Paul Auster: “Ser escritor é como uma doença”

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O finalista do prémio Man Booker 2017 conversou com a revista Estante sobre o seu aclamado romance 4 3 2 1, mas também sobre Donald Trump, o papel do jornalismo e… filmes antigos.

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“Não podemos escolher ser escritores. A profissão escolhe-nos a nós”, garante Paul Auster, que esta semana passou por Portugal para apresentar o seu mais recente (e volumoso) romance, 4 3 2 1, no Festival Internacional de Cultura, em Cascais. E não podemos fazer essa escolha, explica o americano, “porque ser artista de qualquer tipo é algo que se apodera de nós. É como uma doença. Somos infetados cedo e nunca recuperamos”.

Paul Auster é a prova viva disso mesmo. Com 70 anos de idade – e 50 de carreira – continua a escrever furiosamente, ou não tivesse lançado há bem pouco tempo este livro com quase 900 páginas que acompanha quatro vidas paralelas de um único homem, Archie Ferguson. “A mesma pessoa, nascida em diferentes circunstâncias, tornar-se-á diferente. Parece claro. Se nascermos num tempo de paz e prosperidade, provavelmente iremos tornar-nos o nosso melhor ser. Mas se nascermos numa guerra, isso irá certamente mudar a forma como a nossa vida se desenrola”, elucida o autor.

Algumas das suas experiências pessoais foram “aproveitadas” para contar as quatro histórias de Ferguson mas, frisa Paul Auster, esta não é, de todo, a sua história.

“Eu peço emprestadas coisas da minha própria vida, mas sempre fiz isso. E acho que todos os escritores fazem isso. Por exemplo, para o apartamento dos avós do Archie em Nova Iorque usei o apartamento dos meus avós, em West 58th Street. Um dos Ferguson vai para a Universidade de Columbia e eu também lá andei, mas ele escreve para o jornal da universidade e eu nunca fiz isso. É o meu tempo, são os meus lugares, mas não sou eu.”


Este livro é um elefante, mas um elefante de corrida.


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Na verdade, são “quatro romances num só livro”. Mas desengane-se quem pensa que se trata de uma difícil leitura. “Acho que o livro é, na realidade, muito rápido. Não está repleto de detalhes estranhos. É um elefante, mas um elefante de corrida, e cada capítulo não se prende a coisas que são irrelevantes. Eu tinha centenas de outras personagens e histórias, mas afastei-as”, revela Paul Auster.

Impôe-se uma questão: “Qual dos Archie Ferguson é o seu preferido?” Mas o escritor de Sunset Park e A Trilogia de Nova Iorque diz-se incapaz de escolher. “Gosto de todos de igual forma. Um romancista tem de amar as suas personagens. Temos de suspender o nosso julgamento e entrar na cabeça destas pessoas. O ato de escrever um romance passa por nos abandonarmos a nós mesmos. Tornamo-nos invisíveis. E sem esta ligação emocional com as personagens, não vejo como é possível escrever”, alerta.

É esta experiência de intimidade – não só entre o escritor e as personagens, mas também entre o escritor e o leitor – que, defende Paul Auster, garante (e garantirá) a sobrevivência da literatura. “Um livro é o único lugar no mundo onde dois estranhos se podem encontrar em absoluta intimidade. E isso não se aplica a qualquer arte, porque vamos ao cinema com outras pessoas, vamos a concertos com outras pessoas, vamos a museus com outras pessoas. Mas, para lermos um livro, temos de estar sozinhos, ou pelo menos desligar do que nos rodeia. Não vejo isto desaparecer. Consigo imaginar os filmes a acabar antes de os livros acabarem.”


Donald Trump é raivoso, irracional, instável e narcisista.


Falemos agora do tempo. Um importante fator neste romance, que se desenrola entre 1947 e os anos 60, retratando fenómenos tão marcantes como os movimentos racistas e as manifestações sociais.

Será possível estabelecer algum paralelismo com os dias de hoje? Paul Auster responde que sim. “Pela primeira vez nos últimos 50 anos as pessoas parecem estar a mobilizar-se. Acho que a vitória de Donald Trump chocou as pessoas, e agora estão mais atentas.”

É este homem “raivoso, irracional, instável e narcisista”, que tem um “talento tremendo para dizer coisas muito estúpidas”, que leva o autor a defender com unhas e dentes a profissão dos jornalistas.

“O trabalho dos jornalistas é chegar ao fundo de toda a verdade. Acho que não há trabalho mais importante para o bem-estar do mundo do que o jornalismo. E os jornalistas estão sob ataque em muitos lugares. Pensem naqueles que foram assassinados no México, nos que foram capturados na Turquia e agora o Trump está a atacar a imprensa vezes sem conta. É isto que os líderes autoritários fazem: atacam a imprensa e quebram a fé das pessoas. Por isso, acho que esta é uma altura em que precisamos do jornalismo mais do que nunca. Não consigo pensar numa profissão mais nobre.”


Quero continuar a escrever até cair para o lado.


 

 

Que título daria a um livro
sobre a sua vida?

“Nos últimos quatro anos falei com uma professora de literatura dinamarquesa que é especialista no meu trabalho. Ela vinha a Nova Iorque de vez em quando e tínhamos conversas sobre cada um dos meus livros. O título para resumir tudo isso, que foi uma ideia minha, foi Uma Vida em Palavras. Talvez esse também seja o título da história sobre a minha vida.”

O americano que aprendeu com “mestres” como Dickens, Dostoiévski, Tolstói, Melville, Kafka ou Proust está há um mês a circular pela Europa para apresentar 4 3 2 1. Mas agora, cansado, está ansioso por chegar a casa, em Nova Iorque, para voltar à sua rotina de escrita. “Acordo de manhã, tomo o pequeno-almoço – geralmente sumo de laranja, chá e uma torrada –, leio o jornal e vou para o quarto na minha casa onde costumo trabalhar, por volta das 8h30 ou 9h00. Trabalho durante umas três ou quatro horas. Depois faço uma pausa, almoço, dou um passeio e volto para o quarto, onde trabalho até por volta das 17h00.”

Fá-lo religiosamente, durante horas a fio, por uma razão simples: “Muitas vezes, as dificuldades que tenho de manhã são resolvidas à tarde, depois da pausa e do passeio. Por isso, preciso das duas partes do dia. E, quando acabo, tento esquecer o livro.”

Como? Juntamente com a sua mulher, a escritora Siri Hustvedt, Auster recosta-se no sofá e… vê filmes antigos. “Temos um canal maravilhoso na América que é o TCM. A versão europeia não é tão boa, mas na América é durante 24 horas, sem anúncios, só filmes, filmes, filmes. Adoro-os e a maior parte deles são dos anos 30 e 40.”

Distrações à parte, Paul Auster já pensa no seu próximo livro. Já tem, até, algumas revelações a fazer. “Não será um romance, porque ainda não estou pronto para isso. Tenho de tirar este do meu sistema primeiro. Mas tenho ideias para histórias num cantinho da minha cabeça, a flutuar como sombras, e estou a começar a ouvir sussurros. Não acho que esteja a acabar e certamente não quero acabar. Se vou voltar a escrever um livro tão grande quanto este outra vez… quem sabe? Duvido. Mas quero continuar a escrever até cair para o lado.”


Por: Carolina Morais

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