Nelson DeMille: “Se não servisse no Vietname, duvido que me tivesse tornado escritor”

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Nelson DeMille tem um novo romance, escrito pela primeira vez em conjunto com o seu filho Alex DeMille. Falámos com ambos sobre O Traidor.

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O enredo de O Traidor é muito semelhante à história de Bowe Bergdahl, soldado americano que desertou em 2009. Inspirou-se neste episódio para escrever o livro?

Nelson DeMille – O enredo é, de facto, muito semelhante à história da deserção de Bowe Bergdahl no Afeganistão, mas só pensei nisso mais tarde. O que aconteceu foi que a minha editora americana me pediu que criasse uma nova série em coautoria e eu propus uma série sobre a Divisão de Investigação Criminal do exército dos Estados Unidos, o CID. Depois criei os dois personagens do CID: Scott Brodie e Maggie Taylor.

Foi nesta altura que necessitei de um enredo para o primeiro livro da série e havia muitas possibilidades capazes de levar os nossos protagonistas até qualquer ponto no mundo onde o exército dos Estados Unidos se encontra. Decidi, enfim, ficcionar o caso de Bowe Bergdahl porque, sendo eu próprio um antigo oficial do exército, intrigou-me e perturbou-me a sua deserção. Quis examinar as suas razões no romance.

Acabei por perceber que os seus motivos não eram assim tão interessantes – nem muito claros –, por isso o Alex, meu filho e coautor, criou um desertor mais complexo e perigoso, o Kyle Mercer.

Tal como referiu, o Nelson foi primeiro-tenente no exército dos Estados Unidos e chegou a servir no Vietname. Essa experiência influenciou a forma como vive e escreve os seus livros?

Nelson DeMille – Costumo dizer que, se não tivesse servido como oficial de Infantaria no Vietname, duvido que me tivesse tornado escritor. A minha geração cresceu a ler os romances de Ernest Hemingway, Norman Mailer, James Jones, Erich Maria Remarque, John Dos Passos e muitos outros romancistas da Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Por isso, quando regressei da minha guerra, estava inspirado a seguir as pegadas destes grandes escritores.

O meu primeiro romance de guerra foi rejeitado pelos editores, mas aprendi a minha arte e acabei por escrever Word of Honor e Up Country, ambos sobre o Vietname – embora não sejam verdadeiramente romances de guerra.

De que mais se recorda dos seus primeiros tempos enquanto escritor, nesta altura em que é um dos autores mais lidos do mundo?

Nelson DeMille – Tive uma sorte extraordinária na minha carreira de escritor, bem como a vantagem de morar em Nova Iorque e de conhecer algumas pessoas no ramo editorial. Quando o meu romance de guerra foi rejeitado, escrevi um policial. Depois de alguns anos de policiais, escrevi o meu primeiro grande romance, By the Rivers of Babylon, publicado em 1978. Foi um bestseller nacional e internacional. Senti que os meus anos a escrever romances policiais “menores” melhoraram a minha escrita.

Deu o nome de “Área 51” ao seu estúdio de escrita. Tal como as atividades desta base, também os seus livros são inteiramente confidenciais até serem publicados?

Nelson DeMille – Chamo-lhe “Área 51” porque a localização é secreta. Estou num pequeno prédio de escritórios e o meu nome não se encontra na porta nem em lado nenhum. Vivo e trabalho numa pequena cidade de Long Island, em Nova Iorque, e se as pessoas soubessem onde é o meu escritório passariam por lá para me visitar. E nenhum escritor quer visitantes inesperados!

Isso significa que nos pode revelar desde já alguma coisa sobre o seu próximo livro?

Nelson DeMille – Geralmente não mantenho os meus projetos em segredo e fico feliz em discuti-los. Estou atualmente a escrever um livro, provisoriamente intitulado The Maze. É um livro protagonizado por John Corey, o oitavo nesta série de sucesso.

Neste novo livro, Corey regressa ao local do primeiro livro da série, A Ilha do Medo. Agora que já não trabalha como detetive de homicídios, Corey aceita, de forma relutante, uma proposta para um trabalho como investigador privado. Parece-lhe desinteressante mas, como é evidente, cedo se encontra numa situação perigosa e emocionante.

Além desse, também estou a trabalhar com o Alex no segundo livro protagonizado por Scott Brodie e Maggie Taylor.

Os anos a escrever romances policiais ‘menores’ melhoraram a minha escrita.

Têm muitos fãs em Portugal. Alguma vez estiveram no nosso país?
Alex DeMille – Nunca estive, mas o meu pai já e tenho vários amigos que visitaram Lisboa nos últimos anos e falaram muito bem da beleza da cidade e da hospitalidade dos portugueses. Gostaria muito de visitar Portugal um dia destes.
Nelson DeMille – Estive em Portugal três vezes, a última das quais num cruzeiro, em maio de 2019. Adoro o país, a cultura, a comida e as pessoas. Lisboa tornou-se uma das minhas cidades europeias favoritas e estou ansioso pela minha próxima visita.
O Alex é o coautor deste novo livro, O Traidor. Quando é que a sua família percebeu que saía ao pai na apetência para a escrita?

Alex DeMille – Sempre elogiaram a minha escrita, embora tenham de lhes perguntar a eles se era apenas um encorajamento carinhoso ou se os elogios eram mesmo sinceros. Eu escrevi – e li – bastantes contos na minha adolescência e juventude. Aprecio o formato e gostava que fosse mais popular atualmente. 

Na verdade, o Alex não escreve apenas livros, também escreve para filmes – além de os realizar e editar. O que têm em comum estes dois tipos de narrativa?

Alex DeMille – Costuma dizer-se que um filme é feito três vezes: primeiro quando o argumento é escrito, depois quando é filmado e, por fim, quando é editado. Ou seja, embora um argumento seja um plano, muito provavelmente a construção final desviar-se-á dele devido às muitas interpretações que o teu trabalho pode gerar por parte de outros colegas criativos. Um romance, por sua vez, é feito não três mas milhares ou milhões de vezes, já que cada leitor interpreta as tuas palavras no seu interior.

Ambos apelam à imaginação do leitor, mas com um argumento esse apelo é muito estreito, focado e, de certa forma, utilitário. E, ao contrário do que acontece com as peças de teatro, muito poucas pessoas irão ler um argumento, mesmo no caso de um filme de estrondoso sucesso.

Permaneço constantemente ciente e em reflexão sobre estrutura narrativa enquanto escrevo um argumento, quer queira ou não. Há uma certa expectativa em relação a estruturas padrão na indústria e, se violarmos as regras, é bom que o justifiquemos através da qualidade do nosso trabalho. Não senti a mesma pressão enquanto escrevia O Traidor.

Tínhamos uma maior “tela” para escrever o que considerávamos interessante ou entusiasmante, bem como para ver e sentir onde a história nos levava. Ao escrever um romance, temos sempre de considerar o ritmo e a estrutura, é claro, mas não é algo que nos domine como por vezes acontece na escrita de argumentos.

O que ambos os formatos têm em comum é a necessidade de bons personagens e de uma história envolvente. Não há quantidade de explosões, perseguições automóveis ou prosa florida que compensem alguma lacuna nestes elementos.

Podemos esperar um filme baseado em algum dos vossos livros?

Alex DeMille – Não temos notícias de Hollywood no que respeita a uma adaptação ao cinema ou à televisão. No entanto, já li alguns argumentos baseados nos livros do meu pai. Eu próprio escrevi um, baseado no romance Spencerville. Percebi, com essa experiência, que as adaptações são muito mais difíceis do que parecem. Mas seria certamente interessante ter o meu próprio trabalho interpretado para cinema ou televisão.

Por: Inês Pereira
Fotografia: John Ellis Kordes

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