José Rodrigues dos Santos: “Sou um popularizador”

“Sou um popularizador”

Explorar campos proibidos, desafiar dogmas, quebrar tabus. É o que move José Rodrigues dos Santos quando escreve. São já 16 livros, desde a estreia na ficção com A Ilha das Trevas. Um vício, admite. Uma paixão, assegura. Sem bloqueios, sem a síndrome da página em branco. Com uma espécie de avidez por trazer à luz do dia temas geralmente subterrâneos. Por pisar terrenos que outros autores não pisam. Como faz agora em Vaticanum.

Entrevista por Fátima de Sousa
Fotografias de Rodrigo Cabrita/4SEE


Uma espécie de mitologia

Na forja está O Reino do Meio, terceiro volume de As Flores de Lótus, que conta publicar no próximo ano. Sabe que há leitores que o gostariam de ter já na mão, mas é um livro de “grande complexidade e que, até pela temática que envolve, convém que esteja bem estribado do ponto de vista documental”. Além de que, entre o primeiro e o segundo volume, distaram apenas seis meses e, entre o segundo e o terceiro, será um ano ou um ano e pouco… “Acho que a minha média de trabalho é bastante aceitável”, comenta. Não ignora que há quem o critique exatamente pelo contrário, lançando dúvidas sobre a autoria dos romances: “Uns dizem que é a minha mulher que escreve, outros que tenho escritores avençados e que só dou o nome… E deve haver outras teorias… Mas, embora tudo isso seja falso, não me desagrada, porque constrói um bocadinho uma mitologia e é interessante um autor ter uma mitologia à volta dele.”

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Vaticanum é o seu 16.° livro de ficção. Desde o primeiro, em 2002, diria que é um longo caminho já percorrido na escrita?

Quando comecei a escrever romances, com A Ilha das Trevas, não tinha outro objetivo que não fosse o de contar uma história relativa a Timor. O que aconteceu foi que fiquei um pouco viciado na escrita. Percebi as potencialidades da escrita de ficção. A partir desse instante – e fazendo uso da minha experiência enquanto jornalista, mas também de cursos de guionismo que fiz na BBC –, fui fazendo a transferência da escrita não ficcional para a escrita ficcional, embora sempre mantendo características importantes da escrita jornalística.

Diz que ficou viciado. O que há de viciante na escrita ficcional?

A possibilidade de contar a verdade através da ficção. É o mais interessante do meu trabalho enquanto romancista e da ficção em geral. No discurso não ficcional – jornalístico, histórico ou jurídico – estamos sempre presos ao que podemos provar. E sabemos, muitas vezes, que há coisas que são verdadeiras mas que não podemos provar e, portanto, não podemos escrever sobre elas. Mas enquanto romancista posso fazê-lo. Não preciso de provar que é verdade, mas posso contar uma história de maneira que toda a gente entenda o que está por trás dela. Através da ficção conseguimos essa transmissão da verdade de uma forma muito e ciente e poderosa, mais poderosa até do que através do discurso não ficcional. Parece paradoxal… mas foi isso que descobri e foi isso que me viciou.

E os temas? Escolhe-os ou são estes que o escolhem?

Nós escolhemos sempre. Podemos dizer, poeticamente, que é o contrário mas, na verdade, somos nós que escolhemos. Muitas vezes acontece-me escolher um tema e decidir não pegar nele porque, pela pesquisa que faço, chego à conclusão de que não há matéria. Também acontece escolher um tema e a meio da pesquisa perceber que a verdadeira história não é aquela, é uma outra. Depois, tenho de me adaptar à nova realidade que a pesquisa me revelou. Mas, para mim, o importante num tema é a possibilidade de contar algo que nunca foi contado. Porque podemos entender a literatura – e, classicamente, entende-se assim – como o exercício da escrita, mas a literatura é muito mais do que isso.

Uma obra pode ser inovadora não pela forma como está escrita mas pelas temáticas que aborda. Se formos ler, por exemplo, O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, a forma como está escrito é relativamente normal; já o tema que ele abordou, a vida sexual dos padres, era um tema proibido no seu tempo. E como esta há muitas obras que podemos considerar banais à luz dos valores de hoje mas que temos de ler no seu contexto. O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, é outro exemplo: quando apareceu foi um grande choque, foi até proibido. Isso é algo que a literatura tem de muito forte. E é o que tento fazer, é o que me interessa na literatura: explorar campos proibidos, desafiar dogmas, quebrar tabus.

