exercícios era fazer o planeamento de uma história. Com o plano feito, num fim de semana em que o marido não estava em casa, decidi avançar. Não larguei o computador de manhã à noite e, ao fim de dois dias, tinha escrito um livro de 80 páginas: Porque Não me Chamam Vera. Foi o meu único livro planeado e, de facto, o tempo rendeu muito mais… Não é normal conseguir escrever 80 páginas em dois dias.

O processo de escrita pode ser rápido mas depois é claro que demoro muito mais tempo a rever, a polir, a melhorar. As coisas não ficam prontas à primeira.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

No primeiro livro, foi à mão. Depois percebi que não funcionava, demorava mais tempo a passar a limpo do que a escrever e tive de mudar. Ainda houve ali um período de transição em que escrevia no computador e revia à mão. Imprimia, fazia as correções todas e depois introduzia no computador. Hoje em dia já é tudo no computador, só quando tenho uma ideia a meio da noite é que escrevo num papelinho.

Qual é a importância dos livros no crescimento de uma criança?

São essenciais. Exercitam a imaginação, mas também podem ser um instrumento importante para passar mensagens. É muito mais eficaz passar uma mensagem através de uma história em que a criança se identifica com a personagem e aprende com ela do que ter alguém a dizer: “Tu não podes fazer isso. Deves fazer aquilo. Quantas vezes já te disse que quero que faças aqueloutro?”

Por exemplo, tenho uma coleção de três livros – Curso de Coragem para Meninos com Medo, Curso de Como Gerir o Meu Dinheiro e Curso de Defesa Contra Bactérias Más – que procuram ajudar as crianças em temas relevantes. O primeiro mostra-lhes formas de enfrentarem os seus medos. O segundo ensina-lhes a gerir o dinheiro, porque muitas vezes o verbo “comprar” é o mais usado lá em casa. E o terceiro trabalha questões de higiene e segurança alimentar e contou com a colaboração da ASAE, que também tem um papel de sensibilização nesta área. Tanto na coleção Perguntas à Procura de Resposta como nesta coleção infantil, as mensagens importantes estão lá, integradas numa história lúdica para que o leitor, se quiser, as possa ir buscar.

Na literatura para jovens as mensagens também são importantes. Por exemplo, As Cenas de K é um livro em que os jovens e adultos podem aprender uma técnica para gerirem melhor as emoções e usarem o cérebro para alcançarem aquilo que querem. Penso que os livros podem e devem ter um papel importante a esse nível. Mas têm de ser livros apelativos. Se o livro não é cativante, as mensagens não passam. Ninguém gosta de “secas”, nem de as ouvir, nem de as ler.

Quais são as principais diferenças entre escrever para crianças e para jovens adultos?

Escrever para crianças é muito mais rápido. E como o texto é mais sintético, tem de ser melhor trabalhado. O infantil exige também um bocadinho mais de esforço de ajustamento de linguagem e um maior cuidado com as mensagens do que um livro juvenil. Mas diria que a grande diferença é mesmo o tempo que demoro a escrever um e outro.


Se o livro não é cativante, as mensagens não passam. Ninguém gosta de ‘secas’, nem de as ouvir, nem de as ler.


Como lhe surgiu a ideia do último livro que publicou, Chapéus com História?

Sempre gostei de chapéus. Só os uso como proteção de sol, mas sempre gostei de chapéus e até tenho uma pequena coleção deles em casa. Houve um dia em que resolvi pegar neles como base de escrita. O tema acabou por resultar em três livros, dos quais publiquei agora a obra infantil Chapéus com História. Esse fala-nos de uma chapelaria familiar, a Chapelaria da Baixa, que pertenceu ao bisavô, passou para o avô, para o pai e agora está no filho, o João, que começa a ter dificuldades em vender os chapéus até descobrir que pode usar as histórias para atrair clientes. É uma história imaginada, mas houve uma colega que pensava que era verdadeira, pensava que eu estava a contar o que se passara numa chapelaria real.

