Mikaela Övén: “Mais do que aprender, a parentalidade consciente consiste em desaprender”

Apaixonada pelo mindfulness, Mikaela Övén confessa que aprendeu com o primeiro filho a aplicar aquilo que hoje chama de parentalidade consciente. Depois de Educar com Mindfulness e Heartfulness, decidiu desmistificar a fase mais “turbulenta mas maravilhosa” da vida no seu terceiro livro, Educar com Mindfulness na Adolescência.

Este é o terceiro livro em que a Mikaela aborda o mindfulness e o segundo em que aplica o conceito à educação e à parentalidade. Porque decidiu voltar a escrever sobre este tema?

Depois do livro Educar com Mindfulnesstive imensos pedidos, muito especiais e incentivadores, no sentido de voltar a escrever sobre o tema. Tudo o que se encontra no livro é totalmente aplicável a qualquer relação com crianças, no entanto decidi abordar em pormenor a relação (ou a falta de relação) que se tem com um adolescente.

Que contributo particular é que o mindfulness pode trazer para a fase da adolescência?

Pode trazer para os pais, principalmente. Escrevo sempre do ponto de vista da utilização da prática mindfulness por parte dos pais, para que se possam conhecer melhor e para que estejam mais atentos a eles mesmos. Com o aumento de autoconsciência e de autocuidado, os pais vão conseguir conectar-se melhor com os adolescentes e, desta forma, criar uma melhor relação.

A necessidade de abraçar este conceito partiu, de alguma forma, do stresse do dia a dia que nos impede de parar e prestar atenção a nós próprios?

Muitas vezes assumimos os papéis de profissionais e de pais e esquecemo-nos de quem somos. O mindfulness ajuda a resgatar as pausas da vida, a parar e a pensar: “O que quero realmente? O que é realmente importante? Qual é a minha intenção? O que tenho de fazer agora?”

Estamos constantemente a remoer o passado, aquilo que fizemos e de que nos arrependemos, aquilo que achamos que devíamos ter feito, ou a pensar no que vamos fazer no futuro e esquecemo-nos desse: “OK. Parar. E agora?”

O mindfulness permite-nos criar esse espaço entre a emoção e a reação e ajuda-nos a tomar (e fazer) escolhas conscientes. O psiquiatra Viktor E. Frankl afirma que, entre o estímulo e a resposta, existe um espaço onde reside a nossa capacidade de escolha e também a nossa felicidade, liberdade e aquilo que queremos criar.

Nesta fase da vida, caracterizada por um constante turbilhão de emoções, é difícil chegar a um consenso sobre a forma como pais e educadores devem lidar com os desafios da adolescência?

Esquecemo-nos das questões fundamentais e focamo-nos demasiado no comportamento certo ou errado. Ao verificarmos comportamentos errados, procuramos estratégias para lidar com o jovem, de modo a que tenha o comportamento certo, e esquecemo-nos que pelo meio existe aqui uma relação. É nessa relação que está a solução.

Antes de embarcar neste projeto fiz um inquérito a quase 100 jovens que identificaram a questão central: “Não me sinto vista/o por quem sou, os pais só querem saber das notas, só querem saber se eu me portei bem ou mal, se comi, se estou de acordo com as expectativas.”

Acredito que, devido à correria do dia a dia, passamos a infância das crianças a gerir comportamentos, a tentar que as crianças se portem bem em situações sociais, que se deitem quando dizemos “deita-te”, que façam sempre tudo o que queremos e sejam muito obedientes. Gerimos esses comportamentos com castigos, recompensas, mas os pais muitas vezes não percebem que essas estratégias de castigos e recompensas na realidade não funcionam.

De que forma é que este comportamento pode ser prejudicial para a educação?

É prejudicial para todos. Para a relação da família e para o bem-estar e saúde mental, tanto dos jovens como dos pais. Porque os pais obviamente amam os filhos e querem o bem deles, mas preocupam-se com os aspetos errados – e fazem as perguntas erradas.


