João Tordo: “Um escritor tem de se desafiar para os leitores se sentirem desafiados”

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A FNAC esteve com João Tordo para uma conversa sobre o seu novo livro, A Noite em Que o Verão Acabou, um thriller que arranca com um amor de juventude e a misteriosa morte de um magnata americano.

Numa das últimas vezes que conversaste com a Estanterevelaste que, como escreves na primeira pessoa, acabas por te confundir com a pessoa que conta a história. Também é esse o caso em A Noite em Que o Verão Acabou, no qual o Pedro [personagem principal] é escritor? Passaste algumas das tuas características enquanto escritor e pessoa para essa personagem?

Enquanto escritor não sei. O Pedro é um pretendente a escritor. Acho que a parte que está mais ligada tem a ver com a parte portuguesa do livro: a minha família não era igual àquela, mas tinha características muito parecidas. Tenho uma irmã gémea, tenho uma tia e uma avó muito parecidas com as do livro, e durante muitos anos passei férias na casa dos meus pais, numa vila muito semelhante.

Também cresci naquele tempo: em 1987 eu tinha precisamente 13 anos. Lembro-me muito bem desses tempos e das coisas de que gostávamos. Tem ainda o lado dos Estados Unidos, já que depois estudei em Nova Iorque, com 27 ou 28 anos, e também conheço muito bem o local onde se passa a história, ainda que o nome esteja mudado [Chatham é uma cidade a três horas de Nova Iorque; no livro, chama-se “Chatlam”].

É um livro contado em primeira pessoa, quase como se fosse eu a contar. Gosto disso, de sentir que estou a escrever a minha história. Gosto de viver aquilo como se fosse uma aventura minha. Gosto muito da confusão entre narrador e autor e de estar presente no livro.

Pode dizer-se que, de certa forma, enquanto escritor, desapareces um pouco nas personagens. Incluis elementos biográficos em todos os teus livros?

É uma pergunta engraçada. Nunca tinha visto as coisas assim. Sim, acho que desapareço para depois aparecer. Mas é uma boa descrição: quando começo a escrever é como se não estivesse ali presente, porque a minha vida quotidiana está em suspenso. Quando escrevo estou num mundo diferente, no mundo daquela história.

E sim, incluo [elementos biográficos] em todos. Quando escrevi O Luto de Elias Gro, visitei antes a ilha, muito pequena, e passei uma semana na parte interior do farol. Se não tivesse vivido certas experiências, passado por certos lugares e conhecido certas pessoas, não teria escrito estes livros.

Isso quer dizer que passas mais tempo no mundo das personagens do que no mundo real?

Quando estou a escrever, sim. É um processo em que começo muito cedo de manhã, por volta das 8h30 ou 9h00, e depois fico a escrever até às 14h00 ou 15h00, seguido de uma pausa. À noite já estou a pensar naquilo outra vez. A vida de escritor é muito assim: dedicas 80% da tua energia a isto. O resto fica para a vida normal. Às vezes é muito difícil lidar com o dia a dia, até porque estou muito submergido na história, mas faz parte do ofício.

É um poder que tens: concentrares-te no mundo que estás a criar e ficares totalmente absorvido.

Acho que tem de se ter uma ligação emocional muito grande à história. Tem de ser um desafio e trazer ao de cima certos temas e assuntos que produzem inquietação. Penso que o simbolismo e a metáfora, que é como as histórias são construídas, são muito importantes. Se tiveres uma ligação emocional com o livro e se fizeres a aventura com a personagem, tem muito mais impacto do que se for simplesmente dito. Daí a força das histórias.

Quando as contamos, estamos a aludir ao que já temos cá dentro mas de uma forma simbólica. Há ali quase um lado de catarse, como descrevia Aristóteles na tragédia grega, quando o protagonista se dá conta das consequências das suas decisões e escolhas.

Andaste muito tempo à procura da tua identidade enquanto escritor e pessoa?

Sim, e não sei se a encontrei. Acho que a nossa identidade é formada nos primeiros anos de vida: primeiro o caráter e a personalidade, entre os 7 ou 8 anos, e depois as nossas primeiras experiências emocionais, que podem ser muito boas ou muito traumáticas.