Alguns dos seus livros já atravessaram fronteiras e estão presentes em países como Itália, Brasil e Venezuela. Qual é a importância da internacionalização para um escritor?

O mercado português é um mercado muito pequenino. Se temos ambição de chegar mais longe, é importante ultrapassar fronteiras. Mas esse aspeto mais comercial é apenas uma parte, há outro aspeto importante que é a realização pessoal. É muito gratificante ver pessoas de outros países, de outras culturas, a interessarem-se pelo nosso trabalho e a comentá-lo na Internet.

O Brasil foi a internacionalização mais recente. É um país onde vivi durante cinco anos e era um sonho publicar lá, um sonho que agora se concretizou, e logo com oito livros… uma coleção completa! Estou na expectativa relativamente aos resultados, mas penso que tem potencial para correr muito bem. Dizia-me o editor que às vezes são edições pequeninas, cinco mil, dez mil exemplares. Ora, uma edição de cinco mil exemplares em Portugal já é uma edição bastante boa, e lá, no mercado escolar, cinco mil são edições pequenas.

Entretanto, para o ano, o Construtor de Futuros também vai sair no Brasil, porque ganhou um prémio lá. Como nestas coisas o que custa mais é a primeira vez, acredito que se possam vir a abrir outras portas e consiga entrar com a minha obra noutros países e reforçar a minha presença naqueles onde já entrei. O próximo sonho seria avançar para a língua inglesa, porque é um mercado muito grande. Mas estou à procura de todas as oportunidades de pôr os meus livros noutros mercados e poder internacionalizar também as minhas sagas de fantasia. 

Já tem ideias para o seu próximo livro?

A história de Os Descendentes de Merlin continua num quinto livro, que talvez se passe na Alemanha e envolva uma lenda e a busca de um tesouro, ainda não sei bem. Entretanto tenho um desafio para uma nova coleção juvenil só minha com o Clube do Autor e estou à procura do melhor caminho. Gostava ainda de terminar dois livros juvenis de aventuras, um também com chapéus e outro em que me inspirei nas minhas colegas de trabalho. Tenho muita coisa a meio e muitas ideias para continuar a escrever. Haja tempo, porque ideias não faltam.

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Qual é a pior parte de ser escritora?

Rever é a parte pior. A parte criativa dá-me imenso gozo. A parte de revisão consome muito tempo e andar para trás e para a frente e reler não sei quantas vezes aquilo que se escreveu para aperfeiçoar não dá grande prazer, mas é essencial para se chegar ao fim com uma obra que funcione.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Não desistam dos vossos sonhos. Eu comecei a escrever o meu primeiro livro em 2003 e só o publiquei em 2008. Entre 2003 e 2006, praticamente não o mostrei a ninguém, porque tinha vergonha e não sabia se prestava ou não. Depois de o enviar finalmente para uma editora, demorei dois anos a receber um “não”. Depois enviei-o para a Oficina do Livro e, ao fim de mês e meio, obtive um “sim”, o meu primeiro “sim”. No outro dia, li sobre o percurso de grandes escritores antes de chegarem onde chegaram. Pessoas que são hoje bestsellers internacionais levaram uma quantidade enorme de “nãos” antes de conseguirem publicar alguma coisa. É mesmo assim, é importante não desanimar por causa disso.

O segundo conselho que vos dou é que escrevam. Escrevam muito. Não deitem nada fora. Guardem tudo, porque às vezes uma ideia que não parece grande coisa pode vir mais tarde a dar uma boa base para trabalhar. Depois, se tiverem o sonho de partilhar aquilo que escreveram, não desistam. É tão especial quando as pessoas vêm ter connosco e nos dizem que a nossa escrita foi importante para elas.

Eu estou nas redes sociais por causa dos meus livros e tenho blogues, Facebook, LinkedIn. Faço questão de responder a todas as mensagens que me deixam. Este contacto e esta proximidade é essencial para podermos ajustar melhor o nosso trabalho aos leitores. Deixaria como conselho a outros escritores que fizessem o mesmo, que usassem esses meios para partilhar o que escrevem e obter feedback.


Por: Andreia Vaz

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