Possidónio Cachapa: “As minhas personagens às vezes são muito feias”

Os homens e as árvores têm muito mais em comum do que aquilo que à partida se pode pensar. Quem o diz é Possidónio Cachapa no seu novo romance Eu Sou a Árvore.

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Eu Sou a Árvore
Samuel é um homem forte. Um chefe de família, seguro de si e do que importa na sua vida. A sua pacata vida no campo é, contudo, abalada por um acontecimento que mudará completamente a sua vida e a dos que o rodeiam. E o cansaço e o desespero passam a tomar conta de um homem aparentemente inabalável.

Entre a literatura e o cinema, qual a arte que mais o apaixona?

Acho que, neste momento, sou geneticamente escritor. Isso é o que sou estruturalmente. Mas gosto muito do cinema. É uma arte que me interessa muito, porque é uma arte completa, que não depende só de mim. Um livro depende exclusivamente de mim. Sou eu que invento. Sou eu que crio. Sou eu que manobro a frase. Tenho o controlo mais ou menos absoluto sobre o meu trabalho. Sobre o trabalho que o leitor vai receber. No cinema não. No cinema é impossível. Dependes dos atores. Dependes do diretor de fotografia. Dependes se consegues aquele espaço ou não. Dependes do orçamento que tens. Se tiveres um maior orçamento, podes fazer mais segundo a tua visão. Se tiveres pouco, vais ter de fazer de outra maneira qualquer. Depende de muitas coisas, mas eu gosto disso. Gosto dessa capacidade de adaptação que o cinema traz e que a literatura tem mas de uma forma diferente. O cinema é adaptação; a literatura é flexibilidade do escritor. Tenho de ser flexível e aberto ao que a escrita me diz. Mas não adapto, interpreto.

A natureza tem uma forte presença no seu trabalho. Considera-se um homem do campo ou da cidade?

Definitivamente não sou um homem da cidade. Antes de tudo o resto existir já havia natureza. Antes do Homem já havia natureza. E depois do Homem vai continuar a haver. A cidade é só uma construção. A natureza vai-se regenerando por ela própria e a cidade não. Mesmo nas cidades, as plantas já lá estavam antes dos prédios. E quando eles vão abaixo as plantas voltam a aparecer, tal como antes.

De que forma a sua vida e as pessoas à sua volta estão presentes nos seus livros?

A minha vida está toda presente nos meus livros. Como dizia Vargas Llosa, “um escritor é alguém que faz um striptease ao contrário”. Isto quer dizer que nós falamos daquilo que nos preocupa ou que nos interessa. Mas criamos uma série de ficções para que o leitor não perceba que afinal somos só nós a perguntar. Nesse sentido, os livros são profundamente egoístas. As pessoas acham que os livros são escritos para elas, mas na verdade não são. Os livros são escritos para que o próprio escritor aprenda coisas sobre a vida. Sobre os processos. Sobre as coisas que ele não percebe.


As pessoas acham que os livros são escritos para elas, mas na verdade não são. Os livros são escritos para que o próprio escritor aprenda coisas sobre a vida.


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

À Descoberta ou Estou Vivo Todos os Dias. O problema é que provavelmente o Pedro Chagas Freitas vai-me roubar este nome.

O que é para si um bom livro?

É um livro que eu goste de ler. Um livro que me prenda do princípio ao fim. Que eu não queira deixar. E que tenha pena quando estiver a chegar ao fim. E o tente esticar. Tem de ser bem construído. Porque o autor conseguiu criar um universo e atrair-te para dentro dele. E o universo é de tal maneira fascinante que não te queres ir embora. Estás bem lá dentro. E “bem” não significa “confortável”. Podes estar desconfortável. Pode ser um romance de terror. Pode ser um romance fantástico. Pode ser um romance muito deprimente. Ou muito trágico. Ou muito dramático. Mas tu queres saber mais. Não te queres ir embora sem saber mais. Esses são os livros de que gosto e os livros que tento construir.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Costumo ler várias coisas ao mesmo tempo e, sinceramente, não me lembro de qual foi o último livro que li. Neste momento ando a ler Um Copo de Cólera. Embora seja um livro pequenino, estou a demorar algum tempo a lê-lo. É um bom livro. Nota-se a influência de Proust. Tem frases longas e bastante complexas, ao contrário dos meus.

