João Gomes-Pedro: “É mentira que o pediatra seja apenas o médico das crianças”

Com uma carreira de 50 anos, João Gomes-Pedro é um dos mais conceituados pediatras em Portugal. Pensar a Criança, Sentir o Bebé, o seu mais recente livro, serve de mote a uma conversa com a Estante.

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É médico pediatra há 50 anos. As crianças e os bebés continuam a surpreendê-lo?

Sim, sempre. O conhecer, de uma forma profunda, as competências do bebé, aquilo que leva a mãe e o pai a ficarem apaixonados pela sua criança, ainda é uma fantasia.

O facto de o bebé comandar a interação que tem com a mãe e com o pai leva a uma paixão incrível e potencia a relação. Não só com eles, mas com os avós e os amigos. E o facto de 1,2 milhões de neurónios surgirem como que por encanto, mostrando aos pais e aos profissionais como o fortalecimento do vínculo é vital para tudo aquilo que vai acontecer ao longo do ciclo da vida, é fascinante. Esta potenciação do vínculo é a melhor arma que hoje temos para garantir um caminho para a felicidade.

Até há pouco tempo, a felicidade era um termo um bocado foleiro. Mas hoje temos uma constatação neurocientífica de que a felicidade não é essa coisa foleira, de gracinhas, é qualquer coisa que fortalece um laço, um vínculo, e que se vai repercutir 10 anos depois, 20 anos depois, 30 anos depois, em função do que aconteceu nos primeiros anos de vida.

E os pais? São diferentes hoje do que eram quando começou a exercer pediatria?

Os pais começaram, a partir do final da década de 1970, a ser influenciados pela criatividade de Berry Brazelton, o pediatra mais fantástico de toda a existência. Brazelton mostrou a importância de se criarem laços com o organismo da criança. De facto, a sua pergunta é pertinentíssima. É que na altura os pais sentiam que era a importante a criação de um vínculo, mas de uma maneira muito diferente de hoje em dia.

Uma mãe não acreditava que o bebé podia estar a 15 centímetros de si quando estava a mamar, a olhar para os seus lábios, para os olhos e para as sobrancelhas, gerando uma comunicação. Os pais nessa altura ainda julgavam que o bebé era incapaz de ver e ouvir, incapaz de reagir.

Ora, a partir de Brazelton, os pais passaram a saber que o bebé já é competente, já quase fala, já comanda a interação, já se organiza para regular os seus estádios, nomeadamente de choro e de agitação motora. E os pais que descobriram isto já não abdicaram, de modo algum, de investir nas suas potencialidades, nas suas fantasias. A descoberta do bebé cedo, protegida e mediada pelo profissional, faz criar um vínculo fortíssimo.


Até há pouco tempo, a felicidade era um termo um bocado foleiro.


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Então hoje em dia há um interesse muito maior em desenvolver esse vínculo.

Os pais agora já acreditam nas competências visuais, auditivas, táteis e sensoriais do bebé. E querem mais. Querem conhecer e descobrir como é que o bebé se autorregula e como deve ser a nossa intervenção para o acalmar.

É nisso que assenta o seu modelo de touchpoints.

Sim. Eu aprendi medicina num modelo patológico, centrado na doença. Mas, com uma evolução de dezenas de anos, hoje acreditamos num modelo relacional, num modelo de touchpoints. E acreditamos que é preciso prevenir as novas predações, tudo aquilo que pode corromper o vínculo da relação. Os predadores nos primeiros tempos de vida do homem eram o frio, a guerra, os alimentos. Agora são as agressões ao vínculo.

Temos uma taxa de mortalidade infantil das melhores do mundo, abaixo de 3 por 1000. Salvamos da morte muitas crianças, nomeadamente bebés pré-termo. Mas não nos chega. Essa ameaça dos novos predadores, a separação familiar, a vivência em duas casas distintas, o ter a semana do pai e a semana da mãe… É um ataque ao vínculo.

Sempre foi fascinado pelo crescimento humano? Ou o interesse pelas crianças veio associado ao interesse pela medicina?

No meu tempo não havia a dificuldade que hoje há em entrar nas faculdades de medicina. Mas a medicina era centrada na patologia. O conhecimento das doenças, do diagnóstico, do prognóstico, da prevenção face a patologias várias como a diabetes ou a hipertensão, despertou-me para um mundo, pouco científico na altura, mas para um mundo maravilhoso que se identificava com a pediatria.

E a pediatria foi buscar bases científicas não à medicina clássica, mas à psicologia, à antropologia, à ecologia e à etologia, permitindo caracterizar aquilo que estava a acontecer na criança em desenvolvimento.

Esta explosão, esta descoberta quase infinita e incessante sobre o bebé e os pais, fez-me acreditar que podia fazer mais, fazer a diferença. E fez-me apaixonar pela realidade de cada bebé.


Os predadores nos primeiros tempos de vida do homem eram o frio, a guerra, os alimentos. Agora são as agressões ao vínculo.


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Podemos dizer que, em Portugal, falta um acompanhamento psicológico e emocional aos pais? Falta implementar esse tal modelo relacional?
Falta, acima de tudo, uma formação científica nas áreas fundamentais que estruturam a pediatria.

O seu mais recente livro, Pensar a Criança, Sentir o Bebé, é uma tentativa de corrigir essas lacunas?

É um livro um bocadinho revolucionário, na medida em que foge dos parâmetros tradicionais das obras projetadas sobre o bebé. O livro mostra, de uma forma desafiante, o que pensa a criança. E o que nós fazemos para dar valor a essa criança.

Durante anos pensou-se no desenvolvimento humano como uma trajetória linear, de baixo para cima, que tem um término. Depois constatámos que essa trajetória não é linear e ascendente. Hoje sabemos que o desenvolvimento humano se processa por um modelo de escada, com vários degraus, que correspondem a vários períodos de crise na nossa vida. E o livro fala-nos disso.

