Maria Ribeiro: “Só escrevo com o revólver na cabeça”

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Ainda se revê essencialmente como atriz, embora confesse que gostaria de escrever um romance. Maria Ribeiro vai lançar um novo livro – de cartas – em março de 2017. “Gosto da intimidade”, confessa.

Trinta e Oito e Meio
Este é um livro de crónicas, através do qual fazemos uma viagem de sete anos pela vida de Maria Ribeiro. Conhecida principalmente pela sua participação no filme Tropa de Elite, a autora aborda temas como a idade, os casamentos e divórcios, os filhos, a doença da mãe, a morte do pai, a importância dos amigos e tantos outros assuntos do nosso quotidiano.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

A minha principal influência literária foi Rubem Braga, grande cronista brasileiro. No Brasil havia uma coleção chamada Para Gostar de Ler, só com textos curtos de grandes escritores como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e o próprio Braga. Devia ter uns 10 anos. Ali percebi a grandeza do dia a dia, e me dei conta de que um simples café podia virar uma viagem épica, dependendo de como você olhava pra ele. Depois Machado de Assis e Eça, pelo humor fino e o olhar agudo para as respetivas sociedades.

O que é para si um bom livro?

Um bom livro é o que me permite descansar de mim. Quando mergulho de tal forma na história que esqueço a condição de leitora. Também fico muito feliz quando redescubro uma palavra ou quando ela ganha novo sentido. Gosto de ver a “língua” dançar…

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

O último livro que li foi A Vida Privada das Árvores, de Alexandro Zambra. Uma história comum, mais de fracassos do que de vitórias, cheia de perguntas sem respostas, e com a presença da relação autor-leitor muito evidente. Adorei.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Não tenho uma rotina de escritora, sou um caos no quesito da disciplina. Por isso só escrevo com o revólver na cabeça, o prazo como inspiração. Preciso mudar isso já. A única coisa certa é que só me concentro pela manhã. Com o ar fresco, sinto que me conecto de alguma forma com uma energia “de criação”…


Adoro a intimidade. Cada pessoa que a gente conhece a fundo é um país.


O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Escrevo no computador, sempre. Sou bem visual. Adoro poesia concreta. Palavras são coisas.

Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Nunca penso antes no que vou escrever, infelizmente. Mas às vezes passo por uma situação inspiradora e já sei que ali tem um texto em potencial.

Como lhe surgiu a ideia de Trinta e Oito e Meio? Ou melhor, das reflexões que ali estão?

As crónicas que compõem o livro foram escritas para uma revista e para um jornal. O livro veio como uma consequência.

Começou a escrever o livro aos 33 e escreveu a última crónica já com 40. O que mudou nesses sete anos?

Vejo uma mudança significativa na minha escrita. Fui ganhando mais liberdade, mais humor e mais dor. Perdi meu pai e alguma inocência… E agora tenho vista cansada.

No texto “1460 dias de Instagram” fala do impacto das redes sociais nos nossos dias. Estamos demasiado presos às redes sociais e demasiado alheados da realidade?

Sou uma adicta do Instagram, é a minha grande tragédia. Certamente leria muito mais e sairia muito mais de casa não fossem as redes sociais, mas não sei se por isso me sinto alienada da realidade.

É mais reconhecida como atriz do que como escritora. Os dois mundos complementam-se ou são opostos?

Acho que a profissão de atriz encontra-se com a de escritora no sentido de que as duas dedicam-se a dramaturgia. Eu gosto de contar histórias. De contar e de ouvir. Mas ainda sou essencialmente uma atriz.


A pior parte do ofício de escrever é a solidão.


Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

O meu próximo livro sai em março. Serão cartas. Adoro a intimidade. Cada pessoa que a gente conhece a fundo é um país.

Gostaria de, um dia, escrever um romance?

Adoraria escrever um romance, mas temo que meu lance seja mesmo a egotrip.

Qual é a pior parte de se ser escritora?

A pior parte do ofício de escrever é a solidão.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que a estejam a ler?

Para quem quer escrever, o importante é ler. Ler e não ter medo de não ser genial. A coragem é redentora, e a simplicidade de se ouvir e falar do que se sente nos protege da superficialidade.


Por: Catarina Sousa

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