Julia Navarro: “Conto sempre estórias sobre algo que me preocupa”

Julia Navarro apresentou recentemente em Portugal o seu último livro, História de um Canalha. A escritora espanhola diz que tem uma paixão pela história do século XX e que os temas que a inspiram são também os que a preocupam e a deixam inquieta

História de um Canalha
O mais recente romance da espanhola Julia Navarro debruça-se sobre a história de vida de um homem mau, consultor de relações públicas, que, depois do seu último problema cardíaco, resolve analisar de que forma a sua vida poderia ter sido diferente.

A sua carreira começou no jornalismo. Quando é que a literatura entrou na sua vida?

A literatura está sempre presente. É um caminho para chegar ao jornalismo. Os jornalistas contam estórias, tal como os escritores. A única diferença é que o jornalista conta estórias reais e os escritores contam estórias de ficção. Antes de escrever romances, já tinha escrito livros de política e ensaios. Chegar ao romance foi um processo bastante natural, tendo em conta que nos últimos 40 anos me dediquei muito à escrita.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Sempre admirei escritores como Balzac ou Tolstói, que contam uma estória e simultaneamente são capazes de cuidar de todo o cenário onde ocorre essa mesma estória. Ana Karenina conta-nos algo mais do que uma estória de adultério. Conta-nos como era São Petersburgo dessa época, como era a Rússia dessa época, e, sem isso, nada do que faz Ana Karenina faria sentido. Balzac fazia o mesmo. Eu conto estórias, mas nenhuma estória tem sentido se não se contar o que acontece ao nosso redor, uma vez que todos somos filhos do nosso tempo.

Isso é essencial num bom livro?

Um bom livro é um livro que nos conta uma estória bem contada. Quando os jovens me perguntam o que faz falta para ser escritor, digo sempre que faz falta ter algo para contar, mas também saber contá-lo. Não basta ter uma ideia genial. Tão importante como ter uma ideia é saber contá-la.


Um bom livro é um livro que nos conta uma estória bem contada.


Como é a sua rotina habitual de escrita?

Madrugo muito, escrevo durante grande parte da manhã e depois regresso à escrita durante a tarde. Em média, trabalho entre seis a horas horas por dia. Às vezes mais.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Sempre no computador. Mas levo sempre comigo pequenos blocos, onde anoto algumas ideias soltas que vou tendo para os livros.

Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou a estória vai-se revelando por si própria?

Primeiro tenho uma ideia, algo que me preocupa como cidadã e como autora. Depois, começo a imaginar como posso passar essa preocupação para uma estória. Assim vão surgindo os personagens e, durante três a cinco meses, vou amadurecendo as ideias. Quando já sei quando a estória começa e quando acaba, é aí que me sento a escrever.

 

 

Como lhe surgiu a ideia para História de um Canalha?

As ideias procuram-me. Nunca me sentei a pensar: “Deixa ver que ideia tenho.” Todos os meus livros respondem a uma inquietação, a uma preocupação enquanto cidadã. O meus romances falam todos de situações muito atuais: A Bíblia de Barro falava da guerra do Iraque; O Sangue dos Inocentes analisava o fenómeno do fanatismo no final do século XX e início do século XXI; Diz-me Quem Sou e Dispara, Eu Já Estou Morto eram reflexões sobre os totalitarismos, as duas guerras mundiais contadas, no primeiro caso, desde o Ocidente e, no segundo caso, desde o Oriente.

Para este novo livro, tinha o desejo de retratar a sociedade de hoje, do século XXI. Uma sociedade que está marcada pela política ao serviço da economia e não da economia ao serviço dos cidadãos. Uma sociedade que mudou nos últimos 20 anos todos os seus paradigmas através das novos formas da comunicação. Uma sociedade com uma enorme perda de valores. Este é um livro que procura fazer uma viagem a essa parte obscura e egoísta do ser humano.

Numa entrevista ao Diário Córdoba, afirmou que este foi o livro que mais lhe custou escrever. Porquê?

Porque é uma estória dura, na qual mudo a forma como a conto, colocando-me na pele do protagonista, que é um autêntico canalha. Ao meter-me na pele de alguém que não tem piedade, o processo torna-se difícil. Não foi fácil escrever este livro, mas acredito, sem dúvida, que é o meu melhor romance.

Este novo livro foge um pouco ao seu estilo habitual de escrita. O que a fez arriscar neste novo registo?

Creio que este livro é coerente com tudo o que fiz anteriormente, ainda que esteja contado de forma diferente, porque cada estória precisa de uma linguagem e uma forma distinta de ser contada. Conto sempre estórias sobre algo que me preocupa, sobre o que encontro à minha volta, e esta é uma estória do século XXI.

 

 

Em breve, Diz-me Quem Sou será uma série de televisão. O que significa isto para si?

Sempre me mostrei reticente à ideia de as minhas obras poderem ser transportadas para o cinema ou para a televisão. Nunca foi algo que me tenha entusiasmado porque eu escrevo para os leitores, não penso nos telespectadores. Como nunca estava segura de que o que queria contar nos meus livros pudesse ser transportado como eu queria para o cinema ou para a televisão, estive sempre contra. Mas o projeto que me apresentaram agora é bastante fiel ao que é o espírito do livro, pelo que acredito que devo tentar. Quando ler os guiões pode até acontecer que, se não estiver confortável, diga que não.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Sim, já o estou a escrever. Escrevo sempre sem nunca contar sobre o que estou a escrever.

Há algum período da História mundial que a apaixone?

O século XX é o que mais me apaixona. É o século no qual se passaram mais coisas, no qual se passaram duas guerras mundiais, o auge dos dois grande totalitarismos – de esquerda e de direita. Foi um século absolutamente terrível e devastador para a história da humanidade. É um século que eu preciso contar para o compreender melhor.


Não foi fácil escrever este livro, mas acredito, sem dúvida, que é o meu melhor romance.


Qual é a pior parte de se ser escritora?

Não há uma pior parte. Sempre tive a sorte de fazer o que queria e trabalhar em coisas de que gostei. O jornalismo sempre foi uma grande paixão e agora, como escritora, disfruto bastante do que faço. Há um momento, quando o livro chega às livrarias, em que nos preocupamos com o que os leitores dizem do trabalho, porque são eles que têm a última palavra. O que faz vender livros não são as críticas, mas sim o boca a boca dos leitores.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

[Risos] Tantas Coisas por Fazer. A vida é muito curta e ainda me faltam fazer muitas coisas.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Primeiro o que dizia anteriormente, que tenha uma estória para contar e que a saiba contar. Que leia, que leia muito. Que leia os clássicos da literatura universal e não apenas os do seu país. Que leia os grandes autores, porque são uma fonte de conhecimento, de inspiração e porque acredito que não se pode escrever bem sem se ter lido os clássicos da literatura.


Por: Catarina Sousa
Fotografias: Juan Manuel Fernández

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