Não tem uma rotina habitual de escrita. Espera pela inspiração para começar a escrever?

Sim e não. A inspiração é necessária. Mas também é necessário o esforço de lhe dares oportunidade de se manifestar. Havia uma escritora – não me lembro quem – que dizia: “Eu sento-me todos os dias diante da máquina de escrever para que a inspiração me apareça.” Ela tinha esta rotina porque sabia que era a única maneira. Se aparecer, vai ter de escrever. Agora, do que escreves há uma parte que é boa e inspirada e outra não. Às vezes escreves para meter no lixo. Deves dizer o que tens a dizer, e há dias em que tens alguma coisa para dizer, noutros só escreves e mandas para o lixo. Escrever é deitar fora. Isso podia ser um conselho para os mais jovens. Qualquer senhor ou senhora escreve 500 páginas e publica. Agora, 500 páginas interessantes é muito difícil.

 

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O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Sempre a computador. Nunca faço nada à mão. Quanto muito, tiro notas num bloco e depois perco-o. Faço logo tudo diretamente no computador.

Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Não, nunca planeio nada. Sou o meu primeiro leitor. Vou descobrindo e o leitor depois descobre comigo, seguindo exatamente o mesmo caminho que eu segui. Escrevo os livros desde o princípio até ao final tal como ele o lê. Embora possa haver saltos no tempo. Analepses. Pode haver tudo isso, mas o livro é escrito como é lido. Quando começo, não sei como acaba. Nem sei para onde vai. É isso que me diverte. E saliento a palavra “diverte” porque acho que os livros têm de ter este lado de prazer. Um livro que não te dê alguma espécie de prazer não está a comunicar contigo. Tens de gostar de estar com o livro, ainda que ele seja duro ou dramático. Não precisa de ser uma risota.

Esteve sete anos sem publicar nenhum romance. Porquê tanto tempo?

Porque os romances levam tempo a escrever. E porque estive a fazer cinema. Fiz uma longa-metragem, um documentário chamado Adeus à Brisa, que estreou no DocLisboa. Dirigi também uma adaptação da minha primeira história, que se chama O Nylon da Minha Aldeia. Tem andado pelos festivais, pelo mundo fora. Por outro lado, acho que cada vez levo mais tempo a escrever. Para escreveres bem tens de ter tempo. Não é possível escrever bem e rápido. Não existe. A não ser seja o teu primeiro livro. Mas isso não é por ser rápido, é só porque andava há tanto tempo dentro de ti que, quando sai, sai de jato. A partir do primeiro livro, não é possível. Não há nenhum livro bom que seja rápido. Não conheço nenhum. Os melhores livros são de autores maduros que perceberam os ritmos da vida e usaram esse tempo. Os livros espontâneos fazem-se uma vez. Os outros não são espontâneos, são construções elaboradas e lentas. E é aí que me posiciono agora. Não vão haver livros escritos em seis meses. Nunca mais na minha vida. Nem nunca houve, na verdade. Em menos de dois anos, no mínimo, não haverá livros.

Como lhe surgiu a ideia do seu último livro, Eu Sou a Árvore?

A ideia deste livro surgiu-me através de uma imagem. A imagem do protagonista, Samuel, que é um patriarca de família e de quem toda a gente esperava que se mantivesse firme e inabalável. Quase como uma árvore que está enraizada. A imagem que me apareceu foi precisamente o momento – que, na verdade, é logo o primeiro capítulo – em que o Samuel fica fragilizado. Isto é, ele a rachar-se. Como a ideia de uma árvore que se racha quando é atingida por um raio. Está fragilizado e chora e diz que está cansado. Escrevi um livro para tentar responder a uma pergunta: porque é que Samuel está tão cansado?

O que têm os homens e as árvores em comum?

Os homens e as árvores são seres que partilham uma parte do mesmo tempo. Porque as árvores tendem a durar mais. Partilham a natureza. Estão cá no planeta e têm coisas semelhantes. Têm a questão dos ramos. Os homens também se estendem. Estendem os seus ramos à luz. E também tentam lançar sementes para a terra. O homem julga contrariar a sua mortalidade ao lançar sementes. Só que isso é normalmente em vão, porque a vida termina para todos nós. Era como se os homens fizessem um processo artificial. Cobriam-se de frutos para parecerem árvores grandiosas. Mas mesmo as árvores grandiosas morrem. E os frutos têm uma época. Têm uma estação. Têm um tempo de gestação. As árvores conhecem os ritmos da natureza. Os homens não. Os homens acham que controlam a natureza e o tempo. Eu acho que essa é a grande diferença. O resto é muito semelhante. Ambos respiram. Ambos comunicam. Ambos se dão melhor agrupados com outros seres. Ambos estão em simbiose com o seu universo de dar e receber. Há muitas semelhanças.


