Nuno Nepomuceno: “Prefiro acreditar que a morte de João Paulo I não foi um ato premeditado”

Nuno Nepomuceno tem um novo thriller baseado na vida – e, mais concretamente, na misteriosa morte – do Papa João Paulo I. Em conversa com a Estante FNAC, conta o que o levou a querer explorar esta história.

A Morte do Papa baseia-se na morte do Papa João Paulo I, cujo papado durou 33 dias, como indica na capa.

Ou 34 [risos].

Precisamente. O mistério perdura quanto a isso. Foi isto que o levou a escrever esta história?

Normalmente, quando estou a escrever um livro, acaba sempre por me surgir uma ideia para o próximo. No entanto, isso não aconteceu quando estava a escrever A Última Ceia. Como vinha de uma série de livros dedicados a religião, decidi ir à procura de mistérios sobre a Igreja e achei que a morte de João Paulo I, por todas as más explicações que foram dadas pela Santa Sé, tinha todos os ingredientes para um thriller.

Como descreveria o processo de pesquisa para esta obra se a ideia não foi planeada e surgiu da própria pesquisa?

A minha pesquisa assenta sempre em duas vertentes: a da teoria, em que faço uma pesquisa sobre os temas que quero desenvolver e normalmente surgem logo ideias para o enredo, e a pesquisa espacial, que geralmente me leva aos locais onde se passa a história. Comecei a escrever o livro com os conhecimentos que tinha da cidade [do Vaticano], mas mais tarde senti necessidade de regressar para confirmar algumas coisas sobre a Praça de São Pedro e pesquisar outros locais.

Trabalho de campo.

Sim, é um trabalho de campo. E normalmente nesses momentos também vão surgindo ideias.

A base do livro são as incongruências na história apresentada pela Santa Sé, desde a questão sobre quem terá encontrado o corpo do Papa até à hora da sua morte. Na sua opinião, o que justificará estas incoerências por parte do Vaticano? Terão mesmo algo a esconder?

A versão oficial tem muitas lacunas, mas acho que a Igreja Católica não sente necessidade nem obrigação de se explicar. Deram uma explicação oficial e apoiaram mesmo essa explicação em factos médicos que depois não se verificaram, nomeadamente as dificuldades físicas pelas quais o Papa deveria ter passado nos dias anteriores à morte e que alguns médicos desmentiram. Porque é que o fizeram? Há várias hipóteses em torno do caso.

E o Nuno? Acredita na versão oficial, que afirma que a morte do Papa foi natural, ou acha que há outra explicação?

Acho que a morte pode não ter sido premeditada, mas que existe a possibilidade de ter sido um acidente e de ter sido apenas “mascarada” através de todos aqueles detalhes que a Santa Sé passou para o público, como a questão de o Papa ter sido encontrado com um sorriso no rosto e um livro nas mãos.

Depois veio a saber-se que afinal não era um livro, mas sim um conjunto de papéis.

Exatamente. Tentaram embelezar um pouco a morte de João Paulo I, talvez até pelo respeito que lhe tinham. Eu prefiro acreditar que não foi um ato premeditado, encomendado por alguém, mas sim um acidente que a Santa Sé encobriu para proteger alguém lá dentro.

Em 1978, o mundo ainda não estava preparado para acolher ideias como a adoção de crianças por casais do mesmo sexo ou os bebés-proveta.

O Papa João Paulo I era conhecido pela sua afabilidade. Mas tinha também ideias bastante progressistas. É possível até fazer um paralelo com o Papa Francisco.

Sim, são dois Papas com mentalidades muito diferentes daquilo a que estamos habituados.

Acha que seria tão revolucionário como o atual Papa? Teria sido bom para a Igreja Católica e conseguido implementar as mudanças a que agora assistimos?

Penso que teria passado por inúmeras dificuldades para introduzir essas mudanças. Acho que naquela altura, em 1978, talvez essas mudanças tivessem chegado cedo demais. O mundo ainda não estava preparado para acolher ideias como a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, bebés-proveta, entre outras – tudo temas que Albino Luciani não condenava. Talvez fosse um homem um bocadinho à frente do seu tempo, mas que por ter plantado essas ideias abriu caminho ao Papa Francisco.

Além do nome do pontífice, que no livro se chama Mateus I, vários detalhes da história que aqui apresenta são ficcionados. O que inspirou as diversas teorias da conspiração que apresenta?

Peguei nos acontecimentos da noite da morte de João Paulo I, transpu-los para a realidade e depois fui buscar outras histórias para completar os espaços vazios. Embora algumas pareçam ficcionadas, a verdade é que não são. O caso do delator, por exemplo, foi inspirado no caso do Rui Pinto.

Acabei por ir buscar retalhos de várias histórias e combinei todas. A forma como foram coladas dependeu um pouco da inspiração do momento. Normalmente, aquilo que faço é estabelecer o início do livro e a forma como vai terminar.

Então funciona um pouco como aqueles leitores que vão ler a última página mal leem a primeira? Pensa no início e no fim e só depois faz o caminho entre os dois?

Sim. Eu sabia perfeitamente quem seria o culpado da morte do Papa no meu livro, mas não sabia tudo o que iria acontecer no intermédio. Desta forma sei sempre onde vou chegar, mesmo que faça alguns desvios pelo caminho – e faço muitos.