É isso que faço quando falo sobre Jesus em O Último Segredo, quando mostro a guerra colonial com o olhar limpo de ideologia em O Anjo Branco, quando mostro o islão radical em Fúria Divina – o discurso politicamente correto é que o islão é uma religião de paz que um grupo de fanáticos sequestrou mas, quando lemos os textos sagrados, o Alcorão e o Hadith, percebemos que a guerra é um pilar do islão. Ou quando, na trilogia As Flores de Lótus, falo sobre as relações entre o fascismo e o nazismo e o socialismo e mostro que o fascismo tem origem no marxismo. É proibido dizer, mas é verdade.

Claro que, depois, tenho obviamente de fazer a demonstração. O desafio da literatura reside exatamente nisso, em desafiar dogmas e quebrar tabus. E é um trabalho que o Eça fez, o Lawrence fez, o [Gustave] Flaubert fez com Madame Bovary. É o grande desafio da literatura.

“O que acontece ao dinheiro que os fiéis doam nas igrejas? Presumimos sempre que é para dar aos pobres, mas não é bem esse o destino…”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É o jornalista a provocar o escritor?

Eu era incapaz de contar uma história do género “O Manuel conheceu a Maria”. Isso não me interessa. Há milhares de livros à nossa volta que contam histórias dessas. A mim só me interessa a ficção enquanto instrumento para contar a verdade, como veículo para rever coisas sobre nós, sobre o mundo, sobre a História, sobre a Ciência.

Não estou com isto a dizer que sou eu quem descobre tudo isto: as informações com que trabalho são conhecidas da academia. A verdade sobre Jesus é conhecida na academia, o islão radical é conhecido na academia, as relações entre o fascismo e o marxismo são conhecidas por académicos que estudam esta área. O grande público é que não conhece.

Mesmo a Guerra Colonial… A verdadeira história não tinha sido contada. O que quis foi fazer esse exercício de transportar para o grande público a informação que está num círculo fechado de conhecimento. Sou, nesse sentido, um popularizador e uso a ficção como um instrumento para essa popularização. Mas, quando o faço, estou de certo modo a criar conhecimento novo, porque a maior parte das pessoas, quando ouve falar destes temas, o que ouve é um conjunto de mitos e de dogmas que é desafiante quebrar.

A religião, ou melhor, as religiões são um tema presente em várias das suas obras. E regressa em Vaticanum. São terreno fértil para a ficção?

As religiões, tanto as místicas como as políticas – o nazismo, o fascismo e o socialismo são religiões políticas, na medida em que à sua maneira prometem o paraíso na terra –, são terrenos férteis porque são terrenos do dogma, do mito e do tabu. São terrenos férteis para a pesquisa e para descobrir a verdade por trás da construção mítica. Em bom rigor, no entanto, Vaticanum não é um livro sobre religião, é um livro sobre corrupção. O tema, verdadeiramente, é a corrupção na Santa Sé, usando informação real, com nomes de políticos, nomes de papas, o que fizeram, e que conduziu a situações gravíssimas cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir. A religião está lá mas o livro não aborda questões teológicas.

jose-rodrigues-dos-santos-livros02Eu, leitor

Com tanta pesquisa, pouco tempo sobra a José Rodrigues dos Santos para a leitura de prazer. Ler pelo prazer de ler é, diz, um luxo a que não se pode dar. Sob pena de os romances deixarem de aparecer… Ainda assim, em julho deixou-se absorver por The Mixture as Before, livro de contos de Somerset Maugham, escritor que partilha o seu top de preferências com Eça de Queirós. Porque ambos perceberam que a qualidade da escrita não está na forma rebuscada mas numa certa simplicidade: “O exercício não está em fingir que somos espertos porque usamos linguagem hermética. O exercício é tornar toda a gente esperta porque usamos linguagem simples e, através de uma linguagem simples, exprimimos ideias complexas.”