Não há nenhum livro bom que seja rápido. Não conheço nenhum. Os melhores livros são de autores maduros que perceberam os ritmos da vida e usaram esse tempo.


Eu Sou a Árvore tem como pano de fundo o Alentejo. Pode, de alguma forma, ser considerado um regresso às origens?

Nunca deixamos de ser aquilo que somos. E as nossas raízes – usando uma imagem vegetal – permanecem. Todos nos modificamos. Somos diferentes todos os dias. Desde o momento em que começámos esta conversa até ao momento em que estou a emitir esta frase, houve células do meu corpo que morreram. E outras que nasceram. Portanto eu já não sou o mesmo que começou esta conversa. Nesse sentido, estamos sempre a modificar-nos. Contudo, há uma parte de nós que é a das nossas primeiras experiências. Das primeiras coisas que vimos. E isso nunca sai de nós. Pode ser o Alentejo. Pode ser, para outras pessoas, os Açores. O interior dos Estados Unidos. Varia. Mas nunca sai. Portanto a resposta é não. Não é um regresso às origens, porque as origens nunca saíram de mim.

Há quem identifique nos seus livros um certo realismo mágico. Onde está a magia na nossa realidade?

Por todo o lado. A magia é tu estares aqui a conversar comigo, neste momento. E é entendermo-nos. A magia é teres um período da tua vida em que podes existir. Eu acho que isso é mágico. É como se tivesses todas as potências do mundo. Tens em ti todo o teu potencial. Podes ser o que quiseres. A magia é essa. Não é uma magia no sentido de transformação, de coisas ilusórias, isso não me interessa nada. Não sei se há ou se não há. Não me interessa.

As pessoas falam em realismo mágico porque tento mostrar que há sempre um outro lado das coisas. As coisas não são apenas aquilo que são. São aquilo que são em função da pessoa que as está a observar. Da pessoa que as maneja. Tu podes olhar uma pedra no meio de um campo e achares que é apenas uma pedra. Mas para outra pessoa aquilo pode ser uma evocação de um deus. Pode ser encarada do ponto de vista utilitário. Ela vai utilizar aquela pedra num muro para a sua casa. E assim sucessivamente.

Quando falam em realismo mágico, acho que estão a tentar “encaixar”. As pessoas que escrevem muitas vezes e que trabalham sobre o trabalho dos outros precisam de caixinhas. Quando tu sais da caixinha, elas ficam perturbadas porque não têm nome para isso. Há pessoas que lidam bem com o ato de não ter nome, outras não. A maioria não. A maioria precisa de pôr um rótulo. Porque o rótulo é fácil de perceber. Acontece que os homens são muito maiores do que o rótulo que lhe possas meter. Não há nenhum homem nem nenhuma mulher que seja só aquilo que tu achas que ela é. Ela é aquilo que tu conheces e aquilo que tu não conheces. E aquilo que ela própria não conhece sobre si.

Tentar encaixar e dizer que fulano escreve sobre realismo mágico é tentar metê-lo numa caixinha que já existe. Para aquela pessoa essa caixinha serve, mas não corresponde à realidade. Estão a exercer uma espécie de irrealismo mágico ao dizer isso.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Sim. É um livro que estou a escrever há 10 anos. Provavelmente vai ser um romance histórico, mas ainda não sei bem. Tal como disse, não planeio nada do que escrevo. A história vai surgindo por si.

 

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Para quando teremos uma adaptação de mais um dos seus livros ao cinema?

Não sei quando, mas sei que o próximo será Materna Doçura. O argumento já está escrito e já está a concurso. Um dia destes vai obter financiamento e, quando isso acontecer, vai ser o próximo adaptado por mim. Não quer dizer que não haja adaptações por outras pessoas. Por mim, é esse que quero adaptar agora. É um filme difícil. É um livro complexo e um filme ainda mais complexo. Há coisas que posso dizer, mas quando são mostradas ganham um outro significado. Tem de se jogar com tudo isso. Mas é um desafio.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Não há uma parte má em ser escritor. Na verdade, só vejo coisas boas.

