Maria Teresa Maia Gonzalez: “Tudo o que acontece no contexto familiar é fundamental para a nossa felicidade”

Fotografia: Bruno Colaço/4SEE

Candidata ao prémio literário sueco Astrid Lindgren Memorial Award (ALMA) 2016, Maria Teresa Maia Gonzalez é conhecida por livros como A Lua de Joana e O Guarda da Praia. Mas o seu trabalho como escritora é muito mais vasto.

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Veja o vídeo desta entrevista.

 


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Deus e Eu. É um livro que já existe.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Há autores que leio e releio sempre com um prazer renovado. Colocaria em primeiro lugar a Sophia de Mello Breyner Andresen, sobretudo nos seus livros de poesia que vou revisitando, mas também em prosa. Há autores contemporâneos portugueses que me fascinam, que me encantam, que me ensinam muita coisa. Como o Tolentino Mendonça, por exemplo, entre outros. Gosto de ir fazendo também descobertas de novos autores, portugueses e não só, e há muitos por onde escolher.

O que é para si um bom livro?

Um bom livro é um livro que me ajuda a crescer. É um livro que me faz pensar ou sentir e preferencialmente as duas coisas. Se assim for, ajuda-me a crescer.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Eu leio mais do que um livro ao mesmo tempo. O último livro que li chama-se O Rapaz do Caixote de Madeira. É escrito por um sobrevivente… Não sou capaz de me lembrar do nome. Quando entro em contacto com o sofrimento, com a forma como as pessoas reagem ao sofrimento, isso é uma grande lição de vida para mim.

Este meu interesse enorme por esse momento da História e por todas as pessoas que são perseguidas, seja qual for a razão, ajuda-me a encarar os sofrimentos que vão surgindo e os das pessoas que me são próximas de outra forma. Ajuda-me a relativizar. Nós queixamo-nos de muitas coisas. Algumas delas se calhar não têm assim tanto valor ou tanta importância. Nessa medida, penso que é um passo em frente no crescimento para percebermos como houve seres humanos que foram capazes de vivenciar e sair como sobreviventes de situações impensáveis de tão desumanas.

O livro não é de nenhum autor conhecido, foi mesmo um testemunho direto de um sobrevivente, e é extraordinário como as pessoas conseguem passar [por experiências assim] e mais extraordinário ainda é não encontrarmos nessas pessoas e nesses relatos resquícios de rancor, de ódio, de vontade de vingança. Isso é absolutamente extraordinário. Ajuda-me muito a crescer verificar como é possível ser perseguido e ser tratado de forma tão desumana até à crueldade impensável, inimaginável, e manter a dignidade. Manter uma esperança. Nunca deixar morrer a esperança, que é outra lição de vida extraordinária.

Eu tenho uma coleção enorme de livros sobre a Segunda Guerra, sobre o problema do Holocausto. Como é possível que pessoas como esses judeus na altura do Holocausto e agora, por exemplo, os cristãos que estão a ser perseguidos na Síria e noutros lados, e outros indivíduos que estão a ser perseguidos por outras razões – porque há-os sempre em todo o lado –, como é que essas pessoas mantêm a esperança de encontrar a paz, de encontrar sossego, de encontrar uma vida digna e não desistem? Era tão mais fácil entregar-se e desistir. É um valor extraordinário que essas pessoas têm. Para mim, são uma lição extraordinária de vida.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Começo logo de manhã, muito cedo, a escrever. Habituei-me desde sempre a levantar-me muito cedo. Durante três anos estive como aluna num colégio com internato e habituei-me a essa rotina. Depois, como professora, o horário também começava às 8h20. Gosto de me levantar cedo. É de manhã que eu tenho maior rendimento, sem dúvida. Depois trabalho também ao longo da tarde. Evito escrever à noite. Sei que é romântica a ideia de se pensar que as pessoas escrevem à noite, mas quem está a trabalhar durante o dia, à noite está realmente cansado. Sobretudo ao computador, os olhos ficam cansados. E escrevo todos os dias. Exceto aos domingos.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Se for em poesia, sempre à mão. Senão, diretamente no computador. A única coisa que eu faço à mão é quando estou a escrever poesia. Quando faço planos de trabalho, se são livros de histórias infantis, normalmente são à mão. Quando são para livros maiores, já são feitos a computador. O resto, toda a narrativa e a ficção, é sempre a computador.


“Quando começo a escrever, às vezes as personagens surpreendem e sou eu que vou atrás delas.”


Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Não. Faço um plano de trabalho. Às vezes tenho de alterar certas partes do plano que chego à conclusão que não vão funcionar. Quando começo a escrever, às vezes as personagens surpreendem e sou eu que vou atrás delas. Isso acontece às vezes e depois a coisa vai para outro caminho e, quando é assim, eu não ofereço muita resistência e sigo atrás da personagem. Há personagens com personalidades muito fortes, algumas de que eu não gosto absolutamente nada.

Como lhe surgiu a ideia do seu último livro?