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Tomás, por José

“O Tomás somos todos nós. É uma pessoa normal que se mete em situações anormais. É um homem com os problemas das pessoas normais, como a mãe, que tem Alzheimer. E tem uma certa instabilidade emocional. Fisicamente, é um homem moreno, com olhos claros, herança da sua avó, que foi a maneira com que insinuei que seria descendente de uma das personagens de A Filha do Capitão. É uma pessoa inteligente, com uma especialidade: é perito em línguas antigas e em criptoanálise. Desde pequeno que gosta de decifrar, já decifrava os enigmas policiais da revista de banda desenhada Mundo de Aventuras. É algo que lhe dá prazer e um trunfo que faz com que seja procurado quer pela CIA, quer pelo Vaticano, quer pelo CERN, para resolver mistérios modernos, mistérios reais.” José Rodrigues dos Santos dixit sobre Tomás de Noronha, protagonista que está de regresso em Vaticanum. E há alguma coisa do José no Tomás? “Admito que, inconscientemente, possa haver. Que projetemos nas nossas personagens o que somos ou o que queremos ser ou o que não queremos… Conscientemente não, mas admito que seja possível chegar a mim através do Tomás e de outras personagens que vou criando.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É um daqueles temas subterrâneos que importa desconstruir?

Mais uma vez, trata-se de transportar para o conhecimento público um conjunto de informações que não são conhecidas. O que acontece ao dinheiro que os fiéis doam nas igrejas? É uma pergunta interessante. Presumimos sempre que é para dar aos pobres mas, na verdade, não é bem esse o destino… É esse exercício da verdade, de mostrar o que está escondido, que volta a ser o desafio em Vaticanum, a partir do rapto do Papa.

Mas era um tema sobre o qual já havia pensado escrever? O que fez, digamos assim, acender este rastilho?

A ideia surgiu quando estava a ver as cerimónias do início do pontificado do Papa Francisco. Eu tinha decidido nunca fazer um romance passado no Vaticano – em O Último Segredo há uma passagem curta no Vaticano, mas não é um livro sobre a Igreja, é um livro sobre Jesus – porque era um tema que me parecia muito batido. Nesse sentido, gosto de inovar, de pisar terrenos que não são pisados por outros autores.

Mas, ao ver aquelas cerimónias, pensei que tinha de rever essa decisão: achei aquela sumptuosidade, aquela majestade toda, a adoração da púrpura que envolve a cúria romana tão cénica, tão fascinante, que me pareceu que não podia deixar de fazer um romance que aproveitasse toda aquela iconografia.

Depois, a partir daí, a ideia de corrupção emergiu como natural porque é um tema muito pouco conhecido. Finalmente, baseei-me em ameaças feitas pelo Estado Islâmico contra a vida do Papa – ainda em setembro, o Estado Islâmico publicou na sua revista Dabiq um artigo a nomear o Papa como inimigo n.º 1; não o Presidente dos Estados Unidos, mas o Papa. Inspirado nessas ameaças, desenvolvi uma trama funcional em que os extremistas raptam o Papa e anunciam que o vão executar em direto pela Internet.

Escreve uma média de um livro por ano. Entre a pesquisa e a escrita é preciso uma grande disciplina para manter esse ritmo. Sem falar que é jornalista, que dá aulas…

É uma loucura. Mas não é com disciplina, é com paixão. Se gostarmos muito de uma coisa, conseguimos. Tenho muita dificuldade em compreender, embora aceite – porque são muitos autores que o dizem e não o dizem apenas em entrevistas, já mo disseram em privado –, que escrever seja um suplício, quase uma dor física. Eu acredito mas para mim é difícil conceber esta ideia porque a escrita é puro prazer.

Compreendo que um escritor para quem seja doloroso escrever tenha um ritmo de escrita mais lento mas, se temos prazer no que estamos a fazer, vivemos quase obcecados. O Cristiano Ronaldo é o primeiro a entrar nos treinos e o último a sair, o Mourinho a mesma coisa… São bons na sua profissão porque vivem quase obcecados por ela e essa obsessão nasce da paixão que têm pelo que fazem. É o que se passa um pouco comigo. Acordo e vou logo escrever, à noite tenho de me conter para não trabalhar, para não escrever ou fazer mais um pouco de pesquisa. A escrita é a minha vida. Escrevo como respiro.