O Pedro tem as duas vertentes. Há a experiência da rapariga que o fascina tanto quando ele está naquela fase vulnerável dos 13 anos – que acontece tanto a rapazes como a raparigas, sendo eles mais vulneráveis do que se pensa. A experiência deixa-o muito perturbado. Dez anos depois, tem o azar de ir para os Estados Unidos e de reencontrar a Laura numa situação difícil, porque o pai dela acaba de ser assassinado. Ele envolve-se naquela situação sem saber muito bem como. Isso forma (ou deforma) a sua vida.

A vida de escritor é muito assim: dedicas 80% da tua energia a isto. O resto fica para a vida normal.

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Uma figura importante para o Pedro é o Gary List, um escritor famoso. Também tiveste um mentor?

Não, mas também fui para os Estados Unidos estudar, como o Pedro, e vivi em Londres alguns anos – saltei entre países de língua inglesa. Tal como ele, também estava à procura da minha identidade enquanto escritor.

Também gostava muito de alguns escritores americanos. Acabei por nunca conhecer o Philip Roth porque ele vivia isolado numa casa de campo, não recebia visitas e não ensinava em nenhuma faculdade, mas conheci o Paul Auster, que é um autor de que sempre gostei muito.

Nessa altura também fui com esse sonho: queria escrever, mas não sabia como. Como muito da minha influência foram autores anglo-saxónicos, achei que podia encontrar de certa maneira uma via por aí. Com o passar dos anos, fui adquirindo outros gostos e regressei aos autores que lia na infância: os russos, os franceses, os espanhóis. Nunca tive um mentor. Com pena ou sem pena, não sei.

Há vantagens e desvantagens em ter um mentor.

Sim. Por um lado, podes ficar muito colado a uma certa voz e depois não te consegues libertar daquilo; por outro, também te pode ajudar.

Tal como o Pedro, também tiveste uma fase em que querias ser escritor mas não sabias muito bem como?

Nessa altura eu era jornalista. Apesar de ter estudado Filosofia, fui para Londres e tirei um mestrado em Jornalismo. Comecei a trabalhar como jornalista no final do curso e trabalhei durante vários anos até 2005 ou 2006, mas depois percebi que não era para mim. Queria muito escrever, porque era uma coisa que eu fazia desde criança e sempre senti que era o que queria fazer, mas não sabia muito bem como. Não tinha uma voz própria. Tinha apenas alguma experiência no sentido de escrever mas não de publicar. Só editei o meu primeiro livro com 28 anos [O Livro dos Homens Sem Luz].

Sabia o que queria fazer, mas não sabia como, tal como o Pedro. Ninguém nasce escritor, é uma construção. Precisas de experiência, de te enganares muitas vezes, de escreveres sem objetivo.

Nunca tiveste a urgência de publicar?

Eu escrevo e publico com muita regularidade e tenho os livros escritos com alguma antecedência. Este estava pronto em setembro de 2018. E já acabei o que vou publicar em 2020.

Há alguma informação sobre esse livro que possas partilhar?

Nos primeiros meses de 2020 (talvez março ou abril), vou lançar o meu primeiro livro de não ficção. Já na rentrée, vou publicar um romance que se passa durante os últimos anos da ditadura em Portugal.

Voltando ao Gary List, para esta personagem escrever é uma tortura. Também tens períodos assim, de bloqueio criativo?

Sim, já me aconteceu. Com o Gary quis dar um bocadinho a imagem do que seria um escritor norte-americano. Quis desmontar essa figura do escritor boémio, que bebe e sai com raparigas. Quis mostrar o que de facto acontece a escritores com a idade do List (aproximadamente 60 anos) quando têm um sucesso precoce e os livros seguintes não são melhores. Apesar disso, continuam com os mesmos vícios.

Como escritor, aconteceu uma vez depois de ter recebido o Prémio José Saramago, em 2009, por ser um prémio tão importante em Portugal. Só tinha 33 anos e três livros publicados. Aquilo afetou-me, embora esteja muito grato, e também se senti bloqueado porque as expectativas eram altas e não sabia se correspondia. Depois, com o tempo, acabou por se resolver naturalmente a situação.

