Joël Dicker: “Todos os meus personagens me surgem desfocados”

Fotografia: Bruno Colaço/4SEE

O autor do fenómeno internacional A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert falou à Estante sobre o novo thriller: O Livro dos Baltimore.

O Livro dos Baltimore

Marcus Goldman, o jovem escritor que protagoniza o bestseller internacional A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, está de regresso num novo thriller centrado em dois ramos de uma única família com uma história repleta de segredos. É o terceiro romance do suíço Joël Dicker.

 


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

História de um Grande Futebolista. Seria um grande romance sobre mim enquanto futebolista. Eu adoraria ser jogador de futebol. Nunca joguei quando era mais novo e era tarde demais quando me comecei a interessar. Mas adoro ver.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Literatura francesa, na sua maioria. Romain Gary, Marguerite Duras, Albert Cohen. São muito, muito importantes para mim. Deram-me o interesse de me tornar autor. E a educação. E depois talvez a literatura russa: Dostoiévski, Gógol, Tolstói. Para mim são modelos nos grandes romances. Os grandes romances são russos.

O que faz para si um bom livro?

O enredo. E também preciso que o livro não se mantenha na superfície. Preciso que o livro tenha algo sobre as linhas e que o autor dê a oportunidade aos leitores de o encontrar, sem explicar tudo.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Foi um livro de David Foenkinos, um escritor francês, intitulado Le Mystère Henri Pick. Adorei. É um livro muito divertido sobre o mundo editorial francês.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Tento escrever em quase todos os dias úteis da semana e tento escrever o máximo que consigo. Alguns dias são completos, noutros tenho reuniões e entrevistas e não posso escrever o dia todo. Mas, na maior parte dos dias, diria que a rotina é acordar bem cedo e escrever tanto quanto consigo. Nunca me imponho um mínimo diário de palavras,  porque acho que se o fizer estou a trabalhar a quantidade e não a qualidade. Às vezes pode-se escrever apenas duas linhas e o livro vai muito longe e às vezes pode-se escrever 12 páginas e não vai a lado nenhum.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Muito no computador, mas também alguma coisa à mão. Mas a maior parte é no computador.

Costuma planear todos os detalhes do que escreve?

Não, escrevo a história tal como é lida. Uma ideia leva à outra. Mas não tenho um plano delineado.


“Às vezes pode-se escrever apenas duas linhas e o livro vai muito longe e às vezes pode-se escrever 12 páginas e não vai a lado nenhum.”


Como lhe surgiu a ideia de O Livro dos Baltimore?

Queria dar a Marcus Goldman [protagonista de A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert] um passado, queria que ele pudesse falar um pouco de si mesmo aos leitores.

A presença de Marcus Goldman neste novo livro indica que se trata de uma espécie de sequela de A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert?

Não é realmente uma sequela, porque não é preciso ler o primeiro livro para compreender este. São dois livros separados que se podem ler de forma independente. Não é uma continuação. O protagonista é o mesmo, Marcus Goldman, mas diria que se trata de um complemento, um ir mais além com o personagem, porque fiquei com a sensação, em A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, que apesar de ter passado 600 páginas com o Marcus, no final o leitor não o chega realmente a conhecer. É como um colega com quem passamos dez anos no escritório e que nos apercebemos um dia que não sabemos verdadeiramente quem é. Eu conhecia-o, mas achei que não tinha dado informação suficiente sobre ele no primeiro livro. Quis resolver isto num novo livro.

Em A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, Marcus Goldman é um jovem escritor que passa por dificuldades ao tentar corresponder às expectativas do próprio sucesso. Tendo em conta o êxito do seu livro anterior, existirá um paralelismo entre si e o personagem? Também sentiu alguma pressão ao escrever O Livro dos Baltimore?

Não, quando escrevemos um livro não há pressão. Estamos sozinhos num quarto a escrever. Não encaramos ninguém. A pressão chega quando o livro é publicado, porque pensamos: “O que é que as pessoas vão achar?” Mas nessa altura já está terminado, impresso, nas livrarias. Por isso não há nada a fazer.

O personagem de Marcus Goldman não tem, então, nada de autobiográfico?

Nada. O registo autobiográfico não me interessa muito. Enquanto autor, o que me interessa é escrever ficção.

O novo livro é uma vez mais passado nos Estados Unidos. Porque não a sua nativa Suíça como cenário de um thriller?

Como o livro anterior já se passava nos Estados Unidos, tive de fazer também este nos Estados Unidos para que fosse coerente. Mas vivi muito tempo nos Estados Unidos, conheço muito bem o país, e por isso é que decidi situar lá estes livros.


“Quando escrevemos um livro não há pressão. Estamos sozinhos num quarto a escrever.”


Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Não sei. Prefiro não dizer nada sobre o próximo livro até estar terminado porque, enquanto autor, nunca se sabe o que vai acontecer. É melhor escrever primeiro e falar depois. Há tantas coisas que posso alterar até estar terminado… Se disser alguma coisa agora estou a prender-me. Prefiro não dizer nada e manter a liberdade de mudar o que quiser mudar.

Parece que A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert está prestes a ser adaptado ao grande ecrã. Se o mesmo acontecer a O Livro dos Baltimore, quem gostava de ver no elenco?

Honestamente não faço ideia, porque todos os meus personagens me surgem desfocados. Por isso é que nunca os descrevo realmente. Até para mim são figuras muito difíceis de descrever fisicamente.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Nunca ter uma folga do trabalho, porque temos sempre uma ideia na cabeça. Nunca estamos em paz.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

É complicado para mim dar conselhos porque ainda sou um autor jovem, mas diria que – e não quero soar convencido – têm de trabalhar muito. E se acham que já trabalham muito, têm de trabalhar ainda mais. Porque é um processo tão longo, um trabalho tão árduo… Têm de trabalhar e continuar a trabalhar. Por vezes há pessoas que dizem que começaram um livro, que já têm dez páginas, mas depois não sabem o que fazer nem como progredir. Têm de persistir e continuar. Não é um trabalho fácil, embora pareça.


Por: Tiago Matos

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