A Missão do Francisco é um outro livro que faço sobre esta realidade das famílias muito… feridas. Eu não gosto muito da palavra “desestruturadas”, embora a use às vezes. A estruturação… O que é isso de uma família “estruturada” e “não estruturada”? Agora “feridas”… Há famílias que estão muito feridas. E quando se pensa em “feridas”, as pessoas pensam logo que se trata de separação dos pais, divórcio… Não só.

As feridas não têm só a ver com o que se passa no casal, mas também com o que se passa, por exemplo, entre os irmãos, na relação dos pais com os filhos e vice-versa. Há feridas muito grandes que precisam de ser saradas e, queiramos ou não acreditar (e eu penso que queremos), a família é realmente um eixo muito importante na nossa vida e tudo o que acontece nesse contexto é fundamental para a nossa felicidade.

Eu falo recorrentemente deste tema, das feridas que surgem no seio da família e que é urgente sarar. Nós não podemos desistir disso. E eu também vi isso como professora muitas vezes. Jovens que estavam muito perturbados. Muito perturbados. Não tinha a ver com dificuldades a nível intelectual, mas com as dificuldades do seu viver em casa. Sabemos que na adolescência é normal que os jovens tenham problemas no relacionamento com os adultos, sobretudo com os pais. Isso é uma coisa. Outra coisa é quando se torna insustentável o clima. Aí começam-se a abrir feridas que podem ter repercussões para o resto da vida e às vezes têm mesmo.

É muito importante tentar sarar essas feridas, falar de esperança, dizer que há caminhos e que desistir uns dos outros não é solução. Essa é a ideia de A Missão do Francisco. Não se pode desistir. Há aqui nesta história um pai e um tio que não se falam, que deixaram de se falar por uma questão de heranças, acontece tantas vezes, e a família inteira sofreu com isso: os primos deixaram de se dar, deixaram de estar juntos em casa da avó, os natais e as festas acabaram. Os mais novos não percebem porque é que isto acontece assim. Sentem isso como uma injustiça – e é uma injustiça, de facto.

E são feridas que, se ninguém fizer nada, se a esperança morrer, vão continuar assim até ao fim. Às tantas as pessoas já nem sabem porque estão zangadas, porque deixaram de se falar, mas o que é certo é que se separaram totalmente. E não faz sentido, isto. É um tema de que eu falei neste último livro e de que provavelmente vou continuar a falar, porque é recorrente, está sempre a vir à tona.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Em termos de trabalho, o penoso é a correção. Quando acabo um trabalho, a vontade é não olhar mais para ele. E naturalmente, como acontece com outros autores, tenho de ter uma certa distância do texto para encontrar erros. Se for logo a seguir corrigir, não vejo erros. Deixo passar duas semanas, três semanas, às vezes mais, e volto lá e encontro imensos. Entretanto, queria estar a fazer outra coisa. Porque já tenho outros planos de trabalho, já estou a começar e queria desligar-me daquilo.

É engraçado, como professora a experiência era diferente. Corrigir os trabalhos dos alunos, classificá-los, era extremamente estimulante. Havia esse fator da esperança: com esta correção, este aluno vai deixar de dar este erro. Mas quando é a correção do nosso próprio trabalho, não é a parte mais interessante, será talvez a menos. Embora seja muitíssimo útil. Aliás, é imprescindível. O resto é tudo uma grande aventura.

Mergulhar na escrita é sempre uma aventura extraordinária, porque é sem rede, a pessoa mergulha ali e não sabe muito bem como é que aquilo vai correr, mas mergulha com esperança.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Que escrevam. Muito. Muito. Muito. Naturalmente a leitura é muito importante, mas geralmente o que eu digo quando me fazem essa pergunta é que, além de escrever, de treinar o ato da escrita, que é muito importante, é convidar as pessoas a escreverem sobre as realidades que conhecem melhor. Não estou a dizer para não escreverem sobre ficção científica, por exemplo. Não é isso. Mas acho que quando as pessoas partem das realidades que conhecem melhor – não quer dizer que se tenham passado diretamente consigo, mas no seu contexto mais próximo de relações – têm mais possibilidades de escrever de modo a tocar no outro que vai ler. Ajudar a crescer. Acho que isso é importante.

Há pessoas que vão pesquisar para escrever e isso é fundamental, naturalmente, quando se está a falar de livros científicos, livros técnicos e até outros nos quais é preciso fazer uma pesquisa histórica, por exemplo, ou no campo da arte. É muito válido. Mas quando se trata de um jovem que me faz essa pergunta: escreve sobre aquilo que conheces. Escreve sobre as tuas perdas, as tuas dores, os teus medos. Esse é um grande exercício em que a pessoa se abre. Primeiro que tudo, tem de olhar para dentro. Tem de fazer silêncio. Olhar para dentro e para o que custa ver.

E depois ser capaz de escrever sobre isso da forma que entender. Porque na escrita, como dizia a Sophia de Mello Breyner, “o poema é a liberdade”. E não é só o poema que é a liberdade. Nós escrevemos como somos. Temos essa liberdade de o ser também na escrita. Mas é importante partir sempre daquilo que se conhece. Quando assim se faz, creio que se tem mais possibilidade de chegar aos outros. Se quisermos, noutra linguagem, tem-se mais possibilidade de se ter sucesso com o seu trabalho.

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