O Gary List lembra muito J.D. Salinger.

Eu quis que o List fosse uma mistura entre Charles Bukowski, Salinger (uma espécie de eremita) e Philip Roth.

Nos primeiros meses de 2020, vou lançar o meu primeiro livro de não ficção.

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Na trilogia composta por O Luto de Elias Gro, O Paraíso Segundo Lars D. e O Deslumbre de Cecilia Fluss, fizeste dos vários livros narrativas independentes mas com pontos comuns. O mesmo modelo poderia aplicar-se a este livro ou já é finito?

Com este livro acho que não, porque é muito grande e porque a história surgiu-me quando voltei à casa de férias dos meus pais em janeiro de 2017, ou seja, pertence a uma circunstância muito particular. Ao mesmo tempo apetecia-me escrever um policial, um thriller, uma vez que é um género que gosto muito de ler e que me diverte muito.

De todos os meus livros, este foi o que mais me diverti a escrever. Os outros, como a trilogia que referes, foram livros difíceis, que me exigiram muito e foram complicados emocionalmente. Este é mais leve. Quando cheguei ao final do livro, percebi que isto é tudo o que eu consigo contar sobre esta história. O que acontece depois depende muito da imaginação do leitor.

Não sei se alguma vez voltarei a estas personagens, mas por enquanto não. Gostaria de continuar a escrever thrillers mas queria ter uma personagem feminina.

Um grande tema deste livro é a perda: de um pai, de uma irmã, de uma família, de um amor de juventude, de um sonho. É difícil escrever sobre esta experiência humana?

Sim, é. Não comecei por pensar no livro assim: queria juntar as histórias de um verão e de um crime. Agora que se fala nisso, há de facto a perda de um pai, de um amor e sobretudo de uma certa ilusão da juventude. Isso é engraçado porque se tivesse 25 ou 30 anos não conseguia escrever este livro. Agora, aos 44, já consigo olhar para trás e perceber que muitas das nossas ilusões acabam por desaparecer. Se calhar o tema é esse e nem me tinha dado conta.

Tanto em O Bom Inverno como em A Noite em Que o Verão Acabou, há um mistério em redor de uma personagem que é assassinada. Pode dizer-se que este livro marca o teu retorno à escrita de thrillers?

Não acho que O Bom Inverno seja um thriller. É uma obra muito estranha que escrevi em circunstâncias particulares, porque foi logo a seguir ao Prémio Saramago. Queria escrever uma coisa que não fosse coisa nenhuma e acho que o consegui, porque as pessoas que o leem ou gostam ou detestam. Isso dá-me algum prazer. A Noite em Que o Verão Acabou é mais um thriller num sentido clássico. Na próxima vez, gostava que o protagonista fosse um detetive. Ou uma detetive.

Quais são os teus livros preferidos dentro deste género? Tens algum autor que destaques?

Sim, quando comecei a ler policiais lia muito Sherlock Holmes e Agatha Christie. Foi assim que aprendi o género. E também com o escritor Raymond Chandler. Mais tarde, os portugueses José Cardoso PiresFrancisco José Viegas. Depois vieram os nórdicos, como o Stieg Larsson, que escreveu A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo, por exemplo, e o Jo Nesbø. Também vejo séries policiais.

Mas este é o teu género literário preferido?

Dentro de géneros, sim. Prefiro ler um thriller ou um policial a um romance histórico.

No entanto, o teu livro preferido é o Moby Dick.

Sim, mas por outras razões. O Moby Dick é especial porque mistura vários géneros. É um livro de aventuras, pode ser um documento religioso, tem uma enciclopédia de baleias lá no meio. Por isso é que no seu tempo foi largamente ignorado e um fracasso. Em vida, Herman Melville vendeu 1500 livros. Depois de morto, vendeu milhões porque se tornou um clássico.

É um dos meus livros preferidos. Outro é Crime e Castigo, de Dostoiévski, uma espécie de thriller.

