Melissa Fleming: “As pessoas esquecem-se que qualquer um pode tornar-se refugiado”

melissa-fleming-revista-estante-fnac

A porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados acaba de lançar um livro sobre essa causa. Em conversa com a Estante, partilha uma história de coragem, elogia António Guterres e revela futuros planos com… Steven Spielberg.

Uma Esperança Mais Forte do que o Mar

Uma Esperança Mais Forte do que o Mar
Melissa Fleming
Esta é a história de Doaa, jovem síria que, com apenas 19 anos, fugiu da guerra civil no seu país e atravessou o Mediterrâneo de barco com centenas de outros refugiados. A sua embarcação foi atacada e, mesmo sem saber nadar, conseguiu sobreviver quatro dias e quatro noites agarrada a uma boia. Viu morrer mais de 500 pessoas, entre elas o seu noivo, mas conseguiu salvar a vida de uma bebé.

No livro Uma Esperança Mais Forte do que o Mar, em vez de se focar em factos e números sobre refugiados, conta-nos a história de uma menina, Doaa. Acha que as pessoas estão habituadas a olhar para os refugiados como estatísticas e que, por isso, lhes falta sensibilidade?

Sim, acho que falta uma ligação aos seres humanos que estão por detrás dos números e das estatísticas. O que se ouve frequentemente é o número de pessoas que fugiram dos conflitos, quantos refugiados existem no mundo e quantos estão a caminho dos nossos países. E, na maior parte das vezes, ou isso provoca apatia ou medo. É isso que os políticos da extrema direita estão a provocar. Pensam: “Talvez eu possa usar estes grandes números de refugiados para conseguir votos.” Por isso, para mim, enquanto porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados [ACNUR], quero criar compaixão para com os refugiados. Contar uma história é a única forma de o fazer.

Como e quando conheceu Doaa?

Conheci-a quatro meses depois de ela ter sido resgatada, em janeiro de 2015. Li sobre a história dela nos média e era tão extraordinária que quis ir conhecê-la. Voei para a ilha de Creta [Grécia] e encontrei-me com ela.

O que a inspirou mais na história de Doaa?

Acima de tudo, o facto de ela ter conseguido sobreviver física e psicologicamente, depois de ter estado quatro dias e quatro noites no mar Mediterrâneo, depois de ter perdido o amor da sua vida em frente dos seus olhos, de ter visto 500 pessoas a morrer à sua frente – mães, pais, avós, crianças. E ainda assim, conseguiu salvar uma bebé. Achei uma história absolutamente incrível.


Como é possível fecharmos as nossas portas e as nossas fronteiras a pessoas que estão a fugir da guerra e da perseguição? É errado, é contra a humanidade.


Se tivesse de definir a força de Doaa em três momentos, quais escolheria?

O momento em que ela foi para a rua protestar, apesar de o ambiente ser muito violento. A altura em que decidiu ultrapassar o seu medo da água e atravessar o Mediterrâneo de barco, em busca de um futuro mais seguro e esperançoso. E quando sobreviveu durante todo aquele tempo na água, enquanto outras pessoas estavam simplesmente a desistir, a cometer suicídio, a tirar os seus coletes salva-vidas e a deixar-se afogar, por puro desespero. Ela não desistiu, porque queria salvar aqueles dois bebés [um deles morreu mais tarde].

Quando decidiu transformar a história de Doaa num livro para partilhá-la com o mundo?

Primeiro, fiz uma TED Talk sobre a história dela e reparei na reação da audiência, tanto na sala como on-line. Foi muito claro para mim que esta história tem impacto nas pessoas e que me poderia ajudar a contar uma história maior. Havia muito mais a dizer do que aquilo que foi dito nos 19 minutos da TED Talk.

Falei com uma agente que me contactou e perguntei: “Será que isto é um livro?” E ela respondeu: “Sim, isto é um livro.” Foi assim que tudo nasceu. Ela ajudou-me a encontrar uma editora e, na verdade, houve muito interesse. Houve até um leilão, e acabei por escolher a MacMillan [em Portugal, os direitos pertencem à Porto Editora], porque tinham interesse não só em que o livro fosse publicado, mas que vivesse muito para além disso. Correu muito bem e a minha agente conseguiu vender os direitos a muitos países, incluindo Portugal, o que me deixa muito feliz.



A coragem de Doaa já lhe valeu comparações a Malala Yousafzai. O que acha desta comparação?

Está absolutamente correta. Ela era adolescente, muito pequena, e sobreviveu agarrada a uma boia. Não estava a pensar em si própria, mas nas vidas das bebés que queria salvar. Foi altruísta, mas sempre com uma incrível vontade de viver quando toda a gente à sua volta estava a morrer.

Como olha para esta “cultura do medo” que as sociedades estão a cultivar contra os refugiados?