Respondendo à questão, onde eu acho que de facto há lacunas que têm de ser preenchidas é na formação contínua dos profissionais, de modo a serem inspirados e a serem agentes de mudança.

Está confiante de que os futuros profissionais abracem o seu modelo de touchpoints?

Pensar a Criança, Sentir o Bebé é um desafio para todos os profissionais, mesmo para aqueles que já estão sensibilizados com aquilo que temos promovido em termos de formação. Mas isso ainda não chega.

O nosso objetivo máximo é que, daqui a 10 anos, todos os pais tenham oportunidade de conhecer melhor o pediatra e ver respondidas perguntas fundamentais sobre o comportamento do bebé e da família. E que outros milhares de profissionais sejam capazes de entender um novo modelo de desenvolvimento. Essa é uma missão fundamental da Fundação Brazelton/Gomes-Pedro. Queremos investir em formar mais técnicos.

São necessárias qualidades especiais para se ser pediatra?

Diria que sim. Uma das mentiras que mais ouvi ao longo da minha vida foi a de que o pediatra é apenas o médico das crianças. Não me identifico nada com isso. O pediatra é o médico da criança e da sua família, do seu envolvimento, da sua circunstância, da sua epigenética. É o profissional da relação do bebé e da criança com o cão, com o gato, com o papagaio, com a tartaruga. É este envolvimento que dá sentido e força àquilo em que acreditamos.

Pensar a Criança, Sentir o Bebé é um desafio que faço a mim próprio, primeiro, e depois a toda a população, profissionais ou não profissionais, pais e avós, para que ponham em revista tudo aquilo que também eles foram enquanto bebés e crianças, e tudo aquilo que ambicionam ou aspiram para o bem do mundo.


Pensar a Criança, Sentir o Bebé é um livro um bocadinho revolucionário. É um livro devotado ao coração, ao sentimento.


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Em que altura da sua carreira decidiu começar a publicar livros?
À medida que fui progredindo na carreira hospitalar, no Hospital Santa Maria, fui-me dando conta de que o modelo patológico era ultrapassado e que devia focar-me no modelo relacional, um modelo mais interativo, que favorece e viabiliza a paixão.

Já eu era professor auxiliar na faculdade de medicina – mas ainda não catedrático – quando me convenci de que seria pela educação que podíamos mudar as coisas e que era necessário alterar algo estruturante nos currículos das várias cadeiras.

Formámos o departamento de educação médica, formámos mais umas centenas de pessoas ligadas à saúde, fizemos mais projetos de investigação e, a partir daí, fizemos centenas de conferências, criámos cursos intensivos, workshops e eventualmente publicámos livros. Livros sobre sexualidade e sobre a comunicação de uma maneira geral. Quase todos eles esgotaram.

Hoje em dia temos a possibilidade, através dos escritos, das investigações, dos livros publicados, dos artigos científicos, de fazer acordar a família para as novas competências do bebé.

Que impacto tem tido este livro na vida de mães e pais? Recebe feedback?
Ouço coisas surpreendentes que não julgava serem possíveis. Tenho tido revelações extraordinárias. Pessoas que me dizem: “É um livro um bocadinho difícil, mas pegamos nele e não queremos largar.” Acho isso extraordinário, porque a intenção não era fazer um livro como os de Spock, em que uma mãe tem uma dúvida e vai ver ao livro aquilo que pode fazer.

Este livro não tem estratégias ou receitas significativas. Tem um propósito de, conversando amenamente com os pais através do texto, criar uma sensibilidade, atender às fantasias, aos sonhos parentais, e ajudar a melhorar a forma como pai e mãe se organizam para garantir a felicidade da criança.

É um livro devotado ao coração, ao sentimento. Dá relevo àquilo que os pais sonham e fantasiam. Aliás, quando o bebé ainda está na barriga, já os pais constroem sonhos sobre o bebé ideal, sobre um bebé fantasma. E nós ajudamos nesse processo.

Confirma que vai deixar de dar consultas este ano?

Fui um bocadinho mal interpretado quando disse isso. A minha perspetiva é esta: estou a conseguir, sem esforço, garantir várias coisas simultaneamente. Uma delas é garantir a continuidade de uma vida clínica.

Por enquanto, gosto imenso do que faço. O que procurei dizer foi que poderei deixar de dar consultas com a vigência de, porventura, não estar tão bem física ou intelectualmente. Mas isso ainda não acontece, creio eu. Tenho a noção de que a idade limita, mas também fornece uma potencialidade e conhecimento que nunca tive antes.

Por isso, 2018 é um ano em que vou por à prova aquilo de que sou capaz. A única coisa que pretendo constatar é se ao longo deste ano mantenho uma forma intelectual, de exercício prático, de competência, e se consigo continuar a publicar livros ou artigos científicos, a atuar como presidente da Fundação Brazelton/Gomes-Pedro, a garantir um apoio à minha fundação, aos meus colegas e aos meus colaboradores. É um caminho ambicioso.

Falando de livros de uma forma mais ampla, qual foi o último que leu?
Leio várias coisas ao mesmo tempo, mas um dos últimos livros que li, e pelo qual me apaixonei verdadeiramente, foi o último que Brazelton escreveu: Learning to Listen.

Ultimamente, por necessidade de equipar todo o texto para este livro e dar-lhe uma forma harmoniosa, o meu tempo tem sido gasto – no bom sentido – a ler livros que não posso chamar de científicos, mas de reflexão, educação, de certa forma filosóficos.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?
Talvez o mesmo título de um livro que estou a pensar publicar a seguir a este – embora talvez não em 2018. Da Ternura à Dignidade.


Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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