Os pais não percebem que estratégias de castigos e recompensas não funcionam.


No livro a Mikaela revela que também passou por uma fase em que cuidava mal de si, sentia ansiedade, stresse, e tinha “tendências limitadoras” em relação à parentalidade. Como se libertou destas amarras?

O primeiro passo foi ser abençoada por um filho que questionava tudo e que mostrava que aquilo em que eu acreditava era pouco consciente e que fazia as coisas por achar que era o que devia fazer, sem questionar nada. Depois comecei a explorar teorias à volta da parentalidade e estudei Jesper Juul, um terapeuta familiar dinamarquês. Foi aí que me reencontrei com a meditação e o mindfulness.

Com a correria do dia a dia sentia que, como mãe, não tinha espaço mental ou emocional para realmente pensar nas verdadeiras questões. O mindfulness ajudou-me a parar, a pensar e a criar aquele espaço que precisava para fazer as perguntas certas e as coisas de forma consciente.

Foi durante esta fase que se deu o grande clique para a sua mudança de vida, quando fundou a Academia de Parentalidade Consciente. Enquanto coach e principalmente enquanto mãe, como carateriza um adolescente?

Adoro adolescentes. A adolescência é uma fase da vida onde os valores se começam a tornar realmente importantes. Os adolescentes são mais livres no seu pensamento e são muito bons a apontar as nossas incongruências porque começam a perceber o mundo de uma forma diferente. Por isso é que é tão difícil lidar com eles: sentimo-nos postos em causa porque, segundo os estereótipos culturais, os adultos têm mais razão do que eles.

A adolescência é um tempo turbulento mas maravilhoso. Acho que uma das coisas que temos de desmistificar é a ideia de que a adolescência é um tempo necessariamente difícil. Com este livro, quero tentar mudar a forma como descrevemos a adolescência.

Quando os pais a procuram já trazem hábitos enraizados ou encontra neles uma abertura à mudança?

Quando vêm falar comigo, os pais já têm ideias pré-concebidas sobre a adolescência, crenças que os limitam na forma como se relacionam com o adolescente. No entanto, existe alguma abertura para uma abordagem diferente. Mais do que aprender, a parentalidade consciente consiste em desaprender. É importante “descascarmo-nos” das crenças culturais, porque a educação é muito mais cultural do que outra coisa.

Qual é o primeiro passo para alguém que ainda não refletiu sobre parentalidade consciente?

A principal pergunta é: “Qual é a minha intenção?” Mas para algumas pessoas pode ser mais fácil responder: “Porque é que faço o que faço?” Aí começamos a perceber porque fazemos o que fazemos. E pensamos: “Porque é que tem sido tão importante para mim que o meu filho estude numa secretária sozinho no quarto?” Se calhar não é a melhor forma para ele estudar. Se calhar ele estudaria muito mais se pudesse ter algumas escolhas nessa organização.

Ao expor casos reais no livro, a Mikaela está também a expor as divergências sobre a parentalidade que caracterizam a sociedade portuguesa?

Sim.

Sente que há uma grande diferença entre a realidade portuguesa e a sueca no que toca à educação nos mais novos? 

Sim, há uma diferença. Mas quero reforçar também que os suecos não são de todo uma utopia. No que toca à parentalidade também há muito trabalho a fazer, apesar de terem ido mais longe em alguns pensamentos.

Acho que a principal diferença é que na Suécia entende-se melhor o que é a prática do igual valor. Há uma menor necessidade de imposição e de hierarquia, o que não quer dizer que seja permissivo porque também é importante percebermos que parentalidade consciente não é de todo uma parentalidade permissiva. No fundo, as nossas emoções, pensamentos, opiniões, desejos e necessidades têm o mesmo valor, em adultos ou em crianças. Mas isso não quer dizer que temos de nos comportar de qualquer maneira.

