Rafael Loureiro: “Nas páginas de um livro de fantasia conseguimos ser o herói”

Fotografia: José Fernandes/4SEE

Rafael Loureiro, autor do livro Cinzas de Um Novo Mundo, é um apaixonado pelo mundo dos vampiros e dos lobisomens. Em entrevista à Estante, falou sobre a paixão pelo movimento gótico e deixou escapar a revolta que o motiva a escrever um próximo livro.

Cinzas de um Novo Mundo

Como será Lisboa daqui a 100 anos? Rafael Loureiro apresenta-nos uma cidade envolta numa nuvem de poluição onde as pessoas se debatem por ar puro e dignidade. Onde uma força policial persegue os Tecnal, soldados com implantes mecânicos que teimam em não desaparecer. E onde Filipe, o herói desta história, se divide entre cumprir a lei ou seguir o seu instinto tentando descobrir a verdade por detrás daquele submundo.

 


Como é que o desporto e a escrita se cruzam na sua vida?

Posso dizer que o desporto veio mais tarde. Primeiro veio a escrita. Desde garoto sempre gostei de ler, especialmente poesia. Literatura mais pesada só comecei a gostar mais tarde. Entre essas duas paixões, a literatura e o desporto, vingou o desporto. Também sou professor e treinador de karaté. Acho que o desporto vingou em detrimento da literatura por causa das artes marciais. Mas como nós somos multifacetados acabei por ir desenvolvendo a literatura à parte. Tenho o desporto como uma ferramenta de trabalho, de dia a dia, e que me define também. E depois tenho esta outra máscara que é o autor.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Em termos pessoais, agora estou a passar uma fase complicada. É curioso que estive a falar disso ontem com um amigo  e a pergunta foi semelhante. Seria qualquer coisa como… Jornada contra Deus ou Guerra de Fé.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Desde pequenino que sempre gostei muito de terror, por causa da minha mãe. A minha mãe deixava-me ver aqueles filmes a preto e branco dos lobisomens, dos monstros e dos vampiros. Dos lobisomens a arrancarem as cabeças às pessoas. Claro que à noite não dormia. Tinha pesadelos. Escondia-me debaixo das mantas. Mas fui crescendo sempre ligado ao universo do terror. Depois, na adolescência, conheci o movimento gótico. Percebi que havia um tipo diferente de terror. Um terror romântico, o ultrarromantismo. Já na faculdade, consolidei isso do ultrarromantismo também em literatura. A minha influência sempre foi o terror. Sempre foi Bram Stoker, Polidori, Anne Rice, que é a mãe dos vampiros modernos, Edgar Allan Poe. Sempre gostei desse terror romântico. Claro que as influências depois também passam pela música. Passam pelos jogos. Por exemplo, o Vampire: The Masquerade. Tenho muitas influências. Foi com o juntar dessas influências, aliado às guerras interiores que todos nós travamos, que me fui apercebendo que já havia um personagem interior que queria sair. É uma miscelânea de todas estas influências que depois originou a primeira trilogia.


A minha influência sempre foi o terror. Sempre foi Bram Stoker, Polidori, Anne Rice, Edgar Allan Poe. Sempre gostei desse terror romântico.


O que é para si um bom livro?

Podia citar Joseph Campbell, mas acho que não. Um bom livro é o livro que nos muda. Na linha do Campbell, na jornada do herói, ele diz que as histórias ficam e passam de geração em geração ao longo dos tempos quando uma pessoa se identifica com elas. Como o herói no final sai mudado, o leitor como herói também tem de sair mudado. Ou pelo menos diferente desde que começou a ler. Para mim, um bom livro é o que faz isso. É o que me muda.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