Se escrever é mais respiração do que transpiração, quando se senta ao computador para escrever a primeira frase imagino que brote fluida…

É fácil. Quando começo a escrever o livro já o tenho na minha cabeça, já tenho a pesquisa feita, embora, claro, continue a pesquisar enquanto escrevo. Aliás, até o livro sair está sempre a ser pesquisado. Mas, no essencial, tenho a trama muito clara na minha cabeça. É como se construísse um ser humano – já tenho o esqueleto, é só pôr a carne. Mas já sei se vai ser louro ou moreno, se vai ter olhos azuis ou castanhos… Essas decisões já estão todas tomadas.

Não quer dizer que, quando estou a escrever, não possa ter melhores ideias. E, se não estou contente, apago e reescrevo até ficar. Mas não tenho a síndrome da página em branco, do escritor que fica bloqueado. E tenho a convicção de que se um escritor tem um bloqueio é porque não fez bem o trabalho prévio ou não fez o trabalho prévio de todo.

Penso também que, para ser prazer para o leitor, tem de ser prazer para o escritor porque, se escrever é um suplício, a leitura também vai ser um suplício. Não entendo a escrita de outra forma que não um prazer, o prazer de conhecer um tema a fundo, o prazer de saber a verdade.

Falou de si como um popularizador de certos temas. Por oposição a ser popular?

Depende do que definimos como popular. Se é um escritor que tem muitos leitores, então serei um escritor popular. Se me disser que um escritor popular é um escritor que só publica romances de cordel, aí não o sou de todo. Porque o romance de cordel não fala de matemática, não aborda a Guerra Colonial, não mostra verdades escondidas sobre as relações entre o fascismo e o marxismo, não fala do islão radical. Mas é possível ser-se um escritor que trata de matéria complexa com uma linguagem compreensível e, nesse sentido, ser lido. As pessoas leem-me. Uma grande maioria, penso eu, porque, ao mesmo tempo que se entretém, aprende. Essa é, talvez, a dádiva dos meus romances.

“O compromisso do jornalista é com a verdade”

Nos seus romances, aborda temas que não são politicamente corretos. Também é assim como jornalista?

A questão do politicamente correto, por vezes, é mal colocada. O compromisso do jornalista é com a verdade. Se a verdade é conveniente ou inconveniente, não é um problema do jornalista, é um problema da sociedade. É tão simples como isto: fui criticado por dizer que o fascismo tem origem no marxismo, mas é mentira? É verdade. Se é verdade, qual é o problema? Disse que Cristo não era cristão. Mas é mentira? Não, na verdade foi isso que os historiadores descobriram. Então, qual é o problema? Enquanto jornalista, o compromisso é o mesmo.

Essas posições têm-no colocado no centro de algumas polémicas, nomeadamente com políticos…

Justamente. Porque os políticos têm uma tendência censória e cabe-nos a nós fazer frente a isso e colocar a verdade à frente de tudo. Não quer dizer que não cometemos erros. Eu já cometi. Mas cometemos erros e retificamos.

Como lida com essas situações?

Agarrando-me ao essencial, que é a verdade. É uma coisa que aprendi na BBC: disseram-me que podíamos dizer o que quiséssemos, desde que fosse verdade. Esse ensinamento apliquei-o ao longo da vida.

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Sente que na RTP, que tem financiamento público, aumenta a tentação da pressão política?

Reconheço isso. Mas também me dá maior responsabilidade para me agarrar à verdade, porque tenho justamente de prestar serviço público. A minha lealdade não é para com os políticos, é para com o público. E o público percebe quando os políticos querem condicionar, quando estão a pressionar, quando estão a intimidar. E percebe quando o jornalista cede e quando não cede.

Ainda em matéria da relação entre jornalistas e políticos, como olha para a controvérsia em torno dos livros de Fernando Lima, sobre os meandros da Presidência da República, e de José António Saraiva, sobre os tempos em que foi diretor do Expresso e do Sol?

Há uma parte positiva, que é percebermos os bastidores da política. Tem até alguma virtude, desde que não haja violação do segredo profissional a que estamos obrigados, porque o segredo profissional é um compromisso que assumimos para conseguir chegar à verdade. O jornalista tem a obrigação de manter o anonimato da fonte, para salvaguardar um bem mais importante que é saberem-se as verdades.

Quanto às questões da vida íntima dos políticos, depende. Se houver um político que faz declarações sobre a fidelidade e depois tem uma vida diferente do que apregoa, pode colocar-se legitimamente a questão da contradição. Mas, no essencial, falar da vida privada de pessoas públicas é ir longe demais e não deve ser feito.

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