Andas a ler algum thriller? O que está na tua mesa de cabeceira neste momento?

Estou a ler As Gémeas do Gelo de S. K. Tremayne. Comecei agora. Há pouco tempo acabei de ler A Luz de Pequim, de Francisco José Viegas.

A propósito de autores portugueses, como encaras o panorama atual da literatura nacional?

Acho que depois de uma geração muito forte que apareceu na viragem do século, que veio com muita força e publica muito, acho que há menos vozes novas interessantes hoje em dia. Mas as gerações são assim: vão-se renovando. Só que demora algum tempo.

Tivemos a geração de António Lobo Antunes, José Cardoso Pires e José Saramago entre os anos 60 e 70, depois veio a geração dos anos 2000 e se calhar só vamos ter uma geração forte como estas daqui a 15 anos. Mas acho que já somos suficientes para que a literatura portuguesa esteja bem composta.

Não é um trabalho fácil. Em Portugal não é um trabalho bem remunerado, nem ficas rico. Tens de gostar mesmo do que fazes. Felizmente, trabalho com uma editora que me dá muito apoio, mas continuo a ter de fazer muitas coisas além disso: dou aulas, faço traduções, apresentações públicas, viagens. 

Se tivesse 25 ou 30 anos não conseguia escrever A Noite em Que o Verão Acabou. Agora, aos 44, já consigo olhar para trás e perceber que muitas das nossas ilusões acabam por desaparecer.

 

Dás aulas de escrita criativa?

Não, dou aulas de escrita literária, no sentido em que não gosto muito de dizer isso porque depois aparecem pessoas nas minhas aulas que estão à espera de uma coisa e levam com outra. É escrita de romance ou escrita literária. Nas sessões, vamos muito à tradição literária, aos clássicos, chegamos a ir aos gregos, passamos pelos russos do século XIX e da modernidade até aos contemporâneos. O objetivo é aprender a ler como um escritor e a escrever como um leitor.

Na página final de A Noite em Que o Verão Acabou, agradeces à The MacDowell Colony [uma colónia de artistas em New Hampshire, nos Estados Unidos] pelo “alojamento e tempo indispensáveis”. Em que medida é que este lugar te inspirou a escrever o livro? 

Acabei o livro lá. Foi planeado, porque não estava muito longe do lugar onde se passa a história. Já estive em várias colónias de artistas, mas esta foi particularmente importante. É um mês em que estás completamente separado do mundo. Não tens de tratar de nenhuma das coisas práticas do dia a dia, porque estás fora do teu país, longe do teu quotidiano, o que ajuda muito porque a concentração é total. Não tens mais nada para fazer além de escrever. É bom porque, ao fim de uns dias, parece que começas a libertar-te do stresse. E depois tens um mês pela frente para ter prazer na escrita.

Consegue ser-se muito produtivo.

Sim, é muito produtivo. Escrevo mais num mês lá do que em três meses em Lisboa.

Imagina que tem 80 anos. Olhando para trás, o que mais gostarias de ter conquistado como escritor? Ganhar um Nobel, vender milhões de livros, ser um autor conhecido em todo o mundo?

Acho que o que mais gostava era de ter escrito livros que fizessem os leitores sentirem-se continuamente desafiados e sentir que eu estava vivo, que não me tinha rendido a fórmulas e repetições constantes.

Ou seja, histórias que perduram no tempo e que não são esquecidas ao fim de alguns anos.

Para mim isso é muito importante, também por não estar sempre a fazer as mesmas coisas e conseguir compreender-me a mim próprio como pessoa e escritor, enquanto os leitores o acompanham.

Se eu chegar aos 80 anos e tiver muitos leitores, será por causa disso. Acho que nenhum escritor sobrevive tanto tempo sem arriscar, sem sair do seu lugar mais confortável e sem se desafiar. Esse risco, que eu estou a passar agora com o thriller, vou voltar a correr com a publicação de um ensaio. Um escritor tem de se desafiar para os leitores se sentirem desafiados.

Por: Carolina R. Rodrigues
Fotografias: Wilson Pereira

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