María Hesse: “Queria carregar a nossa sexualidade de conotações positivas”

Depois das biografias de David Bowie e Frida Kahlo, a escritora e ilustradora espanhola María Hesse debruçou-se sobre a sua própria sexualidade no seu mais recente livro. Em entrevista, fala-nos melhor sobre O Prazer.

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O tema das mulheres é uma constante no seu trabalho desde que se iniciou no mundo da ilustração.

Porque é o tema que melhor conheço. É normal que falemos sobre o que vivemos e de como nos afeta, um tema tão silenciado e discriminado. Acaba por sair como um modo natural de expressão.

Mas já confessou que O Prazer foi o livro de que mais desfrutou. Porquê?

Escrever O Prazer foi a coisa mais difícil que fiz, porque nasceu de algo muito pessoal e senti que tinha de me expor muito. Mas também foi uma aprendizagem brutal. Uma redescoberta de quem sou e da minha sexualidade. E, a nível ilustrativo, desfrutei muitíssimo. Saiu de uma necessidade muito autêntica.

Diz que O Prazer é o seu livro mais íntimo e pessoal até ao momento. De certa forma, é uma autobiografia centrada no caminho para o despertar da sua sexualidade. Recorda-se de algum receio inicial, relacionado com esta exposição pessoal, que tenha tido de ultrapassar?

No início estava muito assustada. O livro parte de algo muito íntimo, que normalmente não se conta. Mas, graças à leitura de outras mulheres como Eve Ensler, Caitlin Moran ou Anaïs Nin, compreendi que era necessário narrarmos os mais pequenos detalhes para tornarmos visíveis aquilo que se esconde e que nos causou tanta vergonha e contradições.

O livro inclui uma dedicatória para as mulheres da sua família. Por outro lado, lamenta que elas não lhe tenham dado a educação sexual de que necessitava. O Prazer é uma forma de as “perdoar” e até de compartilhar o seu conhecimento com elas?

Dedico o livro às mulheres da minha família porque são o mais importante para mim. Aprendo muito com elas. Não lamento a falta de educação sexual por parte delas e não tenho de as perdoar por nada. Fizeram o melhor que sabiam e são, elas próprias, vítimas de uma educação patriarcal que as oprime. Não posso exigir-lhes algo que não me souberam dar porque elas também não sabiam que a mereciam. A beleza disto é que, agora, esse diálogo existe. E aprendemos juntas.

O Prazer saiu de uma necessidade muito autêntica.

Inspirou-se também em mulheres que souberam explorar o mistério e o poder da sensualidade e que enfrentaram os preconceitos do seu tempo, como Simone de Beauvoir, Mata Hari, Marilyn Monroe, entre outras. O que significam estes ícones para si?

Significam que as mulheres existem. A História insiste em esconder-nos ou contar erradamente como fomos. É uma forma de nos estagnar, de nos desqualificar. Mas agora há uma luta muito poderosa para as trazer novamente para a luz. Esperemos que não caiam outra vez nas sombras.

O Prazer também denuncia violações de direitos, como a mutilação genital feminina. Este e outros temas surgem rodeados de traços bonitos, flores e cores vivas, ilustrações que considera até naïve. Ou seja, contrapõe temas mais sensíveis com ilustrações subtis. É uma estratégia para melhor passar a mensagem?

O livro fala sobre coisas cruéis e violentas. Mas também fala sobre irmandade, prazer e saber que é possível uma realidade diferente. Queria que o sentimento após a leitura fosse de libertação. E queria carregar a nossa sexualidade de conotações positivas.

Partilhou algumas dessas ilustrações na sua conta de Instagram e elas foram censuradas. Como reagiu?

De facto, há alguns anos, publiquei ilustrações que foram censuradas e que no livro aparecem em versões alteradas. Essa censura foi, aliás, um dos fatores que me fez perceber que algo que eu entendia como tão natural continuava a ser tabu. Mas, até ao momento, mantêm-se todas as ilustrações que partilhei desde a publicação do livro. Vamos cruzar os dedos para que continue assim.

Este é um livro para mulheres mas também para homens. Quer deixar-lhes um convite para não perderem O Prazer?

A única indicação que dou é para que o leiam sem preconceitos. Espero que, no futuro, um livro escrito por mulheres não seja questionado sobre se é dedicado a homens ou mulheres. A eles não se pergunta.

Há muito tempo que a realidade superou os meus sonhos.

A Taschen elegeu-a como uma das melhores ilustradoras do mundo. Que significado teve para si esta distinção?

Nenhum. Nem o meu trabalho, nem o das minhas companheiras e companheiros vale menos por aparecer aí ou não. Mas à minha mãe deu-lhe uma satisfação tremenda [risos].

Apropriou-se do apelido de Hermann Hesse. Porquê este autor?

Na universidade, li vários livros dele que foram importantes para mim. Comecei a assinar como “Hesse” e acabei por o manter. Teria de o voltar a ler para ver o que me parece agora.

Depois de duas biografias dedicadas a Frida Kahlo e David Bowie e, mais recentemente, de O Prazer, já tem planos para um próximo livro?

Tenho planos para três livros [risos]. Cada um diferente do outro. Tenho muita sorte por me poder dedicar aos livros. Há muito tempo que a realidade superou os meus sonhos.

Por: Sónia Castro

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