O último livro que li foi o do meu colega da Editorial Presença, o Filipe Faria: A Alvorada dos Deuses. Além de sermos colegas, eu e o Filipe também somos amigos. Então ele é o meu beta reader e eu sou o beta reader dele. Damos opiniões, partilhamos. Foi o último livro que li. E adorei, porque é um livro que fala da fé e apanhou-me precisamente numa fase em que isto faz mesmo sentido. Adorei porque, tal como disse há pouco, foi um livro que também me mudou. Que me deixou ali um espinhozinho na pele que alterou qualquer coisa. Deu-me outra perspetiva. Portanto posso dizer que gostei imenso.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Acho que a imagem romântica de se escrever só quando há inspiração já está a ser um bocadinho… não vou dizer destruída, mas já se começa a perceber que tem de haver uma rotina para o escritor. Eu fiquei muito espantado quando o meu professor da faculdade dizia que tinha um ídolo que era poeta e não saía de casa sem escrever três poemas por dia. Aquilo chocou-me, porque ainda trazia a ideia romântica de escrever com inspiração. Disse: “Epá, ó professor, mas isso não faz sentido. Onde é que está a inspiração?” “Pois, mas é assim.” Ele citou Edison: “A genialidade é 1% inspiração e 99% transpiração.” Perceber que é necessário transpirar para escrever chocou-me. Na minha vida tenho quatro trabalhos: sou autor, tenho uma loja, sou professor e sou treinador. Tenho de ter uma rotina muito rígida para escrever. Segundas à tarde, terças à noite, sábados à tarde. E durante os períodos em que não estou a escrever, quando estou no carro ou parado no trânsito, vou a pensar para depois, nesses dias, aquilo sair mais fluido.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Agora faço tudo a computador. Mas é curioso que ainda tenho os primeiros rascunhos do primeiro livro da trilogia Noturnus feitos à mão. E, curiosamente, comecei a escrevê-lo em inglês. Acho que a língua inglesa é mais fácil. Nós temos uma língua muito rica. Pensei que era mais fácil verbalizar em inglês, mas depois apercebi-me que não, que se perdia muita coisa. Comecei por escrever em papel, só que depois perdia tempo a tentar decifrar aquilo que tinha escrito. Tenho letra de médico, parecem uns macaquinhos pendurados nas árvores. A partir daí, comecei a escrever tudo ao computador. Como já tenho tudo mais ou menos planeado, é só despejar toda aquela emoção que se vai gerando da personagem ou do capítulo. O teclado acompanha mais rapidamente os dedos do que o papel.

Costuma planear todos os detalhes da história ou ela vai surgindo no momento?

Vai surgindo. Esse meu colega, o Filipe, quando começa a escrever já tem todos os capítulos planeados e sabe precisamente tudo aquilo que vai escrever. No meu caso, não. Sei o início, tenho dois ou três episódios e situações que acontecem ao longo da história, e nem sempre tenho o fim. Vou deixando os personagens ganharem vida. Neste livro, Cinzas de Um Novo Mundo, forcei tanto um personagem para que tivesse determinada personalidade e nunca consegui. É muito giro apercebermo-nos daquelas coisas que ouvimos os professores dizerem nas escolas: “Os personagens têm vida própria. Os personagens ganham vida.” De facto nós vemos pelos nossos dedos.

Como lhe surgiu a ideia do seu último livro, Cinzas de Um Novo Mundo?

Vem no prolongamento da trilogia Noturnus. Esta trilogia é um romance no universo do vampiro e eu queria explorar agora a parte humana. Sendo um livro independente, passa-se no mesmo universo que Noturnus. Para quem conhece a série, vai ter um conhecimento aprofundado deste livro. Há situações que se cruzam. Referências ao passado que quem conhece Noturnus vai conseguir ler nas entrelinhas. Mas quem não conhece, não é por causa disso que não vai entender o livro a 100%.

Esta curiosidade começou das influências. Vem de um exercício muito orgânico: “Vamos ver como seriam os humanos neste universo.” Mas porquê daqui a 100 anos? Ou porquê uma distopia? Além dos vampiros, também sempre me fascinaram as distopias e as probabilidades de futuros alternativos. Acabei por juntar estes dois fatores e criar uma Lisboa, um Portugal, uma sociedade reorganizada de outra maneira, com estas características.

Depois foi acompanhada com uma densidade própria. Todos os autores deixam parte de si. E havia coisas que eu precisava de deitar cá para fora. Enquanto Noturnus é uma balada romântica, este livro traz cinzas na boca. Traz pó, traz a amargura e a raiva toda.

Quanto de si está neste livro?

Muito. Em todos os personagens. É curioso que eu apercebi-me disso no final. Quando estava a acabar de escrever o último capítulo… Eu normalmente choro sempre quando escrevo o último capítulo – não pode pôr isto, porque senão gozam comigo –, é muito emocionante. É o culminar de toda aquela aventura que vivemos. O Damon, personagem da trilogia, é o meu alter ego. E eu vampirizei o meu grupo de amigos, os meus irmãos, aqueles amigos de coração. Vampirizei-os e tornei-os nos personagens que populam a trilogia Noturnus. O Andrew existe. O Janos existe. O Charles existe. E eu estava a pensar: “Mas este aqui não tem nada de mim. Este livro não tem ninguém que eu conheça.” Mas depois comecei a aperceber-me: “Espera aí, mas o Filipe, que é o herói, é esta parte de mim. O Kura, que está ligado à fé, é esta parte de mim. O Tauro, o brincalhão, soldado bravo mas que tem um passado sombrio com os seus demónios, é esta parte de mim.” No fundo, acho que sem querer – sim, não foi propositado –, todos os personagens bebem da minha essência.

Não há muitos autores portugueses a escrever literatura fantástica. O que o fascina neste género literário?

