José Rodrigues dos Santos: “A humanidade tal como a conhecemos vai acabar em breve”

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Imortal, o novo thriller do autor português que mais livros vende no nosso país, mistura a modificação genética, o transumanismo e um projeto secreto inspirado no Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci, mostrando como a ciência está perto de alcançar o seu maior feito: viver para sempre.

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Imortal parte da experiência científica de He Jiankui, que eliminou o gene CCR5 do corpo de duas gémeas para torná-las imunes ao HIV e, possivelmente, para aumentar a capacidade cognitiva delas.

Ele manipulou os embriões de duas gémeas e depois desapareceu. Descobriu-se mais tarde que o gene CCR5, que regula a entrada do HIV no corpo, também é um gene ligado à inteligência. Começou a suspeitar-se de que, na verdade, tinham sido experiências sobre a inteligência.

Escrever sobre um tema destes deve ter implicado muitas horas de pesquisa sobre biomedicina.

Tive de estudar o assunto, porque todos os meus romances das aventuras de Tomás Noronha têm sempre uma ligação com um tema real: a história é ficcional mas a matéria de que o livro fala é real. Não vale a pena inventar mistérios quando a nossa realidade está cheia deles.

Por isso, peguei num mistério real, que são os planos da China para desenvolver a super-raça – o grande plano nazi que, pelos vistos, os chineses estão agora a pôr em prática – e o regresso da eugenia, que agora se chama transumanismo. George Orwell chamar-lhe-ia Newspeak [no livro 1984], que é mudar o nome às coisas. Em vez de se chamar Ministério da Guerra chama-se Ministério da Paz, mas está a fazer a guerra; o Ministério do Ódio chama-se Ministério do Amor; aqui, em vez de se chamar eugenia, chama-se transumanismo, que na verdade é a mesma coisa, não é? A partir dessa temática das experiências para desenvolver super-heróis que estão a decorrer na China, fiz um romance.

Concorda com este tipo de experiências em seres humanos?

O romance apresenta as várias perspetivas, as vantagens e as desvantagens dessa situação. O que se pode concluir é que a humanidade tal como a conhecemos vai acabar em breve. Em poucas gerações vai desaparecer. Por outro lado, estamos a descobrir que a ciência está a chegar perto do ponto onde vai ser possível viver para sempre.

Acho que são as ilações, além da relacionada com o desenvolvimento da super-raça, que se tiram do desenvolvimento tecnológico e científico que estão em curso neste momento.

Não vale a pena inventar mistérios quando a nossa realidade está cheia deles.

A Chave de Salomão, José Rodrigues dos Santos

Disse que já nasceu o homem que vai viver para sempre.

Sim. Há vários cientistas que dizem isso, que acreditam que o primeiro homem que vai viver para sempre já nasceu e que neste momento eles próprios podem fazê-lo usando determinadas técnicas que estão a ser desenvolvidas. Pensa-se que esse momento está a chegar em breve. Vai transformar tudo, como é evidente.

A imortalidade é um tema importante no romance. Como a encara?

Vai implicar enormes transformações para a humanidade, para as quais não estamos preparados neste momento. Imagina o que é sete mil milhões de pessoas não morrerem nunca? Depois há outro desafio que se levanta: como é que o ser humano vai sobreviver ao fim do próprio planeta – o que vai acontecer mais tarde ou mais cedo.

Acredita na vida após a morte?

Isso é um tema de que já falei num outro romance, A Chave de Salomão, que se foca justamente no que a ciência descobriu sobre o que se passa quando morremos. É uma questão que não é abordada de todo neste livro. Imortal é apenas sobre as descobertas que podem conduzir à possibilidade de não morrermos nunca. No fundo, pretende demonstrar como se chega a esse ponto.

O primeiro homem que vai viver para sempre já nasceu.

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A figura de Tomás Noronha volta a estar presente neste livro. Vê-se algum dia a dizer adeus a essa personagem?

Bem, todas as personagens começam e acabam. Com o Tomás acontecerá a mesma coisa. Mas não tenho nenhum plano para acabar com ele. No outro dia alguém me estava a chamar a atenção para o facto de que é talvez o primeiro grande herói recorrente da literatura portuguesa. Isto é, mesmo os grandes escritores clássicos – do Eça de Queirós ao José Saramago – não tinham um herói recorrente, que é uma tradição que existe no estrangeiro.