Temos o direito de nos exprimir — e tanto crianças como adolescentes têm formas de expressão que não são ecológicas, que influenciam negativamente as pessoas à volta ou mesmo eles próprios. Jesper Juul afirma que o nosso papel na adolescência é sermos sparring partners [parceiros de treino], como os treinadores de boxe que têm aquelas luvas e o pugilista que bate nas luvas. Mas o treinador não bate, só está com as luvas. E nós, enquanto pais, precisamos de oferecer resistência sem magoar.


Temos de desmistificar a ideia de que a adolescência é necessariamente difícil.


Confessa que não sabe se é mais difícil ser adolescente hoje ou no seu tempo. A evolução de que o mundo foi alvo desde a sua adolescência contribuiu para o agravamento do fosso entre gerações?

Acho que sim. Está a contribuir para esta falta de relação e para que cada um esteja em lados opostos. Hoje em dia coloca-se muita pressão que não é justa nas crianças e nos jovens. E essa é uma pressão contraditória porque, ao mesmo tempo que exigimos que os jovens assumam certas responsabilidades, também queremos estar sempre a controlá-los. Há muita pressão e pouco espaço para eles poderem ser eles próprios.

A dada altura a Mikaela escreve: “A pressão social está constantemente presente e atrevo-me a dizer que nunca foi tão grande.” Esta pressão origina um sentimento de competição constante não só entre adolescentes mas também entre pais e, consequentemente, formas diferentes de educar?

Certamente. As expectativas e o que achamos que é importante são diferentes. Muitos pais vivem através do sucesso dos filhos, gostam de poder dizer que o filho está a estudar e que tem grandes notas. Isto acaba por determinar a felicidade do pai. Vivemos muito as vidas que não conseguimos viver e queremos que os nossos filhos vivam por nós. Estamos muitas vezes a ser a mãe ou o pai de nós próprios e dos nossos filhos.

Refere que o livro não ensina a educar crianças, mas sim a saber estar e comunicar. Que conselhos daria aos pais de primeira viagem?

Começar a fazer perguntas. “Qual é a minha intenção? Quero que o meu filho seja feliz, que desenvolva empatia, que seja honesto, que possa ser livre e possa ser quem é?” São tudo questões que ouço os pais colocar.

Agora está muito na moda falar sobre sermos quem somos e encontrarmo-nos e os nossos propósitos. A minha pergunta para uma mãe ou pai, se essas são coisas que querem oferecer ao vosso filho, é: quem querem ser para que isso possa acontecer?

Se quero que o meu filho se sinta aceite por quem é, dar-lhe palmadas não funciona. “Será que o que estou a fazer encaixa nas minhas intenções?” Este é o ponto de partida. O resto é praticar mindfulness: fica contigo, faz pausas, reflete.

No livro escreve que fazer pausas é realmente importante…

É muito importante porque as pessoas acham que, ao praticar mindfulness, têm de meditar durante muito tempo, todos os dias, e ter uma almofada… Mas não, não precisam de nada disso. Precisam é de parar e todos os dias temos várias oportunidades para isso. É importante fazer esse treino e, se o fizermos em momentos neutros, nos momentos turbulentos vamos conseguir utilizar esse músculo que estamos a treinar.

Revelou que, para escrever este livro, consultou vários outros sobre a adolescência, tanto em língua inglesa como escandinava. Quais são os livros que aconselha?

Aconselho o livro da Philippa Perry, The Book You Wish Your Parents Had Read (and Your Children Will Be Glad That You Did). E ainda outro, Brainstorm, de Daniel J. Siegel. São livros excelentes, os melhores livros sobre a adolescência.

Há mais um que recomendo, que não é diretamente sobre parentalidade mas que acho espetacular neste contexto: A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown.

Foi esse o último que leu?

Não, o último foi The Drama of the Gifted Child, de Alice Miller.

Por: Inês Martins
Fotografia: Marta José/Dreamaker Photography

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