Aquilo que me fascina a mim e julgo que seja partilhado por todos os leitores de fantasia é uma necessidade de fugir à nossa vida quotidiana. A nossa vida acaba por ser tão rotineira. Casa, trabalho, pais, mães, namoradas, escola, professores chatos. Nas páginas de um livro de fantasia conseguimos ser o herói. Conseguimos fugir. Conseguimos ir para mundos diferentes. Mesmo que seja o caso de uma fantasia mais próxima à nossa realidade. Conseguimos estar num sítio diferente e viver coisas diferentes. Ter emoções diferentes. Lutar contra dragões, lutar contra vampiros, caminhar por subterrâneos das cidades. Pelo menos é isso que me cativa: poder sair fora de mim e estar noutros universos, realidades e experiências.


Não quero parecer conhecedor da população jovem, mas como professor apercebo-me que estas novas gerações desistem das coisas com muita facilidade.


Cinzas de um Novo Mundo e a trilogia Noturnus podem-se inserir na categoria Young Adult. Quais os principais desafios de escrever para jovens leitores?

Em primeiro instância, tentar cativá-los. Com tantas distrações que agora têm – telefones, Internet, YouTube –, é complicado agarrarem num livro. Não todos, como é óbvio, e não quero parecer conhecedor da população jovem, mas como professor apercebo-me que estas novas gerações desistem das coisas com muita facilidade. O desafio é tentar cativá-los nos primeiros capítulos ou nas primeiras páginas. Se bem que o maior desafio é mesmo pô-los a ler um livro.

A coleção Via Láctea vai continuar? Os leitores vão poder conhecer novos mundos fantásticos?

Sim. Não sei se a Via Láctea terá sido a pioneira, mas é uma das melhores coleções de fantasia que há no mercado. Não digo isto por estar inserido nela, mas por conhecer o mercado editorial. Tem tantos fãs, desde garotos de 12 anos até adultos de 90 e poucos anos – digo isto porque achei curioso ter descoberto, na Feira do Livro do Porto, que o meu leitor mais velho tem 94 anos. [A coleção] tem tantos seguidores que, mais do que dos livros, são seguidores da coleção. Dá um selo de garantia, de aprovação e de qualidade à coleção em si. Portanto acho que vai continuar, sim.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Sim, tenho. Mais uma vez terá a ver comigo, com coisas que eu quero contar. Ainda não adiantei muito. Só vou no sétimo capítulo. Os meus capítulos são muito pequeninos. Escrevo como gosto de ler. Pela primeira vez, terá a ver com esoterismo, com fé. Vai mexer com uma parte muito interior. Como hei de explicar? Tem a ver com a busca da fé e a revolta contra Deus. Dentro disto vai entrar pelo caminho do misticismo, do esoterismo, da demonologia [estudo dos demónios]. Vou explorar um tema que nunca explorei antes. Não deixa de ser uma fantasia, mas talvez numa vertente diferente.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Em Portugal, é conseguirmos ir lá para fora, para o mercado estrangeiro, porque estamos dependentes de um agente editorial. Se calhar pouca gente sabe, mas Portugal deve ser um dos poucos países em que o próprio autor se pode propor a uma editora. Lá fora, passa tudo por agentes editoriais. Estarmos a depender de terceiros para poder florir no mercado estrangeiro é, para mim, a principal dificuldade de ser escritor.

Tive um projeto intitulado “Descobrir Novos Autores”, estive quatro ou cinco anos a propor-me às editoras como novo autor e, como é óbvio, era complicado. Numa altura em que só havia O Senhor dos Anéis e Harry Potter, aparece um tipo, professor de Educação Física – com aquele preconceito todo associado aos professores de Educação Física –, com um livro sobre vampiros. Claro que nenhuma editora arriscou. Até que a Editorial Presença aceitou e, graças a Deus, tivemos o sucesso que tivemos.

Como novo autor, a dificuldade é precisamente conseguir penetrar numa destas editoras de renome ou numa editora séria. Portanto há duas dificuldades: a dos novos autores é entrar no mercado; a dos autores já publicados é entrar no mercado estrangeiro.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Aquilo que eu digo sempre nas palestras, quando me chamam para ir às escolas, é que não desistam. Se há, de facto, vontade de escrever, há que ser resiliente. Como disse, estive quatro anos a propor-me às editoras numa altura em que ainda não havia Facebook. Agora as redes sociais afunilam as informações até às pessoas, antigamente não. Tive de fazer autopromoção durante muitos anos. Acabadinho de sair da faculdade, tive de investir dois a três mil euros para fazer uma edição de autor. Fui vender livro a livro, aqui em Lisboa, naquelas lojas de acessórios góticos com vestidos e pulseiras. Foi um percurso difícil. Demorado. Trabalhoso. Mas sou o exemplo de que é possível. Aquilo que costumo deixar como mensagem aos novos autores é que sejam resilientes e não desistam do sonho. Clichê. Um clichê bonito.


Por: Andreia Vaz

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