Então o que há de bom em ser escritor?

Ser escritor tem várias vantagens. A primeira vantagem é termos uma arte que nos dá tempo para ser concretizada. Um pintor não passa muitos anos à volta de um quadro. Pode levar, mas é raro. Mas um escritor pode estar vários anos. Esse lado é uma vantagem, porque é como se tivesses tempo para perceber coisas da vida. Isso é bom. Por outro lado, também permite receber o testemunho de outras pessoas. Dos teus leitores. Eles identificam-se e depois trazem-te, no seu testemunho, partes da sua vida. Dizem que se ligam a uma personagem por isto ou por aquilo. Isso é muito bom. É muito bonito que as pessoas espontaneamente se liguem a qualquer coisa. O ato de ser escritor tem um lado muito humano. No sentido em que eu o entendo, que é o de um escritor que está aberto e em contacto com os leitores. E depois pagam-me para inventar, o que é maravilhoso. Posso mentir à vontade. Pagam-me para mentir.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

O primeiro, e um dos mais difíceis, é que eles percebam que são uma pessoa numa linhagem que vem de trás e que vai para a frente. Não são únicos. Nós não inventámos o mundo. Não inventámos a escrita. Não inventámos a ficção. Há pessoas a contar histórias desde o tempo em que se sentavam à volta de uma fogueira depois de matarem um bisonte e recontavam o ato. Esses eram os primeiros escritores.

Não estou a inventar o mundo nem a literatura, mas vou dar o meu testemunho. É quase como se fosse a abertura dos Jogos Olímpicos e há uns tipos que levam a tocha olímpica. Há um momento em que a tocha olímpica passa para a tua mão. É o teu tempo de vida. E tu tens um espaço de vida para carregares aquela tocha eventualmente mais longe. Há pessoas que não avançam, andam às voltas. Põem-lhes a tocha na mão e começam a andar em círculo. Acontece. Outros levam-na um pouco mais longe. Mas um dia vão passá-la a outros. Precisam de ter essa noção da sua própria mortalidade e do seu papel, que é mínimo.

Segundo conselho – esse é o mais difícil, sobretudo se fores muito jovem e acreditares que és eterno. Tem a ver com a ideia de que tens de falar a verdade. Não podes descrever o mundo como achas que ele devia ser. Tens de descrever o mundo como consegues perceber que é. Não quer dizer que seja assim. Quer dizer que estás a fazer um esforço honesto de descodificação do mundo. Se estás a falar verdade ou não, não sabemos. Podes estar profundamente enganada. Eles têm de ser honestos e ser honesto, às vezes, quer dizer que tens de mergulhar no lado feio das coisas. Num lado feio de ti próprio.

As minhas personagens às vezes são muito feias. Às vezes dizem palavrões, que eu nunca digo. Às vezes matam pessoas, que eu em princípio também não mato. Às vezes são más para as outras, que eu tento não ser. Às vezes são mesquinhas, que eu também tento não ser. Mas elas são, e eu tenho de respeitar isso. A minha personagem principal, que até pode ser um herói, de repente tem um ato absolutamente mesquinho. Porque naquele momento tem de o ter. Porque está na sua natureza. Porque está irritado com qualquer coisa. Eu tenho de respeitar. Mesmo que isso me contrarie. E às vezes escreves um romance inteiro com coisas que detestas. Por exemplo, o romance que escrevi antes deste: O Mundo Branco do Rapaz Coelho. Nesse livro, a personagem principal vai ao fundo dos infernos. Torna-se o pior ser humano que é possível tornar-se. Isso foi muito violento para mim, mas não podia deixar de o colocar assim. Discordo totalmente dele, mas ele não me pediu para o escrever. Eu é que o quis escrever, e tenho de respeitar isso.

Esse é o conselho que dou. Sejam humildes. Escrevam. E lembrem-se que escrever 50 mil palavras não é nada. Têm de escrever mais 500 mil para que aquilo comece a funcionar bem.


Entrevista: Andreia Vaz
Fotografias: Luís Catarino/4SEE

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