Como Daniel Silva com Gabriel Allon ou Dan Brown com Robert Langdon.

E, antigamente, o Maigret, o Tintin, o Poirot… Uma série de personagens que voltam. Na literatura portuguesa essa tradição não existe. O Tomás Noronha é, nesse sentido, algo inovador em Portugal. Se vai acabar? Não tenho planos para isso. Acontecerá um dia, é inevitável, nem que seja quando eu próprio acabar.

Já está a pensar no livro seguinte?

Já. O romance do próximo ano já está praticamente pronto e estou a trabalhar no de 2021.

Quer revelar alguma coisa sobre isso?

Não. No próximo ano falaremos sobre isso.

 O Tomás Noronha aparece?

Não vou revelar nada sobre esse romance.

 Não tenho nenhum plano para acabar com Tomás Noronha.

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Os seus livros costumam ter mais de 400 páginas, além de já ter vinte romances escritos. Como consegue ser um escritor tão prolífico?

Eu tenho muitas ideias, trabalho depressa, gosto de fazer o que faço. Há muitos escritores que dizem que escrever é doloroso. Para mim não, é puro prazer. Faço uma coisa de que gosto e, quando isso acontece, arranjamos sempre tempo e conseguimos fazer as coisas.

Não é propriamente uma pessoa desocupada.

Sim, é verdade. Diverte-me escrever, é algo que gosto de fazer. Uso o meu tempo livre muitas vezes para escrever.

Como é a sua rotina?

Normalmente escrevo na altura do inverno. Nesta fase [do ano] já estou a pesquisar para o seguinte. No inverno começo a escrever, a primavera é para revisões e o verão para começar a pesquisar para o romance seguinte.

Muito metódico.

Sim, as coisas têm de ser feitas com nexo, senão não é possível. Lembro-me que o Ken Follett uma vez me contou que o primeiro livro que ele escreveu foi um fracasso porque não tinha método nenhum, não organizou nada e por isso nada funcionava. As coisas, para funcionarem, têm de ser preparadas e planificadas, como em tudo na vida.

Estrutura o livro inteiro antes de o escrever?

Sim. Isso tem de ser feito, senão dá-se aquele fenómeno que muitos escritores têm e nunca percebem o porquê. “Ah, estou bloqueado.” E estão bloqueados porquê? Porque não planificaram a obra. Se o tivessem feito sabiam perfeitamente para onde ir a seguir. Há esse trabalho e depois o de execução. Acho que quando escrevemos sem ter uma planificação, o risco de bloquearmos é muito grande.

Muitos escritores dizem que escrever é doloroso. Para mim não, é puro prazer.

 

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Escreve todos os dias?

No inverno, geralmente sim. Nas outras alturas não, porque tenho de pesquisar. Quando estou a pesquisar ou a fazer revisões não posso escrever. No momento em que começo a escrever o livro, faço-o todos os dias.

Quantas páginas escreve por dia, em média?

Gosto de escrever dez páginas por dia, o que não quer dizer que consiga. Na verdade, costumo escrever sete páginas por dia, mas há alturas em que chego às dez.

Prefere o processo da escrita ou da investigação?

Gosto de todos, excetuando a revisão.

A revisão é a tarefa mais chata?

Temos de ler o mesmo texto várias vezes e, ainda por cima, é a mesma história.

Já li em entrevistas suas que não consegue escolher um livro preferido entre os que já escreveu. E de outros autores?

O meu livro favorito é A Servidão Humana, de William Somerset Maugham. Dos meus realmente não consigo escolher.

Qual foi o último livro que leu e o que achou?

O último livro que li foi justamente a propósito de Imortal: We Have Been Harmonised [de Kai Strittmatter], sobre a inteligência artificial da China e como é que eles a usam para controlar toda a população e instituir o verdadeiro estado orwelliano.

Por exemplo, as câmaras que reconhecem as expressões faciais.

Sim, também abordo esse tema.

Por: Carolina R. Rodrigues
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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