Dou um exemplo: escrevi o segundo capítulo de A Morte do Papa antes do primeiro, que só foi escrito depois de ver numa revista, por mero acaso, uma fotografia da Praça de São Pedro, mas vista da varanda da Basílica. Isso levou-me a pensar: e se o Papa Mateus estivesse aqui?

Acontece o mesmo com as personagens? Podem ser inspiradas na pessoa que conheceu no café ou no amigo de longa data, por exemplo?

Por acaso isso não costuma acontecer. A maior parte das personagens de A Morte do Papa não tem um rosto definido. O Afonso, por exemplo, nunca teve uma cara definida. Mas eu sei como ele é fisicamente.

Estou a tentar superar-me de livro para livro.

A propósito de Afonso, em A Morte do Papa voltamos a contar a presença dele e de Diana, que já conhecíamos de A Célula Adormecida. Esta escolha é uma forma de os leitores se conseguirem identificar mais com o livro ou provém apenas da sua paixão por estes dois personagens?

Acho que há algum egoísmo na escolha, porque é essencialmente emotiva.

Quando escrevi A Célula Adormecida estava a começar do zero e decidi criar uma personagem com um passado negro, que era o caso do Afonso. Ele transformou-se numa personagem que me permite fazer diversas coisas e que facilmente associo a temas religiosos. Comecei então a interessar-me por estes temas e a escrever mais livros sobre religião. E o denominador comum era sempre o Afonso, o que continuará a acontecer enquanto houver uma história para contar sobre ele.

A Diana acaba por surgir um pouco por acréscimo. Vou continuar a utilizá-los enquanto achar que faz sentido, mas estou um pouco indeciso acerca do que fazer no próximo livro.

Isso significa que já está a preparar o seu próximo livro?

Tenho algumas ideias. Muitas delas vieram de temas que não cheguei a abordar em A Morte do Papa. Agora terei de fazer uma escolha entre escrever mais uma história sobre o Afonso ou pegar em personagens de A Morte do Papa e escrever um livro independente. Ando a pensar nisso.

A presença da religião na sua obra é clara, tendo-se focado, nos últimos anos, em thrillers religiosos. Algum motivo especial para esta preferência? É uma pessoa religiosa?

Fui educado de forma religiosa e sou católico, embora seja pouco praticante. O tema da religião surgiu com A Célula Adormecida e, na altura, senti que a introdução do islamismo no livro o valorizou imenso. Por isso decidi manter-me nesse registo. Estou a tentar superar-me de livro para livro.

Há pessoas que se sentem ofendidas pelo livro apenas devido ao tema.

A religião é um tema bastante sensível. A aceitação dos portugueses tem sido positiva ou este tema continua a suscitar alguma tensão?

Continua a suscitar alguma tensão. A religião é um daqueles temas sobre o qual achamos que sabemos tudo e acreditamos em dogmas sem saber porquê. E, por isso, há pessoas que se sentem ofendidas pelo livro apenas devido ao tema.

Então já houve comentários sobre A Morte do Papa?

Já. Algumas olham para o título e acham que eu desejo mal ao Papa. Ou que eu escrevi uma história sobre a morte do atual Papa.

Portanto é literalmente julgar um livro pela capa?

É isso mesmo. Até costumo dizer, na brincadeira, que não fui eu que matei o Papa!

E como lida com estas críticas?

Não me fazem grande diferença, até porque não é a primeira vez que acontecem. Curiosamente, da parte da Igreja não houve qualquer tipo de comentário até à data. Até já houve um padre a pedir-me um livro autografado.

O Nuno é controlador aéreo, mas faz questão de deixar clara a seriedade com que encara a escrita. A longo prazo gostaria de se dedicar inteiramente aos livros ou não consegue despedir-se dos aviões?

Eu gosto do meu trabalho enquanto controlador de tráfego aéreo, mas se um dia tiver volumes de vendas tão altos que possa ser escritor a tempo inteiro então tomarei essa decisão. Não estou aborrecido com aquilo que faço, mas é uma questão de qualidade de vida.

A escrita era um sonho seu desde muito jovem. O que acordou o “bichinho” e o fez começar a escrever?

O desejo de escrever um livro deriva essencialmente do meu gosto pela leitura desde criança. E, sinceramente, sentia curiosidade de ter o poder de manipular a história. Porque é que esse passo não foi dado mais cedo? Porque sempre tive noção de que ser escritor em Portugal é difícil e que a maior parte dos escritores portugueses tem uma segunda atividade. Então decidi ter uma vida mais estável antes de avançar.

Quando já trabalhava por turnos e tinha mais tempo livre, nasceu O Espião Português, que demorou oito anos a escrever.

Mas quando começou a escrever já sabia que se iria tornar um livro?

Sim, o objetivo sempre foi escrever um livro e publicá-lo. E quando o terminei percebi logo que queria continuar com a escrita. Continuo a achar que tenho muitos livros dentro de mim.

E se tivesse de escolher um livro, aquele que nunca se cansaria de ler, qual seria?

Os Pilares da Terra, de Ken Follett. Acho que é um bom livro para qualquer pessoa.

Por: Inês Pereira
Fotografias: Margarida Rosa

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