Deixa-me muito triste e zangada, porque a narrativa que se está a usar é errada, manipulativa e… é uma mentira, em muitos sentidos. Acho que as pessoas se esquecem que qualquer um de nós pode tornar-se refugiado. Pode acontecer-lhe a si. E se olhar para a sua própria história, para a história da sua família, provavelmente encontra casos de refugiados. A Segunda Guerra Mundial não foi assim há tanto tempo… Por isso, como é possível fecharmos as nossas portas e as nossas fronteiras a pessoas que estão a fugir da guerra e da perseguição? É errado, é contra a humanidade, e deixa-me triste ver que os refugiados estão a ser usados para ganhar votos.

Existem mais de cinco milhões de refugiados sírios nos países vizinhos e o problema está longe de ser resolvido. Qual é o seu principal objetivo enquanto membro do ACNUR?

Construir pontes de empatia através de histórias e angariar não só essa compaixão, mas também apoio aos refugiados, seja apoio político ou individual, que possa inspirar as pessoas a agir na sua comunidade, a doar o que possam. Basicamente, quero fazer com que as pessoas se importem.


Admiro António Guterres por muitas razões diferentes: por ser politicamente experiente, por ter uma mente brilhante, mas sobretudo por se preocupar genuinamente e por ter colocado todo o seu coração, espírito e energia no trabalho de Alto Comissário das Nações Unidas.


Por que decidiu começar a trabalhar com refugiados?

Foi uma causa de conquistou o meu coração. Quanto mais trabalhava a seu favor, mais me rendia. Estas são as pessoas mais vulneráveis do mundo. Tenho estado a trabalhar em sítios como a Bósnia e vejo aquilo que a guerra faz às pessoas. Aprendi que o pior que nos pode acontecer, além de perdermos um ente querido, é perdermos a nossa casa, a nossa comunidade, o controlo da nossa vida. É deixarmos de ser o realizador da nossa própria vida, sentirmo-nos impotentes e sermos obrigados a ir para um país estrangeiro onde podemos ser recebidos com hostilidade. Por isso, poder trabalhar para ajudar estas pessoas que são vítimas da guerra, é um privilégio e absolutamente necessário.

Esteve lado a lado com António Guterres no combate a este problema. Como foi trabalhar com ele?

Adorei trabalhar com ele! É muito exigente. Os meus filhos que o digam, que ele ligava quase todas as noites a perguntar: “Viste isto que deu na televisão?” Ele está sempre atento ao que se passa e é fantástico trabalhar com alguém que admiramos.

Eu admiro-o por muitas razões diferentes: por ser politicamente experiente, por ter uma mente brilhante, mas sobretudo por se preocupar genuinamente e por ter colocado todo o seu coração, espírito e energia no trabalho de Alto Comissário das Nações Unidas. Não o fez por ele, mas sim pelos refugiados. E agora, enquanto secretário-geral, ele quer tornar o mundo um lugar mais pacífico, igualitário e sustentável. É o homem certo para esse trabalho.

Acha que as tensões políticas que temos sentido recentemente, especialmente entre Estados Unidos e Coreia do Norte, poderão agravar ainda mais a crise dos refugiados?

Bem… certamente que existe o risco de que novas guerras sejam provocadas e iniciadas. Sempre que existe um conflito há pessoas que sofrem, civis que sofrem e que têm de abandonar o seu país para se salvarem. Por isso, nós no ACNUR e o senhor Guterres estamos a trabalhar no sentido de encontrar soluções políticas, e não militares, para os conflitos.


Os bons livros nunca nos abandonam e influenciam a nossa vida. Podem ser muito poderosos e transformadores.


Inspirou-se em algum livro ou autor para escrever o seu próprio livro?

Houve um livro que me inspirou. Chama-se Enrique’s Journey e foi escrito por uma jornalista americana [Sonia Nazaro] que eu também admiro. Ela acompanha o percurso de um menino que parte das Honduras em direção aos Estados Unidos. É um exemplo de como uma história singular – e este menino viajou no cimo de um comboio e também experienciou coisas horríveis – pode ser usada para contar uma história maior. 

Quão poderosos podem os livros ser para combater problemas globais como o da crise dos refugiados?

Acho que os livros podem ser incrivelmente poderosos. Quando temos um livro nas mãos, passamos várias horas embrenhados na história. É muito mais profundo do que quando estamos na Internet ou quando vemos as notícias. Quando lemos, até temos uma capacidade de memória diferente, retemos a história de forma muito melhor. Acho que os bons livros nunca nos abandonam e influenciam a nossa vida. Por isso, sim, os livros podem ser muito poderosos e transformadores.

Faz parte dos seus planos escrever outros livros?

Nunca sequer pensei que alguma vez iria escrever um livro, mas quem sabe? [risos] Neste momento, acho que ainda há muito para fazer com este livro. As edições internacionais estão agora a ser lançadas e vou visitar vários países, não só para falar sobre a história da Doaa, mas também sobre a causa dos refugiados. E, brevemente, vamos começar a trabalhar num filme. O Steven Spielberg e o J. J. Abrams querem adaptar o meu livro ao grande ecrã. Ainda há muito para fazer.


Por: Carolina Morais
Fotografia: Jonas Baptista

Gostou